Para
haver desenvolvimento no país, é preciso
acabar com a hegemonia do capital financeiro
O
SR. IVAN VALENTE
Sr. presidente, sras. e srs. deputados, há
dois dias os jornais publicaram o último
balanço da dívida interna brasileira,
que foi a R$ 877 bilhões, e aqui se afirma
que isso representa 57% do PIB.
Quando o Presidente Lula tomou posse, apesar de
toda a especulação financeira, era
56,5% do PIB e teria chegado a 63% no governo Fernando
Henrique Cardoso. E toda a lógica monetarista
é a de que nós só vamos sobreviver
se nós baixarmos a relação
dívida-PIB. Ou seja, quando Fernando Henrique
tomou posse, era de 30% essa relação.
Houve momentos em que foi a 64%.
Mais do que isso, foi publicado o superávit
primário. Quanto nós já pagamos
de dívida? Foram R$ 89,25 bilhões
de janeiro a julho. O superávit primário
é de R$ 44,32 bilhões, o equivalente
a 5,05% do PIB, e o acordo com o Fundo Monetário
Internacional correspondia a 3,75% do PIB. O Ministro
Palocci elevou a 4,25% do PIB, e nós já
pagamos 5,05% do PIB.
Felizmente, economistas do porte, da capacidade
e do reconhecimento de Celso Furtado - candidato
ao Prêmio Nobel de Economia - e Maria da Conceição
Tavares fizeram uma palestra no Rio de Janeiro,
com ampla repercussão. Publicou-se: "Ele
considera que para o Brasil poderá ser "indispensável"
dentro de um quadro de negociação
da dívida externa com os credores ou com
o FMI, declarar a moratória para obter condições
mais favoráveis para a retomada do desenvolvimento."
São palavras não de pessoas irresponsáveis,
como a Rede Globo e a mídia querem mostrar,
mas de Celso Furtado e Maria da Conceição
Tavares.
O respeitado economista Celso Furtado disse: "Vamos
preparar a moratória, mas, desde já,
vamos adotar o controle de capitais, lembrando que
o país vem sendo vítima, nesses últimos
anos, de fugas enormes de capital, que saíram
daqui sem prestar conta". O economista Celso
Furtado quebra outro tabu colocado pelos monetaristas
de Malan. Ele diz que a outra questão é
o controle do câmbio.
Isso não é tabu. Isso é autonomia
e soberania de quem exerce política econômica.
E mais, Celso Furtado vaticinou que não haverá
desenvolvimento econômico com essa sangria
brutal do pagamento dos juros e das amortizações
da dívida pública, que deve ultrapassar
R$150 bilhões. E esta Casa se reúne
com seus deputados e senadores para discutir o que
fazer com o orçamento. Corta daqui, corta
dali - saúde, educação, reforma
agrária, saneamento -, para sobrar uma miséria
para investimento e desenvolvimento. Ou seja, ou
o Estado brasileiro tem recursos para investir,
desenvolver, gerar empregos, distribuir renda, fazer
obras públicas e retomar o seu papel no serviço
público. Caso contrário, não
haverá caminho possível para o Brasil.
É por isso que a própria economista
Maria da Conceição Tavares, ao criticar
o acordo com o Fundo Monetário Internacional,
teme que os países latino-americanos não
sejam capazes de se desvencilhar da instituição,
porque os empréstimos concedidos pelo Fundo
ao país já viraram cheque especial
ou colchão de sustentação do
governo. E por trás de tais acordos estão
as condições e as regras a seguir
da política monetarista, em que até
os investimentos das estatais estão contidos
nos gastos do Estado brasileiro. Tal política
é criminosa. Disse ainda a economista que,
na contabilização dos gastos públicos
usada pelo FMI no acordo com o Brasil, muitas vezes
os bancos federais estão impedidos de fazer
empréstimos, inclusive a municípios
que pagam suas contas em dia. Isso é tão
grave quanto a questão do superávit
primário.
Por isso, desejo que consigamos estabelecer algum
consenso no Brasil sobre o tema. Com a continuidade
da sangria do pagamento dos juros e amortizações
da dívida, não é possível
desenvolver o país. Temos de dar um basta
à hegemonia do capital financeiro. Este é
o apelo que fazemos ao governo e também aos
partidos de oposição nesta Casa: não
há outra saída senão redirecionar
a política econômica. Haverá
mais aperto fiscal, mais corte de gasto público,
mais desemprego, não haverá distribuição
de renda e vamos perpetuar o atual quadro social
iníquo se mantivermos a mesma política
econômica que não enfrenta o problema
da hegemonia do capital financeiro e da dívida
pública brasileira.
Muito obrigado, sr. presidente.