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O governo Lula, o FMI
e a transição de paradigmas
Ao
defender publicamente que um novo acordo com o FMI,
se for preciso e se for realizado, não pode obstaculizar
as políticas e investimentos necessários ao crescimento
do país, o governo Lula aponta de modo decisivo para
o caminho de superação gradativa dos enormes constrangimentos
que têm limitado a sua histórica vocação desenvolvimentista
e social.
Em uma entrevista a dez jornalistas,
concedida no dia 20 de agosto, o presidente Lula afirmou
"que o Brasil não precisa de um outro
acordo com o FMI". Sugeriu que só haverá
um novo acordo com a instituição se
os termos forem favoráveis ao país.
"Pela lógica, o Brasil não precisa
renovar o acordo. Assinar ou não um novo acordo
depende da vontade, do acordo e das condições
que forem negociadas". Foi informado também
que Lula coordenará pessoalmente a renegociação
do acordo, se este se fizer necessário.
No dia 1º de agosto, o próprio
ministro da Fazenda, Antonio Palocci, já dera
uma declaração em sentido semelhante,
afirmando que "se houver a necessidade de um
acordo - é uma discussão não
feita ainda - uma série de questões
novas podem ser colocadas". O jornal O Globo
noticiou no dia 13 de agosto que, se depender dos
ministros da Casa Civil, José Dirceu, e do
Planejamento, Guido Mantega, em outubro o governo
redesenhará seu acordo com o FMI. No dia seguinte,
os ministros Luiz Dulci, da Secretaria Geral da Presidência,
Humberto Costa, da Saúde, deram declarações
na mesma direção.
No dia 21 de agosto, como fruto
de suas duas últimas reuniões, o Conselho
de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES),
coordenado por Tasso Genro, apresentou publicamente
dez medidas voltadas para o crescimento da economia.
Entre elas, a adequação da taxa de câmbio
em um patamar propício ao crescimento das exportações,
estímulos à aquisição
de equipamentos pelas indústrias, crescimento
dos investimentos públicos, hoje contingenciados.
O CDES também apoia a meta do governo de chegar
a 2004 com uma taxa real de juros de 8,24% e propõe
reduzir de 4,25% para 4,0% o esforço fiscal
do governo para o próximo ano (meta de superávit
primário).
O relator do Orçamento de
2004, Jorge Bittar, indica as questões a serem
renegociadas com o FMI, caso um novo acordo se faça
necessário. A primeira seria a retirada do
investimento das estatais da contabilidade do superávit
primário. Esta reivindicação,
aliás, tem sido reiterada publicamente pelo
presidente do BNDES, Carlos Lessa, nos marcos do planejamento
de longo prazo do país. Nos países europeus,
por exemplo, é incluído como déficit
público relacionado a um determinado investimento
apenas a parcela do empreendimento a ser amortizada
naquele ano (principal e juros) e não o valor
total do projeto. Hoje, no Brasil, apenas os investimentos
da Petrobrás não são incluídos
no cálculo do superávit primário.
Os investimentos das empresas estatais são
vistos pelo governo como imprescindíveis para
gerar um novo ciclo de inversões em infra-estrutura,
necessária para a retomada do investimento.
A segunda questão é
a da emissão dos Títulos da Dívida
Agrária (TDA), fundamentais para a realização
da reforma agrária. "Se são títulos
de dez anos, não devo considerar grave a sua
emissão para o perfil da dívida pública
brasileira porque estou emitindo dívidas de
longo prazo para urgências, como diminuir a
tensão social no campo e desenvolver a agricultura
familiar no país", afirma o relator do
Orçamento.
A terceira questão seria
a mudança na resolução do Conselho
Monetário Nacional, que limita o endividamento
dos municípios de todo o país em 200
milhões de reais. Trata-se, na verdade, de
mais um absurdo ataque ao setor público brasileiro.
Por esta resolução, empréstimos
em torno de 5 bilhões a 6 bilhões de
reais da Caixa Econômica Federal, essenciais
por exemplo, para saneamento e habitação
popular, não podem ser disponibilizados mesmo
para os cerca de dois mil municípios que dispõem
de equilíbrio orçamentário. Jorge
Bittar referiu-se a este tipo de restrições
como "entulhos monetaristas", a serem desfeitos
pelo novo governo.
