Decisão do STF foi “absurda, estúpida e totalmente fora da realidade”, diz ex-presa política; veja repercussão

29/04 – 21h15
Raquel Maldonado e Camila Campanerut
Do UOL Notícias
Em São Paulo e Brasília

A ex-presa política Amélia Telles disse que ficou bastante decepcionada com a determinação do Supremo Tribunal Federal (STF) de não revisar a Lei de Anistia. “Essa foi uma decisão absurda, estúpida e totalmente fora da realidade. Com essa decisão, nos foi negado o direito à memória, o direito à verdade.”

Em entrevista ao UOL Notícias, ela afirmou que a postura adotada pelos ministros do STF foi reacionária. “Todos eles sabem o que foi a ditadura e o que isso significou para tantas famílias. Votar contra a revisão da lei significa estar contra os direitos humanos, através de uma postura extremamente reacionária”, completou.

Bastante desiludida, Telles ainda fez questão de frisar que, com o resultado do julgamento, o Brasil continua muito atrasado com relação aos outros países da América Latina, que já começaram a punir seus torturadores. “É uma vergonha, é um retrocesso”, critica.

O resultado do julgamento também foi mal recebido pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). A decisão do STF “reproduz o discurso da época em que se vivia sob o medo e sem liberdades”. Essa é a opinião de Ophir Cavalcante, presidente nacional da OAB e um dos responsáveis pela ação apresentada ao Supremo, em outubro de 2008, na qual questionava a aplicação da lei sobre os agentes do Estado que praticaram torturas durante o regime militar (1964-1985).

“Nossa expectativa era bastante otimista. Esperávamos que o Supremo fizesse uma interpretação de acordo com a nossa Constituição, mas isso não ocorreu”, afirmou Cavalcante após o julgamento.

Mesmo com o resultado desfavorável, ele diz que a ação significou muito. “Sem a postura da Ordem, não se conheceria o Brasil de ontem. A ação foi muito importante porque reabriu uma discussão que estava esquecida, a discussão sobre a reabertura dos arquivos e sobre o valor da memória histórica. Essa discussão é importante para que a sociedade não repita os mesmos erros do passado”, defendeu Cavalcante.

Também contrário ao parecer dos ministros do STF, o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) apontou que o Brasil está muito atrasado em relação aos países vizinhos “Acho um imenso atraso o Brasil não conseguir punir os torturadores. O que está acontecendo na Argentina: em uma semana tivemos dois presidentes presos. Na semana passada, no Uruguai, um ex-chanceler foi condenado à prisão por desaparecimento político, a mesma coisa aconteceu no Chile”.

Sobre a definição de que a ação da OAB seria um instrumento de revanchismo e de vingança contra os militares, Valente afirma que “revanchismo seria levar o torturador ao pau de arara e não investigar quem cometeu os crimes. O STF não poderia dar cobertura para isso. Essa página da história precisa ser virada, mas não será enquanto houver impunidade. O assunto não será encerrado com esta decisão”, declarou.

Outro parecer contrário ao STF é o de Walter Maierovitch, juiz de direito e presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone. “A decisão é uma vitória da tortura e um desrespeito a dignidade humana e dos direitos naturais que não estão escritos. É lamentável sob o aspecto técnico e sob o aspecto político”.

Já o senador Demóstenes Torres (DEM-GO) se mostra favorável à decisão, afirmando que não há como rever o passado. “Concordo perfeitamente com a decisão do Supremo. A Lei da Anistia perdoa todo mundo. Participei do movimento goiano pela anistia, depois de tantos anos por que rever este assunto? Houve crimes, houve excessos de parte a parte. Está no Código Penal. A decisão não implica em tirar o direito a indenização ou abrir arquivos e reconhecer os erros do passado. Mas vamos voltar a criar ódio no Brasil?”.

Com relação à comparação com alguns países da América Latina, o senador é categórico: “O Brasil é diferente destes que estão revisando os crimes do passado, que são democracias cada vez mais frágeis [em referência a Argentina e Uruguai]”.

