trabalhoescravo Com vitória no Código Florestal, bancada ruralista agora mira legislação trabalhista

Depois da vitória dos setores conservadores na votação do novo Código Florestal, uma nova ofensiva vem sendo gestada pela bancada ruralista. Impulsionados pelo agronegócio, cada vez mais dominante na economia brasileira, as lideranças que representam o latifúndio no Brasil se dedicam agora ao embate contra as normas trabalhistas que regulamentam a atividade no campo e pela redefinição do conceito de trabalho escravo. Em nome da proteção ao setor agrícola, os ruralistas trabalham pela impunidade dos arbítrios cometidos por grileiros e fazendeiros que promovem o trabalho degradante.

Com 214 deputados e 14 senadores, a bancada é uma das poderosas do Congresso Nacional e tem acesso direto ao Governo Federal. A senadora Kátia Abreu (PSD-TO), presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), principal liderança do agronegócio brasileiro e recentemente aliada ao Governo Dilma – chegou a ser cogitada, inclusive, para o Ministério da Agricultura – tem se destacado pela defesa da propriedade privada em detrimento  da função social da terra, incluindo a grilagem e a manutenção da terra em posse de fazendeiros acusados de fazer uso de trabalho análogo à escravidão.

A precarização da legislação trabalhista no campo é uma das bandeiras prioritárias do agronegócio. A aprovação da flexibilização de regras e a garantia de impunidade, como resultado da aprovação do novo Código Florestal, incentivaram e abriram uma nova frente de atuação para o ruralismo. As sinalizações dadas até o momento insinuam que as relações trabalhistas estão em risco desde os seus princípios mais elementares, como a jornada de trabalho no campo. A ofensiva inclui ainda a oposição sistemática a projetos de lei que exigem autorização prévia dos órgãos de vigilância sanitária para o funcionamento de alojamentos rurais, entre outros.

Uma das principais iniciativas da bancada ruralista tem sido contra a Norma Regulamentadora 31 (NR31), que impõe aos empregadores um conjunto de 252 medidas para a garantia de segurança e saúde dos trabalhadores na atividade agro-econômica. A NR31 estabelece, portanto, padrões de civilidade e cidadania no trabalho no campo, onde a precarização já é extrema.

Para o deputado Ivan Valente, a bancada ruralista, depois da aprovação do novo Código Florestal, encontrou uma nova oportunidade em sua busca de lucro ilimitado. Com a expansão do agronegócio, incentivado pela política de desenvolvimento a qualquer custo do Governo Dilma, não há mais limite para a atuação dos grandes latifundiários. “Há no Congresso uma grande porta aberta para a atuação da bancada ruralista, que tem sido cada vez mais ousada em sua voracidade, agora pela desregulamentação das garantias dos trabalhadores”, avalia o deputado.

 

Trabalho Escravo

A Frente Parlamentar da Agricultura tem trabalhado também contra a legislação que define o conceito de trabalho escravo no Brasil. Em 2012, a Câmara dos Deputados aprovou a Proposta de Emenda Constitucional 438/01, conhecida como PEC do Trabalho Escravo, que propõe a expropriação de imóveis rurais e urbanos onde a fiscalização encontrar exploração de trabalho escravo.

A proposta determina que os imóveis sejam destinados à reforma agrária ou a programas de habitação popular. A PEC é originária do Senado e, como foi modificada na Câmara, voltou para exame dos senadores. O projeto, no entanto, encontra-se parado no Senado por pressão da bancada ruralista, que insiste na revisão do conceito de “trabalho escravo”.

Atualizado em 2003, o artigo 149 de Código Penal define o trabalho escravo contemporâneo como “reduzir alguém a condição análoga à de escravo, quer submetendo-o a trabalhos forçados ou a jornada exaustiva, quer sujeitando-o a condições degradantes de trabalho, quer restringindo-o, por qualquer meio, sua locomoção em razão de dívida contraída com o empregador ou preposto”.

Para o deputado Ivan Valente, que integra a CPI do Trabalho Escravo da Câmara, a realidade no campo brasileiro causa perplexidade diante das condições degradantes encontradas pela CPI em algumas fazendas. O deputado cita como exemplo a operação realizada em agosto passado em Marabá (PA). Na ocasião, a fiscalização encontrou trabalhadores em condições degradantes, alojados em barracos precários de lona e terra de chão batido, sem acesso à água potável, à alimentação adequada e banheiro, sob isolamento geográfico, sem receber salários há dois meses e submetidos tanto à servidão por dívida como a jornadas exaustivas do início da manhã até o anoitecer.

