Da impossibilidade
de existirmos sem os sonhos e sem a luta
Nita
Ana Maria Araújo Freire

“Sonhar não é apenas
um ato político necessário, mas também uma
conotação da forma histórico-social de estar
sendo de mulheres e homens. Faz parte da natureza humana que, dentro
da história, se acha em permanente processo de tornar-se...
Não há mudança sem sonho como não há
sonho sem esperança...
A compreensão da história como possibilidade e não
determinismo seria ininteligível sem o sonho, assim como
a concepção determinista se sente incompatível
com ele e, por isso, o nega”.1
Os dez anos da partida de Paulo desta vida, de
existência plena e fértil, como uma experiência
complexa, profunda e rica que foi a sua de estar com outros e outras
e com o mundo, marcada como a de muito poucos pela dignidade, coerência
e amorosidade, me levam a escrever este texto, como uma contribuição
à leitura daqueles e daquelas que sonham com um mundo melhor,
mas também a outros que, não sendo sectários,
irão lê-lo porque querem escutar vozes diferentes da
sua.
Estou certa de que, senão a maioria,
mas uma grande parte da população do mundo tem o sonho
utópico de construir um mundo no qual as relações
de conflitos sejam resolvidas de forma harmoniosa – e não
pela guerra -, tendo como intuito preservar a grandeza e a inteireza
dos seres humanos.
Sonhamos com um mundo onde caibam a tolerância,
a decência, a confiança e a solidariedade, tanto nas
relações de família quanto nas sociais, em
todos os seus níveis e amplitudes.
Mas a partir de “11 de setembro”
o imperialismo norte-americano ditou, com seu princípio maior
calcado no neoliberalismo globalizado, uma versão pós-moderna
da Lei de Talião, cujas ações incidentes no
mundo devem necessariamente ser regidas pela cobiça das riquezas
alheias, pela usurpação delas para usufruto privilegiado
de seus pares e eventualmente de seus concidadãos.
As ações dos “neoconservadores
e fundamentalistas cristãos”2,
que comandam o mundo da Casa Branca, vêm sendo basicamente
movidas pelo ódio do diferente, concretizada pelas guerras
de vingança, ditas preventivas, profundamente desumanizantes.
Para quem as praticam e para quem as sofrem, essas ações
exacerbam, portanto, a antieticidade, num processo de desumanização
que atinge a todos e a todas.
Essa perversa ideologia dissemina a idéia
da sua superioridade intrínseca acima de todas as coisas
e pessoas e atinge todos os âmbitos e todas as relações.
Estamos vivendo tempos de medo e desconfiança entre os indivíduos
e, sobretudo, entre sociedades de culturas diferentes do mundo.
O autêntico diálogo freireano do
qual tanto precisamos é aquele que, ao contrário,
se rege pela amorosidade, pelo respeito ao diferente e admiração
pela diversidade e pela crença na horizontalidade das relações
entre as pessoas como sujeitos da história para a construção
de um mundo verdadeiramente democrático.
É importante que nesta publicação,
que reafirma o pensamento de Paulo, façamos uma reflexão
sobre a nossa expectativa de mundo. Sobre como nos organizar para
alimentar nossos sonhos e construir nosso projeto de transformação
social. Em como manter a nossa esperança forte e aquecida,
para não nos curvar perante posições fatalistas
e o poder determinante – diante do qual, nada podemos fazer
- nos imobilizando para reação, para luta. Resgatar
e ampliar a possibilidade deste diálogo – da necessária
e justa reivindicação de mudarmos o mundo - é
viver Paulo Freire.
Quando comecei em princípio de 2004 a
organizar os textos do livro Pedagogia da tolerância,
pensava e refletia constantemente, que a globalização
da economia e o pensamento neoliberal, ao contrário do que
diziam os seus promotores pretender fazer, e estavam concretamente
fazendo, era disseminar através do poder político
e econômico centralizado, totalitário e exacerbado,
a arrogância, a prepotência e a malvadez sem limites.
Sobretudo, via com clareza, como tantos outros e outras faziam,
que estes se comportavam e norteavam a política mundial com
a intolerância do superior, dos que a ninguém e a nada
respeitam, dos que: “sabem com quem estão falando?”
Dos que pensam que a história e eles mesmos se fazem apenas
com o eu exacerbado como demiurgos da realidade, sem o indispensável
tu.
Sobre as tensões e confrontações:
ideológicas, políticas, pedagógicas e éticas
entre as forças progressistas e o atraso imobilizador, Paulo
Freire é contumaz nas suas palavras:
“Se as estruturas econômicas,
na verdade, me dominam de maneira tão senhorial, se, moldando
meu pensar, me fazem objeto dócil de sua força, como
explicar a luta política, mas, sobretudo, como fazê-la
e em nome de quê? Para mim, em nome da ética, obviamente,
não da ética do mercado, mas da ética universal
do ser humano, para mim, em nome da necessária transformação
da sociedade de que decorra a superação das injustiças
desumanizantes. E tudo isso porque, condicionado pelas estruturas
econômicas, não sou, porém, por elas determinado.
Se não é possível desconhecer, de um lado,
que é nas condições materiais da sociedade
que se gestam a luta e as transformações políticas,
não é possível, de outro, negar a importância
fundamental da subjetividade na história(...) Para mim, não
é possível falar de subjetividade a não ser
se compreendida em sua dialética relação com
a objetividade (...) É neste sentido que só falo em
subjetividade entre os seres que, inacabados, se tornaram capazes
de saber-se inacabados, entre os seres que se fizeram aptos de ir
mais além da determinação, reduzida, assim,
a condicionamento e que, assumindo-se como objetos, porque condicionados,
puderam arriscar-se como sujeitos, porque não determinados”.