Outra personalidade ouvida pelo UOL Notícias que também enaltece a decisão do STF é o jurista Ives Gandra Martins. Para ele, “foi corretíssima a decisão, porque a lei anistia todos os crimes sem distinção. Tortura não é diferente deles. A Lei de Anistia diz que ‘onde a lei não distingue, não cabe ao intérprete distinguir’”, assinalou.

“Sou absolutamente contra a tortura. Fui perseguido, tive os meus bens bloqueados, mas nunca pedi ressarcimento”, disse o jurista. “A lei pode ser modificada para dar eficácia para o futuro e não para o passado”, finalizou.

O julgamento
Após dois dias de julgamento, o STF decidiu nesta quinta-feira (29), por 7 votos a 2, pela improcedência da ação apresentada pela OAB. Acompanharam o voto do ministro relator Eros Grau, pela manutenção da lei, os ministros Cármen Lúcia, Gilmar Mendes, Ellen Gracie, Marco Aurélio, Celso de Mello e o presidente do STF, Cezar Peluso. Já os ministros Ricardo Lewandowski e Ayres Britto entenderam que a ação da OAB era parcialmente procedente.

Peluso iniciou seu voto dizendo que “é desnecessário dizer que nenhum ministro tem nenhuma dúvida da profunda aversão dos crimes praticados, não só pelo nosso regime de exceção, mas de todos os regimes de todos os lugares e de todos os tempos”.

Para finalizar, ele afirmou que, se é verdade que cada povo resolve seus problemas de acordo com a sua cultura, “o Brasil fez uma opção pelo caminho da concórdia”. Ele disse ainda que “os monstros não perdoam. Só o homem perdoa, só uma sociedade superior é capaz de perdoar”.

Na ADPF (arguição de descumprimento de preceito fundamental), a OAB pedia que o Supremo desse uma interpretação mais clara ao artigo 1º da lei, defendendo que a anistia não deveria alcançar os autores de crimes comuns praticados por agentes públicos acusados de homicídio, abuso de autoridade, lesões corporais, desaparecimento forçado, estupro e atentado violento ao pudor, contra opositores ao regime político da época.

Ivan Valente vai convocar Advocacia Geral da União sobre caso da usina de Belo Monte

O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) apresentará requerimento convocando o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, para prestar esclarecimentos na Comissão de Direitos Humanos e Minorias acerca da polêmica da construção da usina de Belo Monte, no rio Xingu, no Pará.

Em declarações à imprensa, Adams afirmou nesta quinta-feira (22/04) que o governo estuda entrar com um pedido de responsabilização na Justiça contra os autores de ações que resultaram em liminares concedidas às vésperas do leilão da usina de Belo Monte. Segundo a AGU, o objetivo é evitar novas interrupções de leilões e de outras obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Segundo o advogado-geral, “houve uma estratégia deliberada para evitar o leilão” tanto por parte de integrantes do Ministério Público do Pará quanto por organizações da sociedade civil. Na avaliação do deputado Ivan Valente, há uma clara intimidação do governo em anunciar uma medida como esta.

“A AGU precisa dar explicações à sociedade brasileira. Iniciativas como esta são intimidadoras tanto contra outros Poderes quanto contra organizações da sociedade civil, que estão cumprindo o seu papel”, afirmou Ivan Valente.

“Ao contrário do que acredita o Gilmar Mendes [presidente do Supremo Tribunal Federal], o Artigo 5º da Constituição garante aos cidadãos a possibilidade de recorrer à Justiça para garantir o exercício de seus direitos. A AGU não pode impedir a população de fazer isso. Quando entender que está sendo prejudicada pela ação de qualquer um dos Poderes – algo bastante frequente na história das privatizações do país – é direito e dever da sociedade brasileira ir ao Judiciário”, completou.

Belo Monte: AGU descarrega artilharia pesada

VEJA.com
22 de abril de 2010

Mesmo depois de sair vencedora em uma verdadeira guerra de liminares e garantir a realização do leilão para erguer a usina hidrelétrica de Belo Monte, a Advocacia-Geral da União (AGU) começou a descarregar artilharia pesada contra a atuação do Ministério Público no caso. E pode sobrar até para o Poder Judiciário.

