Paulo Freire Vive!
Hoje, dez anos depois...
Ivan Valente

“Uma das questões centrais
com que temos de lidar é a promoção de posturas
rebeldes em posturas revolucionárias que nos engajam no processo
radical de transformação do mundo. A rebeldia é
o ponto de partida indispensável, é deflagração
da justa ira, mas não é suficiente. A rebeldia enquanto
denúncia precisa se alongar até uma posição
mais radical e crítica, a revolucionária, fundamentalmente
anunciadora. A mudança do mundo implica a dialetização
entre a denúncia da situação desumanizante
e o anúncio de sua superação; no fundo, o nosso
sonho”.
(Paulo Freire)
Introdução
No dia dois de maio de 2007 completará dez anos
da morte do professor Paulo Reglus Neves Freire, conhecido mundialmente
como um grande educador, pensador, filósofo e militante da
Educação.Inconformado com as injustiças sociais,
Paulo Freire fez da educação um instrumento político
de combate ao autoritarismo e de luta em favor da democracia. Dedicou
sua vida a criticar toda e qualquer forma de opressão e tirania
e questionou o método de ensinar e aprender impostos pelas
classes dominantes como instrumento de manutenção
do status quo. Em contraposição à educação
bancária, onde o saber é transmitido de cima para
baixo, autoritariamente, e o conteúdo tem um valor “em
si”, construiu, coletivamente, um projeto educacional libertador,
partilhado, capaz de criar uma cultura de pessoas livres, conscientes
e responsáveis por si e pela coletividade.
Sua trajetória de vida - contribuição
teórica, reflexão sobre a prática, propostas
de políticas públicas especialmente para a área
educacional- fizeram com que se tornasse referência mundial
para intelectuais, profissionais de diversos campos do saber, atores
sociais, educadores e educadoras, comprometidos com as causas populares,
com a educação pública de qualidade e com a
luta por uma sociedade mais justa
e igualitária.
Suas idéias, nos anos duros da ditadura militar,
o levaram ao exílio por dezesseis anos. Continuou, porém,
a desenvolver seu trabalho em diversos países, reafirmando
sua opção política e sua concepção
de educação, democrática e popular, dialética
e dialógica, mostrando a intencionalidade do ato educativo.
Paulo Freire se fez e continua presente no mundo inteiro,
principalmente entre aqueles e aquelas que sempre acreditaram e
continuam a crer na possibilidade de construir um mundo novo e melhor,
mais belo, mais humano e fraterno.
Esta homenagem a Paulo Freire, mais do que recordar,
com saudade, um dos brasileiros mais ilustres, reconhecido internacionalmente
por seu trabalho e testemunho de vida, tem um sentido simbólico:
o de resgatar sua luta incansável por justiça social,
através de um projeto de educação popular libertador,
emancipador e transformador da realidade. Esta homenagem tem também
por objetivo fazer desta oportunidade, um instrumento vivo de ação
e de luta.
Trajetória
O cidadão brasileiro e cidadão
do mundo
Paulo Freire, pernambucano, nasceu em Recife, em 19
de setembro de 1921. De família humilde, teve uma infância
marcada por dificuldades econômicas e desde cedo conheceu
a pobreza. Foi alfabetizado em casa, por seus pais, escrevendo com
gravetos, no chão de terra debaixo das mangueiras do quintal.
Como gostava muito de estudar, assim que concluiu a escola secundária,
tornou-se professor.
Formou-se em Direito, mas não exerceu a profissão.
Optou por se engajar na formação de jovens e adultos
trabalhadores e por atuar em projetos de alfabetização.
A partir de sua prática, com uma metodologia diferente, criou
uma teoria epistemológica que o tornou conhecido internacionalmente.
A partir dos anos 60, desenvolveu uma proposta revolucionária
de alfabetização através da qual, para além
da mera aquisição da linguagem escrita, a partir da
realidade vivencial dos educandos e do diálogo permanente,
busca-se a leitura e a compreensão crítica do mundo,
para poder transformá-lo.
Essa nova teoria valorizava o universo cultural e
vivencial dos educandos, estabelece o diálogo como método
e, através dele, a construção coletiva do conhecimento,
estabelecendo uma relação “dialógica”
entre natureza e cultura, fazendo com que os alunos se percebam
como sujeitos e, portanto, construtores de sua própria história.
