Corrupção Tucana

Um fantasma ronda o PSDB

Graças ao Ministério Público Suíço foram descobertas as contas secretas associadas ao ex-chefe da Dersa, o já famoso Paulo Preto. Mas o que mais chama a atenção nesse caso, além do montante elevado de R$ 113 milhões e a morosidade da Justiça, é a falta de indignação de muitos que se dizem expoentes da luta contra a corrupção. Diante de tais fatos, fica claro o tratamento seletivo dos moralistas sem moral, mas ao Ministério Público e ao conjunto do judiciário brasileiro não cabe, ou não deveria caber, a seletividade. A gravidade das denúncias impõe uma investigação rigorosa para se elucidar a origem e o destino do dinheiro e punir os culpados.

Os tucanos já se acostumaram a viver à sombra da blindagem. No caso em questão, envolvendo o Paulo Preto, não há tempo hábil para um julgamento anterior ao período eleitoral que impeça a candidatura dos caciques tucanos envolvidos no caso. Passadas as eleições, serão novas composições, novo fôlego para fazerem o que mais sabem, protelar até que o caso prescreva.

Por isso, é necessária a máxima atenção à essas denúncias. No que depender da grande mídia, a cobertura vai se dar no mínimo necessário para que não fique tão evidente para um público mais geral a sua seletividade. As informações envolvendo Paulo Preto lançam luz sobre um esquema que passou ileso, inclusive com vastas denúncias envolvendo o chamado trensalão tucano e a colaboração também do Ministério Público Suíço no caso Alston, que foi solenemente ignorado pelo judiciário paulista. O Grupo CCR, por exemplo, mesmo sendo composto por Andrade Gutierrez e Queiroz Galvão, empreiteiras diretamente envolvidas em casos de corrupção na Petrobras, estava ficando completamente ao largo das denúncias, como se a corrupção só ocorresse em âmbito federal.

Vale lembrar o histórico de corrupção envolvendo o PSDB e como esse partido vem escapando ileso. Já na reeleição de FHC ficou comprovada a compra de votos, mas as investigações foram abafadas na época. A privataria tucana, com a venda da telefonia e acordos de R$ 22 bilhões com acertos gravados também ficou na mesma. O famoso mensalão mineiro é outro caso típico da morosidade da justiça quando se trata dos tucanos, uma década depois de denunciado, quase metade dos acusados não foi julgada e outros já se beneficiaram da prescrição. Mesmo em casos envolvendo a Petrobras, quando Nestor Cerveró apresentou denuncias na LavaJato que envolviam a Braskem no período FHC, foi obrigado a mudar de assunto, o governo tucano não fazia parte do escopo das investigações.

Por mais que os tucanos sejam profissionais em empurrar as denúncias para debaixo do tapete, o nome de Paulo Preto insiste em assombrá-los. O caso é antigo e já passou para o folclore político quando em 2010, depois que José Serra disse em um debate não conhecer Paulo Preto, este fez questão de refrescar a memória do tucano com uma singela ameaça: “Serra me conhece muito bem. Até por uma questão de satisfação ao país, ele tem que responder. Não se larga um líder ferido na estrada a troco de nada. Não cometam este erro”.

Agora os caciques tucanos tentam empurrar um para o colo do outro a relação com Paulo Preto. A verdade é que ele foi nomeado por Alckmin, foi adotado por Serra e é amigo de Aloysio Nunes. A verdade é que Paulo Preto é figurinha carimbada em várias delações, ano passado delatores da Odebrecht o acusaram de ser o operador de propinas no caso “trensalão”. Paulo Preto também foi citado no caso Cachoeira como sendo o elo entre o PSDB e a empreiteira Delta. Agora o empresário Adir Assad, acusado de usar suas empresas para “gerar” dinheiro vivo para empreiteiras, afirmou em delação que operou para o Grupo CCR, por indicação de Paulo Preto. Este teria recebido de Assad “comissões” decorrentes dos ganhos obtidos com os esquemas pela CCR.

O dinheiro encontrado no exterior corrobora com todas as delações e torna evidente o papel de Paulo Preto nas campanhas tucanas, tido como uma espécie de tesoureiro informal do PSDB. Não é à toa que mesmo com toda a proteção, os caciques tucanos andam preocupados, o conjunto da obra torna possível uma doação premiada de Paulo Preto.

Apesar de um tentar passar a bola para outro, sabem do potencial destrutivo para uma campanha eleitoral que já começa combalida, com Alckmin não conseguindo decolar e tendo que contar com o boicote interno entre os próprios tucanos, ávidos por encontrar uma alternativa eleitoral mais competitiva do que o ex. Governador paulista.

Os tucanos podem ter muitos fatores a seu favor, como o papel vergonhoso cumprido pelo judiciário paulista, o fato de que a investigação sobre Serra, Aloysio e Paulo Preto no STF estar nas mãos de Gilmar Mendes e a já tradicional mãozinha amiga da grande imprensa. Mas depois que Aécio Neves foi desmoralizado em nível nacional e praticamente todos os promotores do golpe se viram envoltos em corrupção, não há espaço para posarem de inocentes. Por mais que tentem esconder, a verdade vem à tona. Caberá ao judiciário brasileiro a escolha entre enfrentar o problema e elucidar o caso ou também se desmoralizar junto com os tucanos.

 

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