Nesta quinta-feira, o advogado-geral da União, Luís Inácio Adams, protocolou uma representação no Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), órgão responsável pelo controle externo do MP, contra o procurador Rodrigo Timóteo Costa e Silva e contra o promotor Raimundo de Jesus Coelho Morais. Eles abandonaram uma audiência pública, o que foi alvo de críticas de Adams.

Mas a batalha pode ir além. O órgão estuda, também, entrar com uma representação contra o juiz federal Antonio Carlos Campelo na corregedoria do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1). O magistrado concedeu uma liminar que chegou a suspender a concorrência. Mas a notificação teria sido enviada por email. “Intimação via email não existe”, defendeu.

Militante – Para o titular da AGU, a conduta dos integrantes do MP foi um problema grave. “Não estamos abrindo guerra, mas não toleramos abusos. Isso não é contra a instituição, mas não podemos criar pequenos totalitarismos”, disparou.

“O Ministério Público tem competências constitucionais que exigem uma dose de parcialidade e um comportamento mais reservado e equilibrado. Quando um procurador se comporta como militante deixa de atender a esse requisito”, completou, sem baixar o tom.

O CNMP vai analisar a representação e, se aceitá-la, vai decidir as punições cabíveis. “Não usamos a representação para intimidação. Buscamos aperfeiçoar as regras dos deveres funcionais”, declarou.

Momentos antes de anunciar as medidas, Adams atacara a queda de braço na Justiça em torno da questão. “Infelizmente há uma prática de judicialização no país. Estão tentando cavar uma suspeita totalmente infundada”.

O deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) anunciou, nesta quinta, que vai apresentar requerimento convocando o advogado-geral da União para prestar esclarecimentos na Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara.

Ministro diz que Comissão da Verdade não terá caráter punitivo

Agência Câmara
Publicação: 22/04/2010 10:00

O secretário de Direitos Humanos da Presidência da República, ministro Paulo Vannuchi, afirmou nesta terça-feira que a Comissão da Verdade, prevista no 3º Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH), não terá caráter punitivo e será composta por personalidades ligadas ao respeito aos direitos humanos (e não por representações setoriais), por recomendação das Nações Unidas.

Segundo o ministro, nos países onde a composição de comissões desse tipo seguiu orientações diferentes os trabalhos não avançaram, por conta de embates políticos. “A Comissão da Verdade vai permitir que o País desenvolva políticas públicas para evitar a repetição de atos de violação aos direitos humanos”, acrescentou o ministro, que participou de audiência pública conjunta das comissões de Direitos Humanos e Minorias; e de Relações Exteriores e de Defesa Nacional sobre o PNDH.

Vannuchi afirmou, porém, que o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF) poderão estabelecer regras para eventualmente punir quem tenha violado os direitos humanos durante a ditadura militar (1964-1985). “O texto da lei vai apontar a possibilidade de responsabilizar por torturas, mortes ou desaparecimentos. A ideia é não trabalhar esse tema sob a conotação de quem ganhou ou perdeu, mas como uma busca para aprimorar a democracia”, disse o ministro.

O PNDH prevê a criação da Comissão da Verdade para promover a apuração e o esclarecimento público das violações de direitos humanos praticadas no contexto da repressão política na ditadura, para efetivar o direito à memória e à verdade histórica e promover a reconciliação nacional.

Para o ministro, a comissão representa um avanço institucional e uma complementação das Leis 9140/05, que reconhece a responsabilidade do Estado pelas mortes e desaparecimentos no regime militar; e 10559/02, que criou a comissão da anistia.

Parcialidade
A declaração do ministro foi motivada pela acusação do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) de que a comissão será parcial, por não incluir militares – categoria que também teria sido vítima de ações terroristas durante a ditadura: “É a comissão da farsa, da mentira. Por que o guerrilheiro quando tortura é certo, e o militar é demônio? O PNDH deve ser derrotado como um todo; quero uma comissão verdadeira, paritária, e não formada por gente indicada pelo governo”, defendeu.

