Paulo Freire:
utopia e esperança
Mario Sergio Cortella*

Em 2005, como expressão de minha presença
no V Colóquio Internacional Paulo Freire, realizado na Cidade
do Recife/PE, selecionei e sintetizei quatro pequenas reflexões
sobre ele publicadas por mim nos últimos anos e que comporão,
com outras trinta e cinco sobre temas variados em Educação,
um livro chamado Pensatas Pedagógicas.
Ilusão de ética
Dez anos já se passaram desde que, no final
da madrugada de 2 de maio de 1997 (uma sexta-feira, dia chamado
de veneris no calendário romano da Antigüidade, em homenagem
a Vênus, deusa do Amor...), aconteceu a morte do corpo de
Paulo Freire. Dez sem ouvir, de viva voz, o Mestre nos alertando
para os riscos da complacência política e da conivência
ingênua.
Dez anos sem escutar, dito por ele mesmo, um verbo
que preciosamente inventara: “miopisar”. Em
Paris, em 1986, ao receber o Prêmio Educação
para a Paz da Unesco disse: “De anônimas gentes, sofridas
gentes, exploradas gentes aprendi, sobretudo, que a paz é
fundamental, indispensável, mas que a paz implica lutar por
ela. A paz se cria, se constrói na e pela superação
de realidades sociais perversas. A paz se cria, se constrói
na construção incessante da justiça social.
Por isso, não creio em nenhum esforço chamado de educação
para a paz que, em lugar de desvelar o mundo das injustiças,
o torna opaco e tenta miopisar as suas vítimas”.
Miopisar! Deixar míope, dificultar a visão,
distorcer o foco. Isso nos lembra a conjuntura atual da República
brasileira, na qual muitos daqueles aos quais cabe constitucionalmente
a tarefa de proteger a Justiça, a Democracia e a Cidadania,
fraturam a honradez e a legitimidade social, impondo, mais do que
uma ilusão de ótica, uma ilusão de Ética.
É a transformação em “normal” de
uma opaca ética do vale-tudo, do uso privado dos recursos
públicos, do exercício da autoridade legislativa para
tungar benesses particulares, da outorga judiciária para
obter a locupletação exclusiva.
É claro que a incúria, a malversação,
a prevaricação, a fraude e a negligência são
temas cotidianos e recorrentes durante toda a nossa história,
mas, não precisam continuar sendo... E, só não
o serão mais se não os considerarmos como inevitáveis,
naturais ou, até, normais. A novidade, porém, é
que, no momento em que há mais divulgação e
mecanismos legais de defesa contra tais desmandos e tresvarios,
parece que o espaço pedagógico não vem tocando
muito nesses temas (que não são nada transversais
ou oblíquos e, sim, centrais e primordiais).
Paulo Freire ficaria fraternalmente irado! Irado com
o entorpecimento que acomete muitas e muitos de nós que atuamos
em Educação; ele com certeza brandiria a Pedagogia
da indignação contra a eventual demora em transformar
esse contexto nacional eticamente turbulento em um tema-gerador
diário de nossa reflexão na comunidade escolar, de
modo a favorecermos a rejeição ao fatalismo e à
cumplicidade involuntária. É provável, também,
que nosso saudoso educador pernambucano nos relembrasse que “a
melhor maneira que a gente tem de fazer possível amanhã
alguma coisa que não é possível de ser feita
hoje, é fazer hoje aquilo que hoje pode ser feito. Mas se
eu não fizer hoje o que hoje pode ser feito e tentar fazer
hoje o que hoje não pode ser feito, dificilmente eu faço
amanhã o que hoje também não pude fazer...”.
Primavera do patriarca
Pouco mais de um mês após a morte de
Paulo Freire, publiquei uma reflexão sobre ele e a sedução
da esperança. Gostaria de celebrar essa lembrança
com a retomada de um trecho daquela mesma homenagem, pois penso
que se mantém dela a vivacidade.
“Paulo Freire (1921-1997) foi uma pessoa encantadora
nas múltiplas acepções que esse adjetivo carrega.
Encantava as pessoas (no sentido de enfeitiçá-las)
com sua figura miúda (grande por dentro), seu sotaque pernambucano
(jamais abandonado) e sua barba bem cuidada (herança profética).”
Seu maior poder de encantar tinha, no entanto, outra
fonte: uma inesgotável incapacidade de desistir. De algumas
pessoas se diz que são incapazes de fazer o mal, são
incapazes de matar uma mosca, são incapazes de ofender alguém;
Paulo Freire sofria (felizmente para nós) dessa outra incapacidade:
não perdia a esperança.