A importância das relações
do governo brasileiro com o FMI é certamente
decisiva para a América Latina. A Argentina,
em particular, em uma situação de extrema
fragilidade, está em uma negociação
publicamente conflituosa com o FMI. O prêmio
Nobel de Economia e ex-vice presidente do Banco Mundial,
Joseph Stiglitz, repete aos brasileiros, em entrevista
ao jornal Valor Econômico de 12 de agosto, o
conselho que deu aos argentinos: "o conselho
que eu dei à Argentina a um ano e meio foi:
se vocês conseguirem um bom programa com o FMI,
se puderem ter algum benefício, sigam em frente.
Senão, é melhor não ter nenhum
programa do que ter um ruim. O que a Argentina achou
é que o FMI não negociaria um programa
com o país e decidiu ir em frente sem o Fundo.
Eles se deram muito melhor do que com o programa do
FMI, revitalizaram a economia (...) Se for um programa
que estrangule a economia, então, é
melhor ficar sem dinheiro a ser estrangulado."
Três erros
Um processo de negociação
com o FMI exige uma visão clara da identidade
e função desta instituição,
de sua evolução histórica, de
sua atual coesão e legitimidade internacional.
Há aqui três erros fundamentais a serem
evitados.
O primeiro deles seria o de pensar
uma homologia ou convergência de interesses
entre o Brasil e o FMI, como se fosse possível
reduzir a dimensões técnicas ou de cálculo
econômico os seus programas condicionadores
de empréstimos. O FMI defitinivamente não
é um hospital ou uma UTI, que primordialmente
zela pela salvação e qualidade da saúde
do paciente.
Em seu livro "A globalização
e seus malefícios", Joseph Stiglitz, um
keynesiano moderado e propositor de uma "globalização
com rosto humano", demonstra que o FMI é
exatamente o contrário desta imagem ao mesmo
tempo interessada e ingênua. A sua tese é
simples: o FMI hoje reflete os interesses e a ideologia
da comunidade financeira internacional, em particular
de Wall Street. Esta identidade é garantida
pela composição, modos de deliberação,
mecanismos de proteção ao controle público
e pelos interesses privilegiados nas políticas
adotadas. Escreve Stiglitz: "Como já observamos,
muitas das pessoas-chave no Fundo provêem da
comunidade financeira, e muitas destas pessoas, tendo
servido bem a estes interesses, saíram para
assumir cargos bem remunerados na comunidade financeira.
Stan Fischer, o vice-diretor gerente que desempenhou
tal papel durante os episódios descritos neste
livro, saiu diretamente do FMI para se tornar vice-presidente
do conselho do Citigroup, a vasta empresa financeira
norte-americana que inclui o Citibank. Um dos presidentes
do conselho do Citigroup (presidente do Comitê
Executivo) foi Robert Rubin, que, como Secretário
do Tesouro, desempenhou um papel importante na formulação
das políticas do FMI".
O Tesouro dos Estados Unidos, no
papel de maior acionista do FMI e o único com
poder de veto, tem um papel preponderante na determinação
das políticas do FMI, diz Stiglitz. O jornal
The Economistde 18 de setembro de 1999, reconheceu
que, nos anos recentes, o FMI e o Banco Mundial foram
crescentemente instrumentalizados pelo seu acionista
majoritário. Durante a grave crise financeira
no Leste Asiático em 1997, o Japão ofereceu
cem bilhões de dólares para criar um
Fundo Monetário Asiático, com o objetivo
de financiar ações necessárias
para estimular a economia na região. O FMI
e o Tesouro dos EUA posicionaram-se fortemente contrários
a tal iniciativa, que acabou prosperando de forma
discreta com o apoio da China.
Stiglitz afirma, além disso,
que o FMI e o Banco Mundial "têm padrões
de divulgação muito menores do que os
do governo em democracias como os Estados Unidos,
a Suécia ou o Canadá. Eles tentam esconder
relatórios importantes; é somente sua
incapacidade de evitar que as informações
vazem que, em geral, força a divulgação".