Dentro dessa perspectiva, a alfabetização
é um processo de educação permanente, constituindo-se
em instrumento de conscientização que gera projetos
de transformação da realidade. Daí, porque,
insistia o Professor, o ato de educar é eminentemente político
e o fazer pedagógico, necessariamente coletivo. Foram suas
atividades no Movimento de Cultura Popular no Recife que inspiraram
sua teoria do conhecimento, da qual seu chamado “método
de alfabetização” extrapolou os limites do país.
Como conseqüência dessa atuação,
foi preso (1964) e exilado. Durante o período de exílio,
trabalhou no Chile, com alfabetização de camponeses,
nos Estados Unidos, ministrando aulas na Universidade de Harvard,
como professor convidado, e depois se fixou em Genebra, na Suíça.
Lá, foi consultor especial do Departamento
de Educação do Conselho Mundial de Igrejas, viajando
e trabalhando em diferentes países, tornando-se mundialmente
conhecido. Com outros companheiros de exílio, fundou o Instituto
de Ação Cultural - IDAC e no início dos anos
70 trabalhou na África, especialmente nas ex-colônias
portuguesas: Guiné Bissau, Cabo Verde, Angola, São
Tomé e Príncipe. Assessorou campanhas de alfabetização
e contribuiu efetivamente para sistematização de programas
e projetos educacionais naqueles países.
Em 1980, com a anistia, voltou ao Brasil. Por considerar
ofensivas as regras impostas, recusou-se a pedir a reintegração
a seu cargo na Universidade Federal de Pernambuco. Passou então
a trabalhar como professor na PUC/São Paulo e, em seguida,
tornou-se professor da Universidade de Campinas - Unicamp, onde
lecionou até o final de 1990.
Em 1989, foi convidado pela Prefeita Luiza Erundina
para ser Secretário de Educação do Município
de São Paulo. Sua Gestão caracterizou-se por ampla
discussão sobre condições de ensino e de trabalho,
onde o método “ação - reflexão
- ação”, enquanto um processo prático
e exigente de Gestão Democrática ia se consolidando;
investiu não só na formação permanente
dos educadores, mas melhorou as condições de trabalho
com uma nova jornada; aprovou o primeiro Estatuto do Magistério
da rede municipal de São Paulo; promoveu a revisão
curricular via projetos de interdisciplinaridade e uma nova organização
do ensino por meio de ciclos.
Fez da Gestão Democrática, nas suas
diversas dimensões, uma diretriz política. Com democracia,
participação colegiada e construção
coletiva tornou-se um marco para a educação na rede
municipal.
Com investimento na infra-estrutura, na formação dos
profissionais, na democratização do acesso e permanência
dos alunos e na gestão escolar conseguiu “mudar a cara
da escola” e mostrou que é possível fazer da
escola pública um lugar privilegiado de construção
de conhecimento, de desenvolvimento de projetos e de inserção
social. Reconhecido até pelos adversários, desenvolveu
o melhor projeto de formação de professores da cidade
de São Paulo.
Depois de deixar a Secretaria de Educação
do Município de São Paulo, em 1991, retomou suas atividades
acadêmicas publicando diversos livros e fomentando, de forma
permanente, a discussão educacional.
O Professor Paulo Freire morreu em 02 de maio de 1997, aos 75 anos,
na cidade de São Paulo.
Alfabetização
e conscientização:
inseparáveis em Paulo Freire
O Brasil deve a Paulo Freire a inclusão na
categoria de lutadores sociais de milhões de brasileiros
e brasileiras que compreenderam o que é ser sujeito de sua
própria história. Permitiu a um número expressivo
de pessoas que pertenciam aos “de baixo” enxergarem–se
como agentes transformadores na busca por uma sociedade mais justa
e igualitária. Deu-lhes a chance de escolher seu próprio
caminho, em vez de ficarem sempre presos às alternativas
impostas pelas elites para perpetuar sua dominação
de classe e a brutal exclusão social que sofrem os trabalhadores
no Brasil, e em toda periferia capitalista.