Cabe perguntar: esperança em que? Na reinvenção
do humano, na necessidade de inconformar-se com as coisas no modo
como estão. Dizia ele que “uma das condições
fundamentais é tornar possível o que parece não
ser possível. A gente tem que lutar para tornar possível
o que ainda não é possível. Isto faz parte
da tarefa histórica de redesenhar e reconstruir o mundo”.
Tarefa histórica era uma expressão muito
usada por Paulo Freire; ora, de quem recebera ele essa tarefa? De
si mesmo, na sua relação com o mundo real; sua consciência
ética apontava sempre como imperativa a obra perene da construção
da felicidade coletiva.
Ele encarnou, como poucos, um dos ideais da Grécia clássica
que dizia ser a Eudaimonia o objetivo maior da Política (da
vida na polis); literalmente eu/bem + daimonia/espírito
interior, significaria paz de espírito, mas
sua tradução oferece um ótimo trocadilho em
português: felicidade e, também, feliz/cidade.
Foi exatamente esse ideal (a política como
busca da felicidade de todos e todas) que conduziu Paulo Freire
para a educação e, nela, para a prática libertadora.
Muitas vezes, ao se avaliar a importância da obra de Paulo
Freire e o impacto que causou na realidade brasileira e internacional,
foi comum tachá-lo de um “incompreendido”. Grande
engano! Ele foi muito bem compreendido e, por isso mesmo, é
amado e admirado por muitos e rejeitado por outros tantos.
Paulo Freire não era (e nem poderia ser) uma
unanimidade; fez uma opção pelo enfrentamento político
e existencial e, dessa forma, só um resultado anódino
de suas idéias e práticas conseguiria situá-lo
no altar ascético (e inerme) daqueles que são aceitos
por qualquer um. Afinal, mede-se, também, o alcance do que
se faz pela qualidade dos adversários que se encontra e das
oposições que se manifestam.
O ideal freireano, felizmente, continua robustecido
e vivo para as educadoras e educadores que sustentam a força
da esperança e recusam-se a admitir a falência da felicidade;
esse sim é um ideal perene e amoroso.
Caminhos e escolhas
Em uma manhã de fevereiro de 1992 (lá
se vão quinze anos), logo no início do ano letivo,
tive a oportunidade de passar algumas prazerosas e encantadoras
horas na companhia de Paulo Freire. Fazíamos uma entrevista
cuja finalidade era, depois, se transformar em um depoimento, publicado,
em 1997, no livro Rememória – Entrevistas sobre
o Brasil do século XX 1.
Grande aula naquele dia.
Enquanto conversávamos na sala da casa em que vivia com Nita
Freire, distraí-me por um minuto ao observar um aparelho
de som, sobre um aparador mais ao fundo. Toca-discos ainda era um
objeto comum, numa época em que os CDs – agora já
rumando para a obsolescência – estavam apenas iniciando
sua difusão mais acelerada. Durante a entrevista, como uma
deliciosa trilha sonora, havia uma música de Bach rodando
em um compact disc. No entanto, minha atenção dirigia-se
a alguns antigos discos de vinil alinhados sob o móvel, o
mais visível com músicas de Geraldo Vandré.
No mesmo instante, vendo a capa do disco, seja
por ser começo de mais um ano docente, seja por estar frente
a Paulo Freire, alguém que, aos 71 anos, ensinava há
mais de meio século, lembrei-me dos versos iniciais da música
O Plantador, de Geraldo Vandré e Hilton Accioly (lançada
no disco Canto Geral, em 1968, em plena ditadura política
e durante o exílio de Freire no Chile):
“Quanto mais eu ando, mais vejo
estrada
Mas se eu não caminho, eu sou é nada.
Se tenho a poeira como companheira, faço da
poeira
o meu camarada”. Não é, claro, um caminhar para
qualquer lugar e de qualquer modo; não é um caminhar
errante e desnorteado. É preciso revigorar amiúde
o alerta feito pelo mesmo Paulo Freire, em 1997, na Pedagogia
da autonomia (última obra por ele lançada ainda
em vida): “Não posso ser professor se não percebo
cada vez melhor que, por não ser neutra, minha prática
exige de mim uma definição.
Uma tomada de posição. Decisão.