Durante a audiência, em geral, os deputados apoiaram o 3º PNDH. A maioria presente era da base governista e criticou os meios de comunicação e entidades de classe por terem, supostamente, deturpado o conteúdo do plano para defender seus interesses empresariais. “É preciso que as pessoas identifiquem com precisão as suas divergências em relação ao plano, para não parecer que estão sendo favoráveis ao trabalho escravo e à exploração sexual de crianças”, declarou o deputado Paulo Teixeira (PT-SP), em alusão a outros temas incluídos no PNDH.

O deputado Ivan Valente (Psol-SP) afirmou que o governo não pode recuar em pelo menos quatro pontos: o funcionamento da comissão da verdade; o controle social da mídia; a descriminalização do aborto; e a parte referente à negociação dos conflitos agrários, que seria um “salto de qualidade na luta contra a criminalização dos movimentos sociais”.

O deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) criticou o plano por conter temas já rejeitados pelo Congresso, como a descriminalização do aborto e a regulamentação da atividade dos profissionais do sexo. “Parece que o governo não quer aceitar a derrota democrática; se quer mudar a lei, que mande uma proposta ao Congresso e não venha com um plano com tantos temas polêmicos”, disse.

Paulo Vannuchi admitiu que o governo vai mudar os pontos sobre o aborto no plano. Sem detalhar que mudanças serão feitas, ele disse que o texto atual não está de acordo com as duas conferências nacionais da mulher anteriores ao documento.

A redação atual do programa defende a descriminalização do aborto e a garantia de que o procedimento, nos casos legais, seja realizado no Sistema Único de Saúde (SUS). Segundo o texto, o aborto deve ser considerado tema de saúde pública e deve ser preservada a autonomia das mulheres para decidir sobre os seus corpos.

Hidrelétrica no Xingu: o trem fantasma e o chabu

Correio da Cidadania
Escrito por Oswaldo Sevá
20-Abr-2010

O projeto da mega-usina hidrelétrica é bem chamado de Belo Monstro pela garotada de Altamira, pelos ribeirinhos índios e não índios do Xingu paraense e por alguns de nós adultos brancos ainda combatentes da ditadura e da destruição movida pelo capital.

Vai se confirmando o que eu escrevo há anos: mentira em cima de mentira, um dia pode desabar.

O propagandista nazista Goebbels dizia que a mentira sempre repetida torna-se verdade. Mas nem sempre ele acerta.

Quarta feira, dia 14 de abril, começou a circular a notícia de que, mais uma vez, o juiz federal de Altamira, no Pará, Antonio Carlos Campelo, havia acolhido a liminar de uma Ação Civil Pública movida por procuradores federais e determinado a suspensão da Licença Prévia ambiental do projeto Belo Monte, que havia sido concedida pelo IBAMA em fevereiro, e o cancelamento do leilão da eletricidade futura da hipotética usina, marcado para terça-feira, dia 20 de abril, pela Aneel – sim, aquela que merece o nome de Agência dos Negócios da Energia Elétrica.

Segundo o site da UOL na mesma data, “além de suspender a licença prévia e cancelar o leilão, o juiz ordenou que o Ibama se abstenha de emitir nova licença, que a Aneel se abstenha de fazer novo edital e que sejam notificados o BNDES e as empresas Norberto Odebrecht, Camargo Corrêa, Andrade Gutierrez, Vale do Rio Doce, J. Malucelli Seguradora, Fator Seguradora e a UBF Seguros. A notificação, diz o juiz, é ‘para que tomem ciência de que, enquanto não for julgado o mérito da presente demanda, poderão responder por crime ambiental’. As empresas também ficam sujeitas à mesma multa arbitrada contra a Aneel e o Ibama em caso de descumprimento da decisão: R$ 1 milhão, a ser revertido para os povos indígenas afetados.”

A reversão dessa decisão judicial pelos advogados do executivo barrageiro lulista-sarneysista a serviço do capital hidrelétrico transnacional seria apenas uma questão de dias.