Mas, sobretudo, as políticas
preconizadas pelo FMI, segundo Stiglitz, visam não
os interesses dos cidadãos ou das economias
em seu conjunto, mas fundamentalmente os interesses
dos credores. Mesmo os empréstimos de socorro,
a juros mais baratos que os disponibilizados pelo
mercado, visam garantir, em última instância,
o pagamento das dívidas. Não são
os contribuintes dos EUA que pagam a conta, responde
Stiglitz à crítica dos conservadores
em seu próprio país. Se uma economia
nacional passar por problemas, o FMI, apoiado nos
termos dos acordos assinados, é o credor preferencial,
mesmo em relação a outros credores estrangeiros.
E é raro que ele não receba o que emprestou.
As reviravoltas do FMI
Um segundo erro é entender
a ortodoxia do FMI como composta de verdades inabaláveis,
estabilizadas no tempo e dotadas de coerência
lógica. O artigo de Fernando Cardim Carvalho,
"The changing role and strategies of the IMF",
publicado na Revista de Economia Política,
vol. 20, nº 1, janeiro/ março de 2000,
é uma excelente crítica a este entendimento.
Como instituição
nascida no contexto do pós-guerra, em plena
hegemonia das correntes próximas ao keynesianismo,
os princípios, objetivos e estratégias
do FMI eram muito diversos dos atuais. O ítem
2 do seu estatuto, por exemplo, afirmava como um dos
seus objetivos centrais: "facilitar a expansão
e crescimento equilibrado do comércio internacional
e, assim, contribuir para a promoção
e manutenção de altos níveis
de emprego e de rendimentos reais e para desenvolver
os recursos produtivos de todos os membros como objetivos
centrais de política econômica".
Nos seus inícios, o FMI
apenas zelava pelo equilíbrio das transações
correntes entre os países. A conta de capitais
dizia respeito às políticas internas
dos países, que podiam acertadamente impor
controles sobre o fluxo de capital em casos de pressão
sobre as taxas de câmbio. De fato, nos anos
sessenta, os próprios EUA e a Grã-Bretanha
impuseram controles ao movimento dos capitais de curto
prazo. As políticas recessivas eram recomendadas
pelo FMI apenas no caso de déficits crônicos
nas transações correntes de bens e serviços,
de molde a pretensamente diminuir a demanda agregada
e, assim, diminuir as importações e
elevar as exportações do país
em questão.
Neste período inicial, o
foco do FMI era os países chamados desenvolvidos,
os últimos programas de apoio tendo sido dirigidos
à Itália e à Grã-Bretanha
em 1977. Mas até meados dos anos oitenta, mesmo
após a bancarrota do México e do Brasil,
os programas de ajuste recomendados pelo FMI não
implicavam em reformas estruturais. Estas passaram
a compor as condições fundamentais impostas
pelo Fundo apenas nos anos noventa, tornando-se até
mais importante do que o ajuste fiscal.
Foi neste contexto nos diz Cardim,
que as visões do FMI sobre "o controle
de capitais sofreram uma dramática reversão.
De um lado, o fundo começou a duvidar tanto
da eficácia como da desejabilidade do controle
de capitais; de outro lado, prestou-se mais atenção
à eficiência dos setores financeiros
domésticos em lidar com um volume crescente
de recursos".
Frente às últimas
oito crises financeiras internacionais nos últimos
anos, o discurso do FMI sofreu uma nova mudança.
Trata-se de reconhecer agora a inevitabilidade da
liberalização dos fluxos financeiros
e procurar diminuir os seus impactos negativos. Como
afirma Stiglitiz, "há hoje uma consciência
dos perigos dos fluxos de capital de curto prazo e
da liberalização prematura do capital
e do mercado financeiro, reconhecidas de tempos em
tempos até mesmo pelos oficiais seniores do
FMI".
Em busca da legitimidade perdida
Um terceiro grande erro seria
conceber o FMI como uma instituição
coesa, respeitada em seus diagnósticos e profundamente
legitimada no cenário internacional. O Secretário
de Assuntos Internacionais do Ministério da
Fazenda, Otaviano Canuto, lembrou recentemente em
entrevista que "o Fundo é um ativo de
credibilidade para a política econômica".