Ruptura. Exige de mim que escolha entre isto e aquilo. Não
posso ser professor a favor de quem quer que seja e a favor de não
importa o quê. Não posso ser professor a favor simplesmente
do Homem ou da Humanidade, frase de uma vaguidade demasiado contrastante
com a concretude da prática educativa. Sou professor a favor
da decência contra o despudor, a favor da liberdade contra
o autoritarismo, da autoridade contra a licenciosidade, da democracia
contra a ditadura de direita ou de esquerda.”
Viver sinceramente o “quanto mais eu ando, mais
vejo estrada, mas se eu não caminho, eu sou é nada”.
Viver docentemente.
Especial humildade
Em setembro de 1994, Paulo Freire concedeu uma
entrevista à educadora equatoriana Rosa Maria Torres, grande
estudiosa e conhecedora da obra do inestimável mestre que,
naquele mesmo mês, completava 73 anos. A conversa só
foi publicada de fato na Argentina, em maio de 1997, poucos dias
após o falecimento de Paulo Freire, mas, em 2001, quando
ele faria 80 anos, saiu uma tradução em português
no livro Pedagogia dos sonhos possíveis 2
, organizado por sua mulher, a educadora Ana Maria Araújo
Freire.
No diálogo, os temas prioritários foram
a valorização do trabalho docente, a formação
permanente, a necessidade de recuperação salarial,
a importância específica de algumas greves do magistério,
o perigo dos discursos eleitorais oportunistas, etc. No entanto,
o que mais chamou a atenção foi quando, ao falar sobre
o papel das greves, disse “Se eu pudesse ter mais influência
através dos meus livros, através da minha postura
e da minha posição, convidaria o magistério
e seus dirigentes a reexaminar as táticas de luta. Não
para abandoná-las. Eu seria o último a dizer aos professores
‘Não lutem’. Eu gostaria de morrer deixando uma
mensagem de luta.”
Uma década após a entrevista, o mais
espantoso nessa frase não é evidentemente o conteúdo
que ela carrega; afinal, Paulo Freire sempre deixou claro que as
táticas pela labuta contínua na melhoria da educação
não excluíam, mas também não se esgotavam,
nas paralisações reivindicatórias eventuais.
O que suscita surpresa é a humildade verdadeira que manifesta
ao relativizar, ele mesmo, com honestidade, o poder de seus escritos
e ensinamentos. O mestre levanta dúvidas pessoais sobre o
peso da autoridade de suas obras e ações, a ponto
de afirmar “se eu pudesse ter mais influência...”.
Vai além. Usa na fala reproduzida antes o verbo
no futuro do pretérito: “Eu gostaria de morrer deixando
uma mensagem de luta”. Ora, o que mais fez durante toda a
existência adulta? Por acaso seria aceitável supor
que o conjunto da obra que viveu e publicou tenha deixado em algum
instante de ser uma perene e abrasiva mensagem de ânimo combativo
e crítica edificante? Esse “eu gostaria” sugere
um desejo que nos parece estranho, pois, antes de tudo, o que fez
incansavelmente, e assim o honramos, foi impedir que aceitássemos
o falecimento da esperança.
Aí está a chave. Embora nos seja óbvia
a contribuição que Paulo Freire jamais deixou de oferecer
para advertir as nossas conformidades e entusiasmar as nossas intenções,
ele próprio não se admitia definitivo, concluído,
encerrado. Continuava, com mais de 70 anos, um ser em construção
e, desse modo, em aprendizados permanentes e aspirações
elevadas.
Há uma ironia etimológica. Seu nome
inicial vem do latim paulu que significa “pequeno”;
o vocábulo “humildade” por sua vez é oriundo
da adjetivação (também latina) humilis,
com o sentido de “pouca estatura”, pois tem origem no
substantivo húmus (terra ou solo, o que nos está
abaixo), mas, da mesma raiz indo-européia para “humano”.
Grande lição. Ser capaz de crescer
porque ainda se considerava pequeno.
* Filósofo, professor-titular
do Departamento de Teologia e Ciências da Religião
e da Pós-Graduação em Educação
da PUC-SP. Integrou a equipe de Paulo Freire e foi Secretário
Municipal de Educação de São Paulo (1991-1992).
1.AZEVEDO, Ricardo Rememória
– Entrevistas sobre o Brasil do século XX. São
Paulo: Fundação Perseu Abramo, 1997.
2.FREIRE, Ana Maria Araújo. Pedagogia dos sonhos possíveis.
São Paulo: UNESP, 2001.
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