Como num verdadeiro trem-fantasma de parque de diversão, a cada curva uma surpresa. Nem sempre as informações usadas por um foram percebidas ou utilizadas pelos outros. É o caso da matéria do grande jornalista paraense Lúcio Flavio Pinto, intitulada “Belo Monte: lago cresceu”, publicada em seu Jornal Pessoal no. 462 da primeira quinzena de abril: “No EIA-RIMA, a área do reservatório sofre uma ligeira correção para 515 km quadrados. Mas, no edital de licitação da obra, houve um reajuste ainda mais acentuado, para 668 km². A evolução, a parir da primeira versão do novo projeto, já passou de 50%. Embora em valores absolutos a diferença não seja tão expressiva, o percentual é alto demais para que a dança de números transcorra sem explicações. E até mesmo sem cobranças, já que os opositores do projeto não parecem ter observado a mutação”.

Meu recado para quem anda articulando mais uma Ação Civil Pública, a qual corre o risco de, como as demais, apenas ‘fazer as coisas menos mal feitas’, eis um bom motivo para enquadrar o crime de falsidade ideológica, já que a Licença Prévia diz um número e o edital diz outro, e ambos foram paridos pelo mesmo poder. A não ser que se decida que a Agência de Negócios Elétricos não faz parte de nenhum poder…

Bem, do jeito que vai, acabará sendo como a obra de Jirau no rio Madeira, onde, depois de obtidas a Licença Prévia e a Licença de Instalação, as transnacionais barrageiras mudaram o eixo de barramento quase dez quilômetros rio abaixo, o que provocará o alagamento de terras e a expulsão de moradores nunca previstos nem estudados no EIA.

Ou então… Vai dar chabu! Salvo engano excepcional, do qual me redimirei se preciso, as pistas que levam ao chabu geral são:

1. O investimento seria da ordem de 30 bilhões de reais, mas o governo insiste com valores de 18, 19, 22 bilhões, nessa faixa. Ninguém sabe de fato o custo dos canais imensos concretados, 500 metros de largura, 20 metros de profundidade, nem das dezenas de diques laterais que formariam as cinco represinhas dos igarapés afluentes da margem esquerda do Xingu no interior da Volta Grande.

A colunista Miriam Leitão repercutiu isso no dia 10, logo após a desistência das duas maiores empreiteiras em participar do leilão: “Sobre Belo Monte, recaem muitas dúvidas. De toda ordem: financeira, ambiental, de engenharia. Isso é que está assustando investidores. ‘Há um canal gigantesco que precisa ser feito, cujo estudo nunca foi feito adequadamente. Não se sabe se esse terreno é 90% pedra e 10% terra, ou o contrário. O custo do canal vai depender da natureza desse terreno’, diz Mario Veiga, presidente da PSR”.

2. O maior roubo já articulado pelos honoráveis bandidos: seja o que for, nenhum grande banco privado quis entrar, o governo obriga o BNDES a bancar sem os técnicos do banco terem analisado detalhadamente se dá ou não retorno, o governo pressiona agora a Petros, o Funcef e a Previ – fundos de pensão dos petroleiros e dos bancários, há anos sendo dirigidos pela aristocracia cutista, para colocarem a grana, ou melhor, a pensão futura dos trabalhadores e de suas viúvas, sem o devido respaldo de análise de retorno. Enquanto isso, quase todas as grandes empresas seguradoras ficam só olhando e as concorrentes do leilão exigem que o Tesouro Nacional securitize o risco… Nem Al Capone faria tão bem.

Quando até a Miriam Leit publica no Globo.com artigo intitulado “Na lei ou na marra” é porque o Belo Monstro também virou pauta da imprensa golpista, ou, se quiserem, da campanha serrista. Segundo ela: “Em Belo Monte, prepara-se para fazer concessões maiores para atrair investidores a qualquer preço e iniciar a obra em qualquer contexto jurídico, passando por cima de quaisquer dúvidas ambientais. Isso porque, como disse o presidente: ‘Belo Monte será construída’. Talvez seja mesmo, mas antes será preciso cumprir a lei. Na marra, não será possível”.

3. O risco geotécnico. Esse é o grande segredo que em 2009 alguns deixaram escapar e que agora parece ter motivado de fato a desistência da Odebrecht e da Camargo Correa, que soa incompreensível sob qualquer outro angulo. A Camargo, com o seu escritório CNEC, está insuflando os projetos no Xingu desde a década de 1970, quando, entre otras cositas, contribuía para a repressão sobre os opositores da ditadura. Mas é o corpo técnico que melhor conhece o projeto e os locais onde seria construído.

