|
Projeto
de Análise da Conjuntura Brasileira
Página na internet: www.outrobrasil.net
Economia
e política econômica
Setembro de 2003
Novo acordo com
o FMI
entre a tragédia e a farsa.
César Benjamin
(com Rômulo Tavares Ribeiro)
1. Como dissemos na
edição do mês anterior, teremos
uma oportunidade de compreender melhor o "enigma"
do governo Lula ao observar como serão remodeladas
as relações do Brasil com o Fundo Monetário
Internacional (FMI). O acordo em vigor, assinado durante
a gestão de Fernando Henrique Cardoso, terminará
em novembro. Raciocinando pelos extremos, poderemos
não renegociar nada, pondo fim a um período
de cinco anos de monitoramento contínuo da
economia brasileira pelo Fundo, ou aceitar um novo
acordo em bases semelhantes ao anterior. Entre essas
duas possibilidades, porém, há um amplo
leque de opções intermediárias
que neste momento parecem ser mais prováveis.
O FMI diz que o Brasil não necessita de novo
acordo, mas acrescenta que ouvirá com boa vontade
qualquer proposta do nosso governo. Nossas principais
autoridades, por sua vez, inclusive Lula e Antônio
Palocci, confirmam que as condições
atuais são favoráveis ao Brasil, que,
também segundo eles, não necessita mais
do apoio do Fundo. Mesmo assim, completam, só
em fins de outubro, de maneira pragmática e
não ideológica, decidirão o que
fazer. "Passei parte da minha vida gritando 'não
ao FMI'", diz Lula. "Agora sei que não
se trata de nenhum bicho-papão. Negociaremos
um novo acordo se isso for do interesse do Brasil."
Tentaremos, neste texto, compreender as raízes
dessa aparente indefinição de ambas
as partes. Trabalharemos em torno de quatro aspectos:
(a) a mudança do papel do FMI nos últimos
vinte anos; (b) o modelo-padrão dos acordos
com o Fundo; (c) a nova fase das relações
entre o Brasil e o Fundo; (d) as propostas já
divulgadas para uma nova negociação.
2. A mudança
do papel do Fundo.
Nos parágrafos finais da análise do
mês anterior, disponível nesta mesma
página, situamos alguns aspectos dessa questão
que agora retomamos.
O FMI é uma criação da Conferência
de Bretton Woods, realizada no fim da Segunda Guerra
Mundial. O sistema monetário criado ali previa
que o dólar seria a moeda de referência
internacional, com o Estado norte-americano garantindo
sua conversibilidade em ouro, a uma taxa fixa. Entre
o dólar e as demais moedas nacionais haveria
um sistema de taxas de câmbio também
fixas (ajustáveis segundo certos critérios).
Nesse contexto, caberia ao FMI abrir linhas de crédito
de curto prazo para países que experimentassem
desequilíbrios externos (comerciais e de serviços),
de modo a possibilitar que ajustassem seus balanços
de pagamentos com um mínimo de prejuízo
para os fluxos internacionais de comércio.
Esse arranjo, como se sabe, implodiu no início
da década de 1970, quando os Estados Unidos
decidiram retirar-se do tratado, anunciando o fim
da conversibilidade dólar-ouro (tal decisão
representou uma moratória da reserva norte-americana
de ouro). Constituiu-se desde então um novo
padrão monetário internacional, hoje
em pleno vigor, também centrado no dólar,
mas com moedas sem lastro e taxas de câmbio
permanentemente flutuantes. Nesse novo contexto, em
tese, havendo desequilíbrios nas relações
comerciais e de serviços de um país
com os demais, a taxa de câmbio se valoriza
ou se desvaloriza automaticamente, promovendo ajustes
sem a intervenção do FMI. As funções
originais, para as quais o Fundo foi criado, praticamente
perderam o sentido.
Depois de um período de incerteza sobre os
destinos da instituição, iniciou-se
uma redefinição do seu papel, sempre
sob a direção dos Estados Unidos, que
detêm a maioria das cotas. Nas décadas
de 1980 e 1990, o Fundo passou a ser usado para promover
as chamadas "reformas estruturais" nas economias
periféricas, reformas associadas à construção
da nova ordem neoliberal. Em fevereiro de 1998, Lawrence
Summers, secretário do Tesouro dos Estados
Unidos, foi claro a esse respeito, quando caracterizou
o FMI como "o mais importante veículo
multilateral disponível para realizar reformas
condicionadas nos países emergentes".
3. Este ponto precisa
ser enfatizado: pelos seus estatutos, o FMI existe
apenas para prover linhas de crédito de curto
prazo a países com dificuldades momentâneas
em suas contas externas, de modo a que eles possam
superar esses desequilíbrios temporários.