3
Hoje, ao analisarmos a conjuntura mundial, constatamos
sem quase nenhuma dificuldade, sem sequer sermos cientistas políticos
ou economistas, o acirramento, há anos denunciado por Paulo,
das contradições que redundam no estado de injustiça
de todos os níveis e graus e que são cada dia maiores,
ditadas pela globalização da economia. Esta forma
pós-moderna de controlar o destino do mundo e de todas as
pessoas, que concentra as rendas nacionais nas mãos de poucas
pessoas e países, distribui, magnanimamente, como necessidade
de sua manutenção, uma política de endividamento,
de negação das soberanias nacionais, de misérias
de toda sorte. Fome, doenças, múltiplas penúrias
que vêm fragilizando mais e mais a maioria da população
da África e da América Latina e também segmentos
significativos dentro das próprias sociedades do Norte todo
poderoso. Nós, brasileiros e brasileiras, a cada dia, rigorosamente
falando, somos tão destituídos quanto nossos pares
latino-americanos, embora menos do que nossos pais de origem étnica
e cultural, os africanos. Sentindo-nos e sabendo-nos como nunca
subtraídos perversamente em nossas condições
e possibilidades de ser, de ter, de desejar, de querer e de poder.
Diante desse quadro absolutamente desesperador que
impera em nosso país, à imagem do que acontece em
todos os países emergentes do mundo – mas que entretanto
não deve amenizar ou fazer desaparecer os sentimentos de
repúdio ao modelo político-econômico que nos
esmaga, antes devem aumentar porque comprovam a que vêm e
estão a globalização e seus defensores -, entendi
que devemos mudar o enfoque das reflexões preparatórias
das nossas ações. Relendo a obra de Paulo percebi,
sobretudo a partir da Pedagogia da esperança, que ele vinha
nos convidando sim a nos indignar!Mas já indicava, para alcançarmos
a estratégia – a democracia –, de irmos superando
esta instância afetivo-política projetando sonhos de
mudança. Já nos convidava, já vinha nos fazendo
ver que deveríamos ir incorporando à indignação
e ao amor os sonhos éticos e políticos como uma necessidade
humana mais radical quando precisássemos enfrentar, como
agora, os difíceis problemas da sociedade.
O que digo é que precisamos não deixar
de nos indignar e amar, mas a partir deste sentimento de indignação
mesmo – porque pouco ou quase nada está sendo ouvido
da voz de nossa indignação pelos dominantes acerca
de nossos clamores -, nutrir os sonhos que quase sempre podemos
fazer possíveis para continuarmos sendo de fato e nos sentindo
como homens e mulheres sujeitos da história. De existência
verdadeira. Para não deixarmos que a indignação
se esvaia completamente, que o espanto desalentador ou a desesperança
desestabilizadora ou o cinismo adaptador tome conta de nós.
Por mais contraditório que isso possa parecer,
precisamos, urgentemente, pois, reavivar em nós mesmos a
nossa capacidade ontológica de sonhar, de projetar para um
futuro mais próximo possível, dias de paz, eqüidade
e solidariedade.
Reativar em nossos corpos conscientes as possibilidades
de sonhar o sonho utópico que Paulo há anos já
vinha nos convidado a sonhar – o sonho possível -,
o que nos possibilita resgatar em nós todos e todas a nossa
humanidade mais autêntica roubada por esses e essas que nos
exploram e mutilam. Pelos que minam as nossas esperanças
de tornarmos a nossa, uma sociedade séria e justa como merecemos.
Mais uma coisa acrescento, uma advertência para nossas reflexões:
ou nos identificamos com uma ética libertadora, assim humanista;
com as utopias onde cabem as diferenças, expurgando-nos e
expurgando da sociedade planetária as discriminações
e nos solidarizamos na construção social dos sonhos
possíveis da tolerância democrática ou marcharemos
a passos largos e rápidos para a autodestruição
total dos seres humanos.
Para isso precisamos, na reflexão de Paulo,
acreditar que “Do alvoroço da alma faz parte também
a dor da ruptura do sonho, da utopia” 4
Mas, que, contraditoriamente, dos “sonhos rasgados, mas não
desfeitos” 5, podemos
fazer renascer em nós a esperança de uma nova sociedade.
Assim, nós que temos compromisso com um mundo
melhor, que sentimos hoje mais do que nunca que nossos sonhos estão
sendo “rasgados”, que, mais uma vez, procuremos em e
com Paulo Freire re-fazer socialmente os sonhos possíveis
de transformação, pois sabemos que só aparentemente
eles foram desfeitos, pois sonhar é destino dado.
* Ana Maria Araújo Freire (Nita)
é doutora em educação pela PUC-SP e viúva
do educador Paulo Freire.
1.FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança. São
Paulo: Paz e terra, 1992, pág. 91-2
2. Categoria utilizada por Boaventura de Sousa Santos, na Carta
Maior, 29, nov.,2004, “O novo século americano”,
divulgada pela internet.
3.FREIRE, Paulo. Pedagogia da indignação
– Cartas pedagógicas e outros escritos. São
Paulo: Editora Unesp, 2000, pág. 56-7.
4. FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança. São
Paulo: Paz e Terra, 1992, pág. 33.
5. Ibdem, pág. 35.
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