Se o risco geotécnico for o motivo, há razões: o piso da Volta Grande é a transição entre o terreno cristalino do planalto central e o terreno aluvionar da planície amazônica, tem trechos de terreno cáustico (com carbonatos de cálcio, frágil, furado, cavernoso), as lajes por onde o riozão se espalha, e às vezes mergulha por debaixo, mostram fraturas rochosas longas, profundas, em forma de mosaico, que são visíveis na morfologia da Volta Grande e talvez sejam bem mais graves por baixo da camada visível.

4. E claro, lá estão de olho os Kaiapó, alguns milhares, que sobreviveram aos massacres seculares, vieram vindo desde o Triângulo Mineiro e o sul de Goiás para o Mato Grosso e o sul do Pará, não tendo agora mais para onde ir. Conhecem os brancos melhor do que nós mesmos, e vão guerrear até morrer.

5. “Last but not least”, estão no ar as campanhas do James ‘Avatar’ Cameron, do cantor Sting e de várias Ongs barulhentas, incluindo os aliados do bispo de Altamira, dom Erwin Krautler, e parte da sua igreja aqui e na Europa. Esse pessoal já monitora os fatos e estrila como nunca dantes ocorreu.

Os demais argumentos dissidentes (pouca energia do rio para tanta potência instalada, mais de vinte mil atingidos sem reassentamento, graves perdas ambientais, audiências públicas manipuladas e sob repressão fardada…) são justos e importantes, mas não o suficiente para fazer o projeto naufragar. Fica a incógnita se a candidatura Dilma naufraga junto ou não.

Por enquanto, a aliança petista-sarneysista, da qual Belo Monstro virou emblema, está somente fazendo água, levando susto a cada curva.

Oswaldo Sevá é professor da Universidade Estadual de Campinas, engenheiro, doutor em Geografia Humana pela Universidade de Paris-I, colaborador dos ameaçados e dos atingidos pelas barragens, estudioso de hidrelétricas há 35 anos e do projeto Belo Monte há 22 anos.

Ivan Valente participa de ato e fala contra a usina de Belo Monte no plenário da Câmara

O deputado federal Ivan Valente participou nesta terça-feira (20/04) do ato promovido pelo Greenpeace e diversos movimentos populares contra a usina de Belo Monte, no Rio Xingu (Pará). Os manifestantes descarregaram um caminhão de esterco em frente à sede da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), em protesto ao leilão que aconteceria hoje.  A liberação do leilão está em disputa na Justiça, numa briga de liminares entre a Advocacia Geral da União e a Justiça Federal do Pará.

Em seguida, o deputado foi à tribuna da Câmara, onde falou contra a construção da usina e seus impactos para a região. Confira abaixo a íntegra do discurso:

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados,

Estive hoje pela manhã em frente à sede da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) num protesto organizado pelo Greepeace, pelos trabalhadores sem terra e pelos atingidos por barragens, além de várias outras entidades, contra a construção da Usina de Belo Monte, no Pará.

Infelizmente, mais uma vez, a Justiça cassou a liminar que suspendia o leilão e cancelava a licença concedida pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais). As fortes pressões do governo surtiram resultado. Vale ressaltar que a Usina Belo Monte é tratada como algo estratégico por este governo, uma vez que é a obra mais vistosa do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

O debate sobre a construção da Usina de Belo Monte é antigo e sempre polêmico, mas agora ganha contornos decisivos. Apesar de ser uma discussão que já se alonga por mais de 30 anos, a população atingida não foi devidamente ouvida, como manda a Constituição Federal. As poucas audiências realizadas em 2009 tiveram a marca da truculência e do atropelo ao debate, visando dificultar a participação popular no processo.

Mesmo o parecer técnico emitido pelo IBAMA foi desrespeitado. No documento, o IBAMA destaca pontos como a falta de dados sobre manutenção da biodiversidade, navegabilidade e condições de vida da população que poderá ser atingida. Segundo o parecer, o relatório de impacto ambiental carece de informações sobre uma possível preparação da região para o fluxo populacional que a obra provocará, além de um grau de incerteza sobre a qualidade da água. Outro aspecto considerado é a possibilidade de prejuízo sobre a população ribeirinha, indígena e urbana da Região do Xingu, sua fauna e flora. Estima-se que a construção da Usina deve desalojar cerca de 20.000 pessoas.