Não é à toa que os interessados
em manter seus privilégios e a alienação do
homem e da sociedade brasileira viram logo no seu “método”
um perigo iminente à manutenção do status quo,
uma ameaça sem precedentes a seus valores e instrumentos
de dominação, uma verdadeira “subversão
da ordem”, pois se tratava não só de alfabetizar
com rapidez e eficácia, mas, estimular o processo de conscientização.
O medo das elites se agravava quanto mais crescia a aceitação
de sua metodologia. Freire se refere a este fenômeno afirmando
que “se não tivesse sido interrompido pelo golpe de
64, naquele ano, deveria estar em funcionamento vinte mil círculos
da cultura em todo país”.
Paulo Freire como intelectual orgânico e, mais
do que isso, como um militante político, ao colocar seus
conhecimentos em prática, valorizando o homem do povo, aprendendo
com a vida, formando educadores engajados e respeitadores da experiência
e da sabedoria popular, transformava valores, atacava a meritocracia,
o autoritarismo e a hierarquização nas relações.
Subvertia a ordem do poder dominante, da lógica do lucro,
dos ricos, valorizando o homem e a natureza.
Nesta passagem do seu livro “Educação
como prática da liberdade” encontramos uma pequena
síntese de porque o pensamento de Paulo Freire amedrontava
aqueles que têm pavor do “despertar” das massas:
“Como explicar que um homem, analfabeto
até poucos dias, escreva palavras com fonemas complexos antes
mesmo de estudá-los. É que, tendo dominado o mecanismo
das combinações fonêmicas, tentou e conseguiu
expressar-se graficamente como fala.
A afirmação que nos parece
fundamental de ser enfatizada é a de que, na alfabetização
de adultos, para que não seja puramente mecânica e
memorizada, o que se há de fazer é proporcionar-lhes
que se conscientizem para que se alfabetizem.
Daí à medida que um método
ativo ajuda o homem a se conscientizar em torno de sua problemática,
em torno de sua condição de pessoa, por isso de sujeito,
se instrumentalizará para suas opções.
Aí então, ele mesmo se
politizará. Quando um ex-analfabeto de Angicos, discutindo
diante do presidente Goulart e sua comitiva, declarou que já
não era massa, mas povo, disse mais do que uma frase: afirmou-se
conscientemente uma opção. Escolheu a participação
decisória, que só o povo tem, e renunciou a demissão
emocional das massas. Politizou-se.”
Diálogo e
construção coletiva
no pensamento de Freire
Uma característica do pensar e do agir, da
maneira de se relacionar e aprender em Paulo Freire, diz respeito
à forma como ele vê o outro. O aprender a ouvir, a
valorização dos saberes que vêm da experiência
e da cultura popular, a abertura para o diálogo com os diferentes
e com os adversários para melhor apreender os antagonismos,
são características essenciais do projeto educativo
de Paulo Freire. O combate ao autoritarismo nas relações
humanas e sociais e a corajosa crítica que faz ao sectarismo
muito presente na vida e na política, com suas “certezas
sectárias excludentes de possibilidades de outras certezas,
negadoras de dúvidas” e o seu apelo à tolerância
são outras marcas que vão dar consistência às
ações de quem acredita no caráter coletivo
do
projeto educativo.
Diz, Paulo Freire em “Extensão ou Comunicação?”
que: “ser dialógico, para o humanismo verdadeiro, não
é dizer-se descomprometidamente dialógico; é
vivenciar o diálogo. Ser dialógico é não
invadir, é não manipular, é não sloganizar.
Ser dialógico é empenhar-se na transformação
cons-tante da realidade”. Freire trabalha de forma excepcional
o caráter social da aprendizagem. Combate com rigor a idéia
do professor como transferidor de conhecimento, trata a educação
como um ato político e ressalta a “diferença
entre o falar com alguém e o falar para alguém”.
É na contestação à lógica
de que a palavra deve estar com quem sabe; é combatendo a
ideologia de que o educando nada sabe; é duelando com a lógica
expandida de que o centro sabe e fala e a periferia do país
escuta, que Paulo Freire demonstra o potencial humano e a capacidade
do povo se assenhorar do conhecimento e fazê-lo instrumento
da construção de um novo sonho e de uma nova vida
transformada.
Nos diálogos que reproduzimos abaixo, retirados de experiências
de Paulo Freire com trabalhadores rurais, é cristalina essa
matriz de pensamento:
“- Muito bem - disse eu a eles.
