|
Publicado
em "O Globo" - 03/11/03
Enquanto ainda
é tempo
IVAN VALENTE
Não é
empréstimo. É um seguro de US$ 10 bilhões,
um cheque especial. É só para prevenir!
Esta é a tônica do novo acordo com o
FMI que o governo aponta no sentido de assinar. Vale
lembrar que o país está finalizando
um acordo com o Fundo que envolveu mais de US$ 30
bilhões, a maior quantia já emprestada
a um país de uma só vez em toda a história
desse organismo. Empréstimo, independentemente
dos recursos sacados, tem um custo financeiro para
o país. Mais alto ainda é o custo político
de continuar a caminhar de muletas e perder a liberdade
de mudar a política econômica.
No primeiro semestre
de 2003 o PIB cresceu apenas 0,3% em relação
a igual período de 2002, muito menos que a
população. O desempenho da produção
para o mercado interno foi muito pior, com declínio
entre 7,45% (usando o IPCA como deflator) e 17,4%
(usando o IGP-DI). Esses números mostram que
a política de severo ajuste fiscal e monetário,
defendida originalmente pelo FMI e agora legitimada
por decisões internas de política econômica,
tem efeitos devastadores. O sucesso dessa política
é o fracasso da nação. É
a tristeza de comemorar o Dia do Professor sem derrubar
os vetos de FH ao Plano Nacional de Educação,
apontando no sentido de menos verbas para o setor.
É a perplexidade de ver o movimento de saúde
recorrer à Justiça para garantir que
verbas vinculadas não sejam utilizadas para
outros fins.
Além de seus
efeitos sociais extremame nte perversos, essa política
não se sustenta nos seus próprios termos.
A relação entre dívida líquida
do setor público e PIB continua a se deteriorar,
atingindo 57,7% em fins de agosto, quase dois pontos
percentuais acima de junho. O que é mais grave
quando se constata que a evolução recente
da taxa de câmbio foi favorável à
redução, em reais, do passivo dolarizado
do setor público.
A taxa de juros é
responsável por esse mau resultado. O esforço
para obter 4,91% do PIB em superávit primário,
que praticamente paralisou os investimentos do Estado
e conduziu diversas áreas a uma situação
de colapso, foi completamente anulado pelo pagamento
de 10,2% do PIB em juros. E o Ministério do
Planejamento anunciou nova rodada de cortes. É
um círculo vicioso: a paralisia do investimento
público colabora para a recessão, que
por sua vez comprime ainda mais a arrecadação
fiscal, exigindo novos ajustes para baixo.
Ao decidirmos nas
próximas semanas se renovamos o acordo com
o FMI, estaremos decidindo que liberdade teremos para
alterar a política econômica nos próximos
anos. Se ela for mantida, com um novo acordo e suas
"condicionalidades", engolirá todo
o mandato do presidente Lula, frustrando as esperanças
que ele despertou, com conseqüências sociais
e políticas imprevisíveis.
O recurso ao Fundo,
que sempre foi considerado excepcional - como uma
internação em UTI - começa a
incorporar-se à paisagem mental brasileira,
como se fosse normal. Isso restringe o exercício
da nossa soberania, sujeita a imposições
que perpetuam o baixo crescimento. Apesar de ser uma
instituição multilateral, o FMI tem
um controlador claro - o governo dos EUA, proprietário
da maior parte das cotas.
Celso Furtado advertiu
recentemente que "a estratégia do FMI
é prolongar a recessão até que
aceitemos o currency board [o que equivale à
eliminação do Banco Central, tal como
ele existe hoje] ou a dolarização da
economia, o que é tremendamente perigoso para
a manutenção da soberania nacional".
Também Joseph Stiglitz, ex-vice-presidente
do Banco Mundial e Prêmio Nobel de Economia,
foi claro: "É melhor ficar sem o dinheiro
do FMI do que aceitar um novo acordo que estrangule
a economia do país."
As três alternativas
apresentadas pela área econômica do governo
tampouco resolvem a questão. A primeira é
obter um tratamento mais flexível dos investimentos
das estatais. Como o governo incluiu no Plano Plurianual
(em vigor até 2007) a obrigação
de manter um superávit primário de 4,25%
do PIB, se o FMI aceitar retirar a contribuição
das estatais para esse superávit, será
preciso fazer novos cortes em outras áreas.
A segunda proposta é o fim da proibição
de que o BNDES e a Caixa Econômica financiem
o setor público. Mas os limites desse financiamento
estão na legislação - Lei de
Responsabilidade Fiscal. A terceira proposta - inserir
"metas sociais" em novo acordo com o FMI
- é incompreensível e inaceitável.
Agora temos que pedir licença para efetuar
gastos sociais?
Esse modelo tão
ao agrado do mercado financeiro não gera círculo
virtuoso. Ao contrário, aprofunda a dependência
e a vulnerabilidade externa. Por isso, o Brasil deve
livrar-se das amarras do FMI enquanto ainda é
tempo.
IVAN VALENTE é
deputado federal pelo PT-SP.
|