Senhor Presidente, uma obra como essa, de tamanho impacto, precisa ser melhor debatida e discutida com a população atingida, com a sociedade brasileira, com as perspectivas que estão colocadas para tratar de forma sustentável dos desafios de produção enérgica.

Não podemos aceitar o atropelo, o predomínio dos interesses eleitorais e das grandes construtoras. Apesar de todo o processo de adaptação do governo Lula à lógica pura e simples do mercado, à política neoliberal e aos interesses do capital financeiro, não deixa ainda de causar estranhamento essa ação tão deliberada de fazer, a toque de caixa, a Usina de Belo Monte, mesmo com toda a resistência dos movimentos sociais organizados, da população atingida e das entidades ambientalistas. O governo desconsidera o apelo da sociedade, passa por cima, faz da decisão na Justiça uma guerra de força, não leva em consideração os enormes impactos ambientais que essa obra terá.

Vivemos um momento de reflexão, não podemos aceitar que os recursos naturais sejam tratados na mesma lógica de desenvolvimento predatório predominante até agora. É óbvio que as soluções para o grave problema da produção de energia não são simples, mas isso não justifica o atropelo e a insistência num modelo que já deu provas cabais no mundo todo do seu custo irreparável para o futuro da humanidade.

Muito obrigado.

Contra a faxina étnica no centro de São Paulo

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados,

A manchete do jornal O Estado de S. Paulo de ontem traz uma grande reportagem sobre o que está sendo feito na cidade de São Paulo, na prefeitura Kassab, com os moradores de rua.

É impressionante! O tratamento já era péssimo na lógica da exclusão social, na lógica da faxina étnica, na lógica do preconceito, mas, ainda assim, os moradores de rua, com suas enormes dificuldades, desestruturação, etc., vinham sendo tratados por assistentes sociais.

Ocorre que baixaram, agora, uma legislação: quem vai tratar principalmente disso é a Guarda Civil Metropolitana, ou seja, já há denúncias de violências, de preconceitos, de truculências, apoiados pela Polícia Militar do Estado de São Paulo, sobre moradores de rua.

É impressionante que o próprio jornal mostrou uma bomba de efeito moral não detonada, mas jogada sobre um grupo de pessoas, moradores de rua que, em vez de serem recolhidos, acolhidos e tratados como seres humanos, recebem bombas de gás da Polícia!

A Guarda Civil Metropolitana , da Prefeitura de São Paulo, também vem tratando os moradores de rua com gás pimenta, ou seja, com repressão, com violência!

Repudiamos esse tipo de tratamento e exigimos que o Prefeito Kassab pare com essa política de limpeza étnica no centro de São Paulo! Os pobres, os excluídos, as pessoas que não têm onde morar e estão desestruturadas precisam que o Estado acompanhe suas condições psicológicas, econômicas e de moradia; que o Estado lhes dê abrigo sem violência, sem imposições e trate-os com a dignidade que um ser humano exige.

Só que há enorme pressão do comércio, há enorme pressão da especulação imobiliária, que quer fazer outro tipo de ocupação da cidade. Essas pessoas viraram lixo humano, que não interessa a eles, e assim são tratados com truculência, com violência!

Por isso, Sr. Presidente, vimos aqui denunciaresse tipo de comportamento da Prefeitura associado à ação da Polícia Militar do Estado de São Paulo, que vem utilizando bombas de efeito moral contra moradores de rua.

Ontem, um grupo organizado dos moradores de rua e representantes de entidades da sociedade civil de direitos humanos levaram à Ouvidoria da Polícia o material recolhido — bombas de efeito moral e de gás lacrimogêneo — para demonstrar a violência contra moradores de rua na cidade de São Paulo.

Obrigado.

Ivan Valente
Deputado Federal PSOL/SP
Câmara dos Deputados – 15 de abril de 2010