- Eu sei. Vocês não sabem. Mas o que eu sei e vocês
não sabem?
- O senhor sabe porque é doutor. Nós, não.
- Exato, eu sou doutor. Vocês não. Mas, porque eu sou
doutor e vocês não?
- Porque foi à escola, tem leitura, tem estudo e nós,
não.
- Por que fui à escola?
- Porque seu pai pôde mandar o senhor à escola. O nosso,
não.
- E por que os pais de vocês não puderam mandar vocês
à escola?
- Porque eram camponeses como nós.
- E o que é ser camponês?
- É não ter educação, posses, trabalhar
de sol a sol sem ter direitos, esperança de um dia melhor.
- E por que ao camponês falta tudo isso?
- Porque Deus quer.
E quem é Deus?
É o Pai de todos nós.
- E quem é pai aqui nesta reunião?
Quase todos de mãos para cima, disseram que o eram.
Olhando o grupo todo em silêncio, me fixei num deles e lhe
perguntei:- Quantos filhos você tem?
- Três.
- Você seria capaz de sacrificar dois deles submetendo-os
a sofrimentos para que o terceiro estudasse, com vida boa no Recife?
Você seria capaz de amar assim?
- Não.
- Se você – disse eu - , homem de carne e osso, não
é capaz de fazer uma injustiça desta, como é
possível entender que Deus o faça? Será mesmo
que Deus é o fazedor dessas coisas?
Um silêncio diferente, completamente diferente do anterior,
um silêncio no qual algo começava a ser pratejado.
Em seguida:
Não. Não é Deus o fazedor disso tudo. É
o patrão.”
Nesse trecho fica claro que o educador sabe que no
meio do senso comum, convivem elementos de bom senso na experiência
popular. Por outro lado, o diálogo, o aprendizado e o respeito
ao saber popular, não podem levar o educador a uma visão
complacente que não contribua para inflamar o debate e o
despertar para descobertas fantásticas.
Outra faceta revolucionária dos seus ensinamentos aparece
na constatação prática de que a participação
crítica dos educandos e a liberdade com que o fazem é
que confere efetividade ao aprendizado e ao projeto educacional.
O aprender com o outro, no diálogo com seus
semelhantes, ensina Paulo Freire: “ninguém educa a
ninguém, ninguém tampouco se educa sozinho, os homens
e as mulheres se educam entre si, mediatizados
pelo mundo.”
Imprescindível homenagem
Paulo Freire mostrou de diferentes ângulos,
unindo a dimensão ética e estética das relações
humanas, que, atrás do ato de ensinar e aprender há
uma clara opção política e que a educação
nunca é neutra, toma partido, principalmente em um mundo
fortemente marcado pela opressão e desigualdade social.
Sua práxis mantém-se atual e tem servido
para fundamentar trabalhos acadêmicos, inspirado práticas
em várias áreas do saber e, além disso, estimulado
a participação popular e a organização
dos movimentos sociais em diversas partes do mundo.
Sua contribuição acadêmica e intelectual, com
inúmeros livros publicados e traduzidos para vários
idiomas, foi orientada para a emancipação da pessoa
humana, para a liberdade e justiça social, para a democracia
autêntica como soberania popular e para a paz entre os cidadãos,
num clima de humanização e de conscientização.
Diante da importância de seu pensamento, do
compromisso político-pedagógico e de sua trajetória
de vida, prestamos esta necessária homenagem por ocasião
dos dez anos da morte desse grande brasileiro e educador do mundo:
Paulo Freire, reconhecendo que seu trabalho dignificou a Educação
e o Brasil.
Fontes de Consulta:
FREIRE, Ana Maria Araújo. Paulo Freire: uma história
de vida. Indaiatuba,SP: Villa das Letras, 2006.
SOUZA, Ana Inês. Paulo Freire – Vida e obra.
São Paulo: Expressão Popular, 2005.
FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade.
São Paulo: Paz e Terra, 2007.
_____ Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra,
1997.
_____ Pedagogia da esperança: um encontro com a pedagogia
do oprimido. 11ª. Ed. São Paulo: Paz e Terra, 1997.
_____ Educação na cidade. 5ª. Ed. São
Paulo: Cortez, 1995.
_____ Extensão ou comunicação? Rio de
Janeiro: Paz e Terra, 1983.
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