A partir da década de 1980, porém -
agindo à revelia desses estatutos, que não
foram alterados -, a instituição passou
a ser o "veículo multilateral" usado
pelo governo dos Estados Unidos para promover reformas
neoliberais (ou "reformas condicionadas")
nas instituições econômicas, sociais
e políticas dos países periféricos
(ou "países emergentes"), no contexto
de construção da nova ordem internacional.
Em vez de lidar com problemas localizados de liquidez,
o FMI começou a promover rearranjos internos,
profundos e duradouros, em nossos países. Passou
a interferir pesadamente na reorganização
das economias (abertura comercial e financeira, por
exemplo) e das sociedades (reformas nos sistemas previdenciários
e trabalhistas, por exemplo), exigindo medidas que
escapam completamente de sua esfera de competência
original.
O processo foi concebido de modo a auto-alimentar-se:
maiores graus de liberalização das economias
periféricas, especialmente nos terrenos comercial
e financeiro, tornam essas economias mais vulneráveis
aos movimentos internacionais de capital. Com a abertura
da conta de capital - uma das "reformas condicionadas"
a que Lawrence Summers se referia -, o capital financeiro
passa a ter um poder avassalador sobre os Estados
nacionais, especialmente os da periferia, pois os
movimentos desse capital, agora liberados, colocam
a taxa de câmbio onde ele desejar, ameaçando
assim desorganizar as economias locais. Estas se tornam
crescentemente dependentes do FMI, não só
pela possibilidade de ter acesso aos seus recursos
(em troca das condicionalidades), mas também
porque o aval do Fundo passa a ser a principal referência
para orientar aqueles movimentos do capital financeiro.
Assim, uma vez iniciadas, as reformas liberais exigem
novas rodadas de reformas complementares, sempre na
mesma direção, apresentadas agora como
inevitáveis. A partir de certo ponto, "não
há mais alternativas", como Margareth
Tatcher gostava de dizer. Os países capturados
por essa dinâmica, como o Brasil, terminam por
encaixar-se perfeitamente, de forma subordinada, na
nova ordem mundial desejada pelos Estados Unidos.
4. O modelo-padrão
dos acordos.
No terreno estritamente macroeconômico, a relação
do FMI com os países periféricos inclui
três pontos inegociáveis:
(a) metas de superávit primário, mesmo
às custas de contrair gastos sociais imprescindíveis,
de modo a assegurar a transferência de recursos
da sociedade (via recolhimento de impostos) para os
credores (via pagamento do serviço das dívidas);
(b) políticas monetárias contracionistas,
voltadas para reduzir o consumo e o investimento internos
(e, com eles, as importações) e forçar
as empresas a realizar políticas exportadoras
mais agressivas, de modo a gerar os dólares
necessários à solvência externa;
(c) plena liberdade de movimentação
de capitais, para que a transferência desses
recursos ao exterior não enfrente obstáculos.
Estas políticas formam o "núcleo
duro" das condicionalidades macroeconômicas
impostas pelo FMI. Ele foi preservado inclusive no
recente acordo com a Argentina. (O governo Kirchner
conseguiu recusar o aumento do superávit primário
e outras exigências repugnantes, que não
fazem parte desse "núcleo duro",
como indenizar bancos estrangeiros por prejuízos
causados pela ruptura da paridade peso-dólar
e aumentar os preços de serviços públicos
prestados por empresas estrangeiras que participaram
dos programas de privatização.)
5. A nova fase das
relações entre o Brasil e o Fundo.
Em relação à análise do
mês anterior, as principais alterações
relevantes para o nosso tema são uma revisão
para cima na expectativa de saldo comercial (de US$
17 bilhões para US$ 20 bilhões) e projeções
mais otimistas do Banco Central sobre a nossa possibilidade
de fechar sem maiores problemas o balanço de
pagamentos em 2004. Assim, no que diz respeito ao
acordo com o FMI, as perguntas são quase óbvias.
Se está afastada a hipótese de uma crise
que possa conduzir a uma moratória de pagamentos
externos, por que ainda se discute a renovação
do acordo? Por que esta questão não
é simplesmente superada, com o Brasil retornando
à situação normal, sem tutela?
Por que, nesse debate, ambas as partes comportam-se
com tanta ambigüidade?
