23 laureados pelo Nobel alertam para o desmonte da ciência no Brasil

Não é apenas dentro do país que Temer amarga enorme impopularidade, onde pesquisas recentes apontam para meros 3% de aprovação. No exterior, Temer também provoca reações negativas. Não há ambientalista no mundo que veja Temer com bons olhos, uma vez que ele faz da Amazônia moeda de troca para sobreviver a pesadas denúncias. Tampouco será tarefa fácil encontrar um representante da comunidade científica que demonstre apreço pelo presidente, considerando o verdadeiro desmonte que seu governo vem causando na área. Meio ambiente, ética e conhecimento são de preocupação internacional, o que torna natural que figuras de renome internacional teçam críticas a Michel Temer. Se o Brasil não quiser se apequenar, se quiser ser respeitado como força política global, há que atentar para o que 23 vencedores do Prêmios Nobel estão nos dizendo.
“Vossa excelência Presidente Michel Temer, Nós, os abaixo assinados ganhadores do prêmio Nobel, escrevemos para expressar nossa forte preocupação sobre a situação da Ciência e Tecnologia no Brasil. O orçamento para pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações sofreu um corte de 44% em 2017, e um novo corte de 15,5% é esperado para 2018. Isso vai prejudicar o país por muitos anos, com o desmantelamento de grupos internacionalmente renomados e uma ‘fuga de cérebros’ que irá afetar os melhores e jovens cientistas. Enquanto em outros países a crise econômica levou, às vezes, a cortes orçamentários de 5% a 10% para a ciência, um corte de mais de 50% é impossível de ser acomodado, e irá comprometer seriamente o futuro do país. Sabemos que a situação econômica do Brasil está muito difícil, mas pedimos ao senhor que reconsidere sua decisão antes que seja tarde demais.”
Esperamos que palavras como essas forcem a um recuo nesse plano de desmonte acelerado, assim como a pressão significativa de ambientalistas obrigou Temer a recuar em seus planos para a Renca. Não é admissível que um presidente que chegou ao poder sem voto popular provoque tamanho dano para a pesquisa científica. Se isso for adiante, podemos levar décadas para recuperar o estrago. Temos vistos cortes drásticos nos programas de bolsa, programas que deveriam ser vistos como investimento, não como meras despesas, nessa visão restrita do governo. E, o que é gravíssimo, uma situação de calamidade nas universidades, que dispunham de verba até setembro, mas a partir de agora não se sabe como pagarão suas contas.
Não podemos nos deixar convencer de que não há alternativa. A austeridade se aplica apenas a programas de bem comum, pois Temer tem sido bem generoso com quem possa lhe dar sustentação. Nesta terça-feira mesmo, recebeu mais de quarenta deputados para negociar emendas para salvar seu pescoço da próxima denúncia. Vale lembrar também que o ministro de Ciência, Tecnologia e Inovações e Comunicações, Gilberto Kassab, queria a aprovação, às pressas, de projeto que concederia cerca de R$ 100 bilhões para empresas de telecomunicações. O STF exigiu que o texto voltasse ao Senado e ainda julgará o mérito do projeto, mas o episódio já deixou claras as prioridades do ministro que deveria zelar pela ciência.
Um governo que se nega a investir em conhecimento só pode fomentar desigualdade e ignorância. Nenhum país se desenvolve adequadamente sem pesquisa, sem uma aposta na inteligência e na inovação. Não é à toa que a comunidade científica internacional se mostre consternada com o rumo que esse governo usurpador está tomando. Para evitar a fuga de cérebros, para que o Brasil possa se atualizar, se desenvolver e ocupar espaços de influência no palco das nações, é de vital importância que o investimento em ciência e inovação seja encarado com máxima seriedade.