A festa da Odebrecht em São Paulo

 

Sr. Presidente, sras. deputadas e srs. deputados

 

 

Demorou, mas finalmente a cúpula tucana foi fortemente atingida pelas denúncias da Odebrecht.  O que foi revelado a respeito do PSDB evidencia o quanto a corrupção no Brasil é institucionalizada, abarcando todos os grandes partidos. Em São Paulo, em especial, houve uma grande festa das empreiteiras com o tucanato, que exerce hegemonia no estado há mais de vinte anos.

José Serra, que até pouco tempo atrás sonhava em saltar do ministério para a presidência, encontra-se em situação extremamente delicada com a Lava Jato. Delatores estão apresentando à Justiça documentos que embasam a denúncia de mais de R$ 23 milhões de caixa dois, pagos em contas na Suiça para homens de sua confiança. Além do caixa dois para campanha eleitoral, que muitos parlamentares tentam minimizar como se fossem crimes menores, há grandes fraudes envolvendo obras durante gestões do tucano e de seu aliado político, Gilberto Kassab.

Na linha verde do metrô, conforme delação, houve repasse de quase R$ 18 milhões para retomar um contrato que já estava vencido. Há anos que nós falamos a respeito de desvios no metrô, mas infelizmente as investigações no Ministério Público Estadual jamais avançaram. Agora, com a repercussão violenta das delações da Odebrecht, espera-se maior rigor contra essas falcatruas. Na linha verde, teriam sido dez milhões para o presidente do metrô, R$ 3 milhões para dois diretores e 4,6 milhões para José Serra. Um representante do tribunal de contas também teria recebido uma parte.

No Rodoanel, outro foco de antigas denúncias, temos delações que falam em repasse de quase R$ 16 milhões. O governo estadual, na gestão Serra, teria favorecido um cartel de 12 empreiteiras, entre elas a Odebrecht. R$ 14 milhões teriam ido para José Serra, dos quais R$ 3 milhões chegaram a Kassab, para campanha eleitoral. Aliás, o Kassab, que na planiliha da Odebrecht era o Kafta, terá de responder a acusações que falam em valores exorbitantes, R$ 20 milhões de propina.

Um dos episódios delatados é de 2009, quando Kassab era o prefeito e teria solicitado R$ 2 milhões à Odebrecht para a construção do túnel Roberto Marinho. Em depoimento, um dos executivos, Carlos Alexandre Paschoal, disse que não toparam fazer esse pagamento porque já haviam adiantado uma quantia ainda maior para a campanha eleitoral. Esse tipo de negociação descarada mostra o quanto é quase impossível distinguir o que é caixa dois “para campanha” e o que é propina com contrapartida específica. O PSOL há muitos anos pedia o fim do financiamento empresarial, justamente por saber que aí está o grande alimento para a corrupção estrutural a que chegamos.

Na Arena Corinthians também existe um imbróglio que precisa de maiores esclarecimentos, pois o financiamento pelo BNDES colocou sob suspeita algumas figuras apontadas em delação, entre elas, novamente o Kassab e alguns parlamentares do PT.

Todos investigados têm direito a defesa, mas é inaceitável, em especial num momento tão conturbado, com denúncias que atingem as cúpulas dos chamados grandes partidos, que os denunciados que estão em posição de mando permaneçam nos postos enquanto pairam desconfianças. Serra saiu do ministério, numa clara manobra para evitar maior repercussão em relação ao seu nome como ministro, já Kassab e os demais insistem em ficar em postos de comando como se nada de anormal estivesse acontecendo.

Na verdade, seguem o exemplo de Michel Temer, que declarou em entrevista ao SBT:  “não vamos deixar que uma delação qualquer paralise o Brasil”.  Se o presidente considera que a avalanche de denúncias que vieram a público são delações quaisquer, imaginem os tucanos de São Paulo, acostumados com a blindagem da imprensa, do judiciário e da assembleia legislativa.

Nesse momento convulsionado da política brasileira, com denúncias que envolvem a maioria dos partidos, é preciso acabar de vez com qualquer tipo de tratamento seletivo. Para isso é preciso a apuração de todas as denúncias e punição de todos os culpados.  No caso de São Paulo, a pressão precisa ser redobrada, pois mais de vinte anos do tucanato no poder deixaram a cúpula do PSDB muito mal acostumada, achavam que podiam tudo e seguiriam eternamente impunes.

 

Deputado Ivan Valente – PSOL SP