Será?
A divulgação do Relatório
do Independent Evaluation Office, ligado à
gerência do FMI, de nome "FMI e crises
recentes nas contas de capitais - Indonésia,
Coréia, Brasil", reconhecendo erros reiterados
da entidade, é claramente uma tentativa de
renovar a sua credibilidade após erros crassos
em vários cantos do mundo onde a política
do FMI teve influência. O relatório reconhece
que o Fundo errou em relação à
crise brasileira de 1998, ao não apontar as
vulnerabilidades do Plano Real, como o alto nível
de endividamento do setor público e ao não
recomendar o abandono da política cambial,
de super-valorização do Real, praticada
pela dupla Malan/Franco. Aliás, crítica
feita à época e generalizada entre os
economistas brasileiros não neoliberais. Já
uma análise recém divulgada pelo General
Accounting Office, do Congresso norte-americano, afirma
que o FMI antecipou apenas 15 das 134 recessões
ocorridas em 87 países em desenvolvimento no
período que vai de 1991 a 2001, o que representa
11% do total.
Um estudo do economista Walden
Bello, da ONG "Focus on the global south",
"The crisis of the globalist project and the
new economics of George W. Bush", publicado em
junho passado, é importante para atualizar
a avaliação da ilegitimidade atual do
FMI.
De acordo com Walden Bello, o projeto
globalista, cujo maior trunfo foi o estabelecimento
da OMC (Organização Mundial do Comércio),
encontra-se em uma crise evidente. Os três momentos
deflagradores desta crise teriam sido justamente a
crise financeira asiática de 1997, o impasse
das negociações na OMC, em Seattle em
dezembro de 1999, entre os EUA e a União Européia,
e a crise gigantesca do mercado de ações
norte-americanas no final da gestão de Clinton.
A política unilateralista de Bush só
teria aprofundado estes impasses.
Escreve Walden Bello: "como
apontou Robert Brenner, as políticas de Bill
Clinton e do Secretário do Tesouro, Robert
Rubin, punham ênfase na expansão da economia
mundial como base da prosperidade da classe capitalista.
Por exemplo, em meados dos anos noventa, eles puxaram
a alta do dólar como meio de estimular a recuperação
das economias japonesa e alemã, de tal modo
que elas pudessem servir de mercado para as mercadorias
e serviços dos EUA. Antes, a mais nacionalista
gestão Reagan, havia empregado uma política
do dólar fraco para reconquistar competitividade
para a economia americana às expensas da japonesa
e alemã. Com a gestão George W. Bush,
voltamos às políticas econômicas,
incluindo a do dólar fraco, voltadas para animar
a economia norte-americana às custas de outras
economias centrais e enfatizar os interesses da elite
das empresas do país ao invés das elites
globais do capitalismo".
Ainda segundo Bello, a crise asiática
teria minado a coesão do paradigma neoclássico
na economia, com intelectuais chaves passando a criticá-lo
publicamente. Entre eles, Jeffrey Sachs, antes conhecido
por sua defesa de um "choque de livre mercado"
na Europa do Leste no início dos anos noventa;
o professor da Universidade de Columbia, Jagdish Bhagwadi,
que conclamou à adoção de controles
globais sobre o fluxo de capitais; e até mesmo
Georges Soros, que tem condenado a ausência
de controles sobre o sistema financeiro global, que
o enriqueceu.
O autor conclui, após longa
análise da geopolítica mundial, que
o poder dos EUA deve ser "saudavelmente respeitado"
mas seria um grande erro superestimá-lo.
Risco moral
O acordo atual do Brasil com o
FMI é o que envolve as mais vultosas somas
de empréstimo da instituição
no mundo. Com a relevância geopolítica
do Brasil e a projeção internacional
do governo Lula, entende-se a importância que
a renovação do acordo tem para a legitimidade
internacional da instituição.
A primeira defesa da renovação
do acordo com o FMI veio de Paulo Leme, do Banco Goldman
Sachs, seguido dias depois, por Henrique Meireles,
presidente do Banco Central, afirmando que, apesar
de não ser uma necessidade estritamente técnica,
seria recomendável a renovação.
