10/09/2003
Ivan
Valente é solidário ao presidente
argentino Néstor Kirchner, que decidiu não
pagar a parcela da dívida com o FMI
O SR. IVAN VALENTE
Sr. presidente,
sras. e srs. deputados, ontem a Argentina, nosso
país vizinho, deixou de pagar parcela de
US$ 2,9 bilhões ao Fundo Monetário
Internacional, o que foi considerado o maior calote
da história dessa organização
internacional. O presidente Kirchner resolveu não
pagar essa parcela porque não havia garantia
alguma de negociações futuras do FMI
com o país, que está sendo pressionado
a atender três requisitos para um novo acordo.O
primeiro deles é aumentar a meta do superávit
fiscal de 2004 de 3% para 4% do PIB. No caso do
nosso Produto Interno Bruto, isso representa a quantia
de R$ 16 bilhões. A segunda exigência
do FMI é a implementação de
reajuste nas tarifas de serviço público,
que foi privatizado ao longo dos governos anteriores,
ou seja, quer lá de fora dizer se o governo
soberano da Argentina deve ou não aumentar
tarifa de telefonia, de energia elétrica
e de outros serviços, todos privatizados.
O poder está terceirizado naquele país.
A terceira exigência é que o governo
compense os bancos pelo prejuízo provocado
em razão da desvalorização
do peso, e pela sangria de depósitos recuperados
na Justiça por correntistas atingidos pelo
confisco, o curralito argentino.
O Fundo Monetário
Internacional exige que se salvem os bancos. Começando
de trás para frente, ele exige, como ocorreu
no Brasil, que os bancos sejam socorridos, com a
ajuda do PROER, que as agências reguladoras
no Brasil, que terceirizaram o poder, determinem,
independentemente da decisão dos Ministérios
ou do Presidente da República, se vai haver
ou não aumento de tarifa e do superávit
primário.
Os jornais de hoje
noticiam que pelo menos 70% do povo argentino apoiam
a decisão daquele governo de não aceitar
exigências e condicionalidades desse tipo.
E a negociação vai continuar.
Esse exemplo é
importante, sr. presidente, porque estamos às
vésperas da superação de acordo
feito pelo governo Fernando Henrique Cardoso, de
US$ 32 bilhões. Estamos, neste momento, com
reservas líqüidas da ordem de US$16bilhões,
US$17 bilhões (sem contar os empréstimos
do FMI). Seremos obrigados a tomar essa decisão
adiante. O governo Lula, junto com outros governos
- temos o exemplo da Argentina -, tem todas as condições
de assumir posição altiva em relação
à dívida. Digo isso porque atrás
da política e das condicionalidades do FMI,
que acabei ler, vem a continuidade da política
econômica, ou seja, a manutenção
de juros altos, de superávites fiscais cada
vez maiores, de proteção do capital
financeiro e especulativo e outras medidas que impedem
o desenvolvimento econômico, autônomo
e soberano.
É hora de
os países da América Latina dizerem
que não aceitam mais a receita do Fundo Monetário
Internacional. Não se trata de querer desestabilizar
o sistema internacional, mas de proteger a economia
brasileira e as economias nacionais contra a sangria
permanente de dólares que vão sustentar
o monstruoso déficit público americano.
Por isso, sr. presidente,
entendo que nós, latino-americanos, devemos
fazer grande reflexão. É certo que
a Argentina será duramente pressionada a
pagar o que deve, mas o presidente Néstor
Kirchner sabe também que eles enfrentaram
grande rebelião contra isso. Um país
que chegou a ocupar 50% do PIB latino-americano
na década de 1960 foi reduzido à sucata,
enquanto seguia, de forma ortodoxa, a política
do Fundo Monetário Internacional. Não
podemos aceitar essa situação. Foram
oito anos de ajoelhamento no governo Fernando Henrique
Cardoso. A hora é de discutir, altivamente,
como se encaminha esse processo. Que o exemplo da
Argentina sirva de referência e balizamento
também para o governo Lula posicionar-se
diante da situação, com apoio popular,
do Congresso Nacional, do setor produtivo brasileiro,
para que este país possa gerar emprego, distribuir
renda e ter um crescimento soberano e autônomo.
Obrigado, sr. presidente.