A lógica militar da polícia violenta a sociedade civil

 

A desigualdade social crônica no Brasil, aliada à tradição patrimonialista e alimentada pela herança da escravidão, produziu um caldo de violência cotidiana inaceitavelmente alta. A ditadura militar (1964-1985) piorou a situação, quando enraizou nas instituições de segurança pública a visão de que sempre existe um inimigo interno a ser combatido. Como ferramenta da manutenção da ordem, o sistema criminal brasileiro atinge aqueles que não foram incluídos pela sociedade, ou seja, os pobres e os negros. Não por outra razão, são eles os vitimados semanalmente no campo e na cidade, sobretudo nos centros urbanos.

 

Na última semana, ressaltamos dois incidentes lamentáveis em São Paulo. No centro da cidade, na favela do Moinho, o jovem de 19 anos, Leandro de Souza Santos, foi morto pela polícia, após uma incursão feita supostamente para combater o tráfico de drogas, isso na terça-feira, dia 27.

 

A família e moradores contam que o jovem correu, quando avistou os policiais, em direção a uma moradia do local. Os policiais o seguiram e entraram juntos. Nisso, os moradores e parentes ficaram parados na porta para aguardar o desfecho. O aparelho de som da residência foi aumentado. Em seguida, de acordo com Letícia, irmã de Leandro, ouviu-se o barulho de tiro abafado. O jovem foi levado em um manta térmica para a Santa Casa no centro da cidade. Seu corpo estava ferido a bala e com escoriações. No local do acidente, foi encontrado um martelo. A suspeita é que o jovem tenha sofrido tortura antes de ser assassinado sumariamente. A polícia apresentou a versão de que Leandro teria recebido oficiais da Rota à bala, os quais reagiram. Os moradores se revoltaram com a morte, contra a qual protestaram. Foram reprimidos pela polícia com bombas de gás lacrimogênio e efeito moral.

 

No último domingo, outro jovem, Eliseu das Dores Vieira, 21, foi também foi morto por agentes policiais. Houve um roubo na região, o que pôs a polícia em alerta. Na hora da abordagem, testemunhas disseram que Eliseu se entregou para a polícia, além de estar desarmado. Em seguido, veio a execução. Os moradores se revoltaram. Ônibus e lojas foram quebrados.

 

O décimo anuário de segurança pública, publicizado no fim de 2016, demonstrou que nove pessoas são mortas pela polícia por dia no Brasil. Esses números são compatíveis com os de uma guerra civil.

 

De acordo com a Anistia Internacional, no Rio de Janeiro, o número de mortos entre abril e junho de 2016 foi 103% maior que no ano anterior. A falência da política que envolve as UPPs, o avanço dos conflitos entre as facções e o avanço da própria violência policial têm gerado ondas de protestos na cidade.

 

O cenário de crise política e social tende a agravar os índices de violência. Cabe a nós pensarmos em outro modelo de segurança pública que não estimule justamente o que se pretende combater. Não há dúvidas que esses assassinatos sumários devem ser denunciados publicamente. É revoltante, inconcebível que o país assista atônito a tantas mortes de jovens com a vida inteira pela frente. Aceitar essa injúria é abrir mão da civilização.