Os argumentos de quem defende a
renovação do acordo passam por dois
caminhos. Um deles é o da precariedade das
reservas internacionais do país, estimadas
em cerca de 14 bilhões de dólares, que
poderia colocar o Brasil em dificuldade diante de
uma eventual conjuntura de aumento dos rendimentos
dos títulos dos EUA e de deterioração
do ambiente de liquidez mundial. Na verdade, há
muita incerteza nestas previsões e muitas condicionalidades
a serem avaliadas.
O segundo argumento, talvez mais
decisivo, e que aparece reiteradamente exposto por
economistas neoliberais, dentro e fora do governo,
é o papel de um novo acordo com o FMI para
preservar as linhas predominantes na política
econômica no primeiro período do governo
Lula. Como, por exemplo, no artigo de Desmond Lachman,
analista residente do American Enterprise Institute,
publicado no jornal Valor Econômico de 31 de
julho: "um programa sucessor pactuado entre o
FMI e o Brasil daria uma grande contribuição
para um substancial fortalecimento da confiança
dos investidores no Brasil. Um novo programa do FMI,
em continuidade de apoio ao Brasil - ao proporcionar
um arcabouço de política macroeconômica
de médio prazo e um roteiro para o prosseguimento
de reformas estruturais - poderia assegurar aos investidores
ser improvável que o presidente Lula venha
a avançar num rumo mais populista em termos
de política econômica".
O sentido muito político
e ideológico da defesa da renovação
do acordo com o FMI fica patente nas declarações
de Joaquim Levy, Secretário do Tesouro Nacional,
e Fábio Gambiagi, co-autor do livro "Finanças
Públicas - Teoria e prática no Brasil".
O primeiro afirma que o obstáculo ao crescimento
"não é o FMI mas o tamanho da nossa
dívida", como se as políticas recomendadas
pelo FMI nada tivessem a ver com a evolução
da dívida e seu cálculo. Fábio
Gambiagi, autor de um livro texto neoliberal de uso
generalizado nas faculdades de Economia, argumenta
enfaticamente contra a proposta de retirar o investimento
das estatais do acordo com o Fundo. "Isto seria
um tiro no coração da política
econômica", diz ele, em uma retórica
inflamada. No jornal Valor Econômico de 21 de
agosto, o colunista propõe que se caminhe para
uma nova coalizão nas eleições
presidenciais de 2006, formada pelo PT, PSDB e PFL!
Diz ele que "a luta fratricida entre os reformistas
é uma estratégia suicida".
De modo sensato, o governo Lula
tem evitado dar um tom dramático e espetacular
às suas relações com o FMI. A
sua opção clara é a de diagnosticar
o acordo nem como imprescindível nem como incondicional.
Os empréstimos do FMI são
considerados mais baratos do que os das outras fontes
no mercado internacional. Mas esta vantagem relativa
pode ser anulada ou invertida frente aos constrangimentos
impostos à política econômica.
Do ponto de vista político,
um novo acordo com o FMI poderia alienar parte importante
da soberania do governo em decisões chaves
a maior parte de seu mandato, em anos eleitorais decisivos
em que seu projeto estará em disputa. Um acordo
com o FMI poderia, deste ponto de vista, congelar
a transição do governo Lula a novos
padrões de política econômica
mais compatíveis com suas potencialidades históricas.
Mas há certamente também
o risco ético-moral. De junho de 2002 até
o final dos seis primeiros meses do governo Lula,
segundo dados do Banco Central, o pagamento dos juros
da dívida pública chegou a 142 bilhões
de reais. Este valor equivale a mais de 17 vezes à
soma do orçamento previsto para todos os programas
sociais emergenciais em 2004. O governo Fernando Henrique
sabia ser fraco com os fortes e forte, insensível,
cruel e até mesmo brutal com aqueles que têm
menos poder diante do mercado. Isto dizia tudo sobre
a sua qualidade moral.
A vocação ético-moral
do governo Lula é outra e se alimenta do cotidiano
dramático, mas cheio de esperanças do
povo brasileiro.
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