Para que se educa?

Folha de São Paulo
São Paulo, terça-feira, 20 de abril de 2010

MICHELLE PRAZERES
ESPECIAL PARA A FOLHA

No ato de uma empresa de turismo usar escolas como mídias para divulgar viagens à Disney está em jogo, acima de tudo, uma concepção de educação. Para que educamos? Para o desenvolvimento? Para o crescimento? Para sermos bem-sucedidos no mercado de trabalho? Para a vaidade e o hedonismo? Para a cidadania e a dignidade? Ou a ênfase está na formação de consumidores?

Interessa aqui discutir a educação como processo amplo de formação dos indivíduos, socializados por influência de múltiplas matrizes culturais, que transmitem valores, visões de mundo, saberes e percepções.

Na modernidade, as mídias e a publicidade despontam como matrizes que – com a família, a escola, os grupos de pares, os colegas de trabalho e outras instituições – são responsáveis pela formação das pessoas.

Nessa iniciativa, a escola se alinha ao discurso do consumismo que vemos hoje em dia, em especial na mídia dirigida a crianças. Quando a escola se entrega a esse projeto, fica comprometido o seu papel enquanto reduto de reflexão e o sentido da educação como processo de preparação para a vida.

A escola é o lugar do saber legítimo, que se crê oficialmente importante para ser passado. O problema é que, historicamente, esse saber é produto de disputas de poder nem sempre democráticas. E se, nos tempos modernos, um dos vetores de poder é a publicidade (o mercado), seria “natural” que ela estivesse na escola.

Mas, se o “clima pró-consumo” já existe em tantas outras instâncias, a escola deve reforçá-lo? Ceder ao apelo publicitário é empobrecer o sentido humano da educação. E esse sentido enxerga nas crianças outras possibilidades além de consumidores: leitores, produtores de conhecimento, investigadores, críticos, lúdicos etc.Hoje, todo espaço público, todo corpo pode virar um meio de divulgar uma marca. Na escola, a criança percebe aquele discurso como positivo e, mais grave, que tem o respaldo de pessoas em quem ela e os pais confiam. E tudo de maneira dócil. Por isso não nos causa incômodo. Mas deveria incomodar.

MICHELLE PRAZERES, jornalista, desenvolve pesquisa sobre a entrada das mídias nas escolas em doutorado na Faculdade de Educação da USP.

Capa - Caderno_Educação Educação não é mercadoria

Publicação do Mandato do deputado Federal Ivan Valente, reunindo textos de diversos especialistas sobre temas da conjuntura educacional brasileira.

Para baixar o arquivo completo em pdf clique aqui

  • A educação como direito de todos e todas – Ivan Valente
  • Educação infantil de qualidade: Direito das crianças e das famílias -Joseane Bufalo e Paulo Bufalo
  • A “reforma” do ensino médio ou a retórica da inovação – Eduardo Garcia C. do Amaral
  • A Conferência Nacional de Educação – e os desafos para o novo PNE

Luiz Araújo

  • O ensino a distância e a lógica mercantilista na educação Debate: César Minto, Ivan Valente, João Zanetic e Lisete Arelaro

Apresentação

As políticas neoliberais vêm, desde a década de 80, atacando a educação pública. Nessa lógica, esse direito passa a ser tratado como um segmento de mercado, diferenciado de acordo com o perfl econômico da “clientela”, e deve, portanto, ser gerido de forma empresarial e marcadamente competitiva.

Ainda que todos e todas se manifestem sobre a importância da educação pública, percebe-se claramente que o projeto, seguindo as orientações dos organismos  internacionais, é a redução da estrutura do Estado e a terceirização e privatização de todos os serviços ligados às redes de ensino, além do incentivo à criação e potencialização de mercados como o de apostilas, materiais pedagógicos, equipamentos escolares e até de cursos de formação continuada e aperfeiçoamento dos profssionais.

Para  alcançar  êxito  nesse  projeto,  os  governos  têm  utilizado  sistematicamente os meios de comunicação, via um discurso  ideológico que procura demonstrar que os problemas da educação nacional são devidos a uma suposta falta de competência dos profssionais e uma inefcácia na gestão escolar. Justifcam, assim, a ideia de que a solução é reorganizar as nossas escolas segundo um modelo empresarial, baseado no estabelecimento de parâmetros meramente quantitativos e comparativos,  jogando a responsabilidade de superação das difculdades para a comunidade escolar.

Nos últimos meses, essa política se intensifcou com a criação de mecanismos de premiação, que implicam também punição, que desrespeitam os direitos trabalhistas, criando diferenciações e abrindo caminho para o fm da estabilidade e até a terceirização da contratação dos profssionais. De outro lado, a autonomia pedagógica e a gestão democrática das escolas foram eliminadas pela imposição de sistemas apostila dos vinculados a provinhas e provões e pela adesão compulsória aos projetos padronizados movidos pela política de bônus.

Por fm, vemos também o ameaçador avanço de cursos de formação superior através do ensino à distância, inclusive para a formação inicial de professores, como mais uma forma de precarização e descaracterização da formação profssional. Tal política atende apenas a interesses mercantis e é apontada também como saída para a ampliação,
a baixo custo, de “vagas” em instituições públicas.
Esta publicação do nosso mandato conta com contribuições de companheiros e companheiras que têm signifcativo acúmulo nesses temas e reconhecida atuação  na luta em defesa da escola pública, gratuita e de qualidade para todos.
Num momento em que o Governo Federal, tardiamente, de forma burocrática e sem objetivos claros, deu início a uma Conferência Nacional de Educação (CONAE), a publicação procura também aprofundar e contribuir com este debate, já que as etapas municipais e estaduais da Conferência, por seu formato e dinâmica, têm se mostrado insufcientes e
fechadas, ainda que mobilizando um número signifcativo de pessoas.

Para  que  não  venhamos  a  presenciar  o  fm  do  direito  à  educação pública, é necessário  reorganizar os movimentos, debater de  forma consistente as políticas educacionais e resgatar nossas bandeiras históricas, acumulando  forças para o enfrentamento das políticas neoliberais. Com os textos a seguir, esperamos contribuir para essa luta, com a análise de alguns dos pontos mais  importantes da atual conjuntura educacional brasileira.

Boa leitura!

Mandato Popular e Socialista
Ivan Valente – Deputado Federal PSOL/SP
Novembro / 2009