Embora menos óbvias, as respostas são
claras. As relações entre o Brasil e
o Fundo estão transitando para um novo estágio,
ainda em via de consolidação. O que
caracteriza esse novo estágio é o seguinte:
as condicionalidades tradicionais, impostas pelo Fundo,
já foram completamente internalizadas, expressando-se
agora em leis brasileiras e coincidindo com opções
internas de política econômica. Senão,
vejamos:
(a) o superávit primário, que era de
3,75% do PIB no governo de Fernando Henrique, foi
aumentado por Lula para 4,25%, enquanto os gastos
sociais, que correspondiam a 2,59% do PIB, foram reduzidos
para 2,45%; essas decisões não dependem
mais de negociações com o Fundo, pois
foram incorporadas à Lei de Diretrizes Orçamentárias
(LDO) que está em vigor até 2006;
(b) como mostraremos adiante, a adoção
de políticas monetárias contracionistas
é uma decorrência natural do regime de
metas de inflação, considerado parte
essencial do modelo macroeconômico adotado por
nosso governo;
(c) a plena mobilidade de capitais está assegurada
pela autonomia de fato do Banco Central chefiado por
Henrique Meirelles, autonomia que o governo Lula também
quer transformar em lei.
Assim, não são mais necessárias
pressões de fora para dentro. O programa de
ajuste estrutural do FMI passou a ser coisa nossa.
Por isso a relação com o Fundo adquire
agora uma qualidade nova, que ambas as partes começam
a construir, tateantes. Da parte do governo brasileiro,
isso permite o seguinte raciocínio: se a política
de arrocho fiscal e monetário será mantida
de qualquer forma, por que não contar com o
aporte de recursos do Fundo, embora desnecessários,
oferecendo-se assim maior margem de segurança
aos credores externos? Ou seja, se pagaremos de qualquer
forma os custos da política do FMI, pois já
internalizamos essa decisão, por que não
devemos buscar a benesse dos seus recursos?
6. Dos três
itens acima apontados, apenas o segundo - a permanência
de políticas monetárias contracionistas
- exige algum cometário, pois os demais são
auto-explicativos. Vamos a ele. No modelo atual de
gestão macroeconômica, o Banco Central
assume com o governo o compromisso de atingir determinada
meta de inflação. Esta passa a ser sua
atribuição única e exclusiva.
Isso quer dizer que a inflação é
considerada um fenômeno exclusivamente monetário,
aspecto essencial da teoria econômica ortodoxa.
Qualquer inflação - seja de demanda,
inercial ou de custos - passa a ser tratada com doses
cavalares de juros, praticamente o único instrumento
disponível no arsenal de medidas do Banco Central,
mesmo quando essas doses não obtêm quase
nenhum efeito sobre a própria inflação
(como no caso dos preços administrados) ou
apresentam efeitos colaterais seriíssimos sobre
a sociedade como um todo.
Comprometido apenas com metas de inflação,
o Banco Central se desobriga de levar em conta problemas
de crescimento e emprego. A política monetária
passa a ser manejada sem nenhuma consideração
aos indicadores da economia real e da crise social.
Adquire, por sua lógica interna, o forte viés
contracionista que o FMI sempre recomendou. As demais
instituições do Estado - responsáveis,
por exemplo, por políticas industriais, científicas
e tecnológicas, ou por políticas sociais
fortemente multiplicadoras de renda e emprego, como
habitação e saneamento - precisam adaptar-se
a um ambiente macroeconômico inimigo do gasto
público e do crescimento.
Qualquer repique da inflação ou qualquer
possibilidade de crise cambial produz novo aumento
nas taxas de juros, o que, por sua vez, exige metas
maiores de superávit primário. Garantindo-se,
adicionalmente, elevado superávit comercial
e câmbio flutuante, minimiza-se o risco de crise
nas contas externas, ao custo de manter acionados
os mecanismos que reproduzem recessão. A taxa
de crescimento do PIB passa a ser uma variável
de ajuste. Por isso, as previsões sempre se
mostram otimistas, e o crescimento é sempre
adiado para o ano que vem. O crescimento de 2003,
por exemplo, deveria ser de 5%, segundo as previsões
da LDO de 2001; de 4,5%, segundo a LDO de 2002; de
4%, segundo a LDO de 2003; de 3,5%, segundo a LDO
de 2004, feita já durante o governo Lula. Hoje
se espera uma taxa de 0,5%, considerada "muito
boa" - pois acima de zero! - pelo impagável
ministro Palocci. (Como a população
do país cresce cerca de 1,5% ao ano, a sociedade
empobrece sempre que a capacidade produtiva cresce
abaixo desta taxa.)
7. Os riscos políticos
dessa trajetória são evidentes, pois
com o tempo a sociedade se cansa e passa a exigir
maior atenção aos seus problemas sociais.
Fernando Henrique Cardoso que o diga. Por isso Lula
tornou-se insubstituível, ao conquistar a confiança
do sistema financeiro internacional, aceitando a sua
agenda, e ao apresentar-se como o político
mais capaz de evitar - ou, pelo menos, adiar - uma
crise social interna de conseqüências imprevisíveis.
Isso vem sendo crescentemente reconhecido pelos conservadores.
"O Brasil continuará sendo usado pelo
FMI como o seu melhor modelo atual de sucesso e, se
for necessário, a entidade não deixará
de aportar recursos para manter essa situação",
dizia o editorial do jornal Valor Econômico
em 15 de setembro. No mesmo dia, O Estado de S. Paulo
escrevia: "Não faz diferença alguma
colocar 'metas sociais' no novo acordo. Por que, então,
o governo Lula pensa em incluí-las e o FMI,
em aceitá-las? Marketing dos dois lados. O
governo Lula poderia apresentar o programa como um
'acordo do PT'. E o FMI, sempre acusado de deixar
seus clientes na miséria, poderia exibir ao
mundo sua nova face social. (...) É capaz de
o FMI mandar colocar uma estátua de Lula no
imenso saguão central de sua sede, em Washington."
É importante entendermos por que a imprensa
conservadora tem toda a razão, a ponto de exprimir-se
com tanta desfaçatez e crueza. Vamos por partes,
analisando em separado as medidas inovadoras que o
governo vem anunciando como mais prováveis
em um eventual novo acordo com o FMI.
8. As propostas já
divulgadas.
A primeira delas é um tratamento mais flexível
dos investimentos das empresas estatais, hoje considerados
como gastos (com exceção da Petrobras)
e, como tal, sujeitos ao contingenciamento geral.
Na absurda regra atual, se a Eletrobras tem lucro
de R$ 1 bilhão e o reinveste, modernizando
e expandindo o setor elétrico, isso é
considerado fonte de déficit; se recolhe esses
recursos ao Tesouro e os esteriliza, deixando o sistema
elétrico sem investimentos novos, ajuda a atingir
a meta de superávit primário, necessário
para pagar os juros da dívida interna. Nossas
autoridades acenam com uma renegociação
desse aspecto. Porém, como vimos, o governo
Lula, por sua própria iniciativa, sem que o
FMI o exigisse, aumentou a meta de superávit
primário para 4,25% do PIB e inscreveu essa
meta na Lei de Diretrizes Orçamentárias
em vigor até 2006. Se o FMI aceitar retirar
a contribuição das empresas estatais
para a formação desse superávit,
restará ao governo dois caminhos: elevar impostos
(o que parece politicamente inviável) ou retirar
mais recursos de outras áreas para cobrir a
diferença. O resultado líquido, do ponto
de vista dos gastos públicos, será nulo.
Um segundo ponto que tem sido sugerido é o
fim da proibição - também absurda
- de que o BNDES e a Caixa Econômica financiem
o setor público. Mas, independentemente de
qualquer acordo com o FMI, os limites a esse financiamento
já foram internalizados na legislação
brasileira, mais especificamente na Lei de Responsabilidade
Fiscal, de modo que também neste caso o Fundo
pode arrefecer a pressão de fora para dentro,
sem que sua política venha a ser substancialmente
alterada.
A terceira idéia do governo Lula é escandalosa:
inserir "metas sociais" no novo acordo.
Passaríamos a estar constrangidos, de fora
para dentro, por "condicionalidades positivas"
em torno de temas completamente estranhos aos estatutos
do Fundo e que dizem respeito, única e exclusivamente,
à política interna do nosso país.
Nem Fernando Henrique imaginou tamanha demonstração
de vassalagem: uma agência controlada pelo governo
dos Estados Unidos e sempre preocupada com as condições
de pagamento aos credores internacionais passaria
a orientar e monitorar nossa política social.
Estamos, é claro, no terreno da galhofa. Pois,
das duas, uma: ou o FMI apenas referenda as metas
sociais do governo Lula (e, neste caso, a negociação
é apenas uma pantomima) ou define outras metas.
Como ele já estabelece as metas que afetam
as questões externas, terá assumido
plenamente o governo do Brasil! Com o mesmo agravante
da hipótese anterior: qualquer meta social
adotada sem que se altere o superávit primário
implicará cortes de outras despesas - que só
poderão ser despesas sociais, as únicas
que permitem esse manejo. Assim, o governo anunciará,
com pompa e circunstância, novas metas sociais
que serão financiadas... com o corte de outras
despesas sociais!
9. Estamos oscilando,
como se vê, entre a tragédia e a farsa.
Dando seqüência às suas recorrentes
tentativas de desmoralizar a esquerda, Lula agora
diz que sempre gritou "Não ao FMI!"
como um jargão ideológico vazio e irracional.
Isso é problema dele. Da nossa parte, continuamos
dizendo o mesmo "não", sabendo porém
exatamente o que dizemos. Como sempre soubemos.
|