“No Brasil, desde 1995, mais de 42 mil pessoas foram encontradas nessas condições, e não interessa à bancada ruralista que essa realidade seja exposta. Por isso, querem reduzir a abrangência do conceito de trabalho escravo para garantir a impunidade no campo e exploração máxima dos lucros à custa dos trabalhadores”, afirma Ivan.

Segundo o Código Penal (Decreto-Lei 2.848/1940), quem explora trabalho escravo já está sujeito à reclusão de dois a oito anos e multa, além da pena correspondente à violência praticada. A pena é aumentada da metade se o crime é cometido contra criança ou adolescente ou por motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem.

Para Valente, a aprovação da PEC do Trabalho Escravo na Câmara representou uma vitória, mas solitária, contra a bancada ruralista, que vem colecionando vitórias expressivas no Congresso Nacional.

“Infelizmente, o Governo tem sido conivente com os interesses da bancada ruralista, sempre alegando a necessidade de manter a governabilidade. Enquanto tenta se afirmar para o mundo através de grandes eventos midiáticos, o Brasil ainda tolera trabalho escravo. É lamentável. Mas não conseguirão transformar o campo em terra sem lei sem resistência”, prometeu Ivan.

Charcoal works, Acre State, Amazon rainforest, Brazil. São Paulo aprova lei que bane empresas que usam trabalho escravo e pressiona Senado por aprovação de PEC

O Estado de São Paulo sancionou na segunda-feira (28), Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, a Lei 1034/2011, que prevê o fechamento de empresas instaladas em território paulista que se utilizem de trabalho análogo à escravidão em qualquer elo da cadeia produtiva. A medida, portanto, atinge empresas que usam direta ou indiretamente trabalhadores em condição de escravidão.

A punição prevista na lei implica na tentativa de inviabilizar a atividade econômica da empresa cassando a inscrição estadual no cadastro do ICMS, impedindo a emissão de nota fiscal. Os autuados ficarão impedidos por dez anos de exercer o mesmo ramo de atividade econômica

As empresas poderão ser responsabilizadas mesmo em caso de terceirização ou quarteirização e terão que acompanhar a produção de seus fornecedores. Levantamento do Ministério Público do Trabalho revela que um funcionário de confecção regularmente registrado custa R$ 2.348,17 a mais do que um trabalhador em situação análoga à escravidão.

Segundo o MPT, o setor agropecuário e as indústrias têxtil e da construção civil se utilizam com frequência de trabalhadores submetidos à situação análoga à escravidão, mediante o uso do trabalho forçado, servidão por dívida, jornada exaustiva ou trabalho degradante.

Aprovado por unanimidade no Legislativo paulista em dezembro do ano passado, o projeto de lei sancionado pelo governador determina também que as empresas flagradas tenham nome, endereço e número do Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ) divulgados no Diário Oficial do Estado de São Paulo, assim como o nome dos seus proprietários.

 

PEC 438

A opção da aplicação de sanções econômicas pela lei estadual é justificada por conta da prerrogativa da União em legislar sobre questões trabalhistas. A Câmara dos Deputados aprovou no ano passado, em segundo turno, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 438/2001, que permite a expropriação de imóveis rurais e urbanos onde a fiscalização encontrar exploração de trabalho escravo, e agora é aguardada a votação no Senado.

A proposta determina que os imóveis sejam destinados à reforma agrária ou a programas de habitação popular. Segundo o Código Penal (Decreto-Lei 2.848/1940), quem explora trabalho escravo já está sujeito à reclusão de dois a oito anos e multa, além da pena correspondente à violência praticada. A pena é aumentada da metade se o crime é cometido contra criança ou adolescente ou por motivo de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou origem.

Para o deputado Ivan Valente, a aprovação da Lei 1034 pela Assembleia Legislativa de São Paulo e sua sanção pelo governo é um avanço na luta contra o trabalho escravo e que, em parte, é uma conquista da sociedade mobilizada em torno da PEC 438. Ele espera que agora haja ainda mais pressão e sobre o Senado e sobre o Governo Federal, já que a questão tem sido arrastada pela bancada ruralista – o debate já dura mais de uma década – intransigente na defesa do latifúndio e de suas práticas.  Além disso, os ruralistas têm aproveitado para tentar desvirtuar o conceito de trabalho escravo hoje previsto no artigo 149 do Código Penal.

 

CPI do Trabalho Escravo

A CPI do Trabalho Escravo da Câmara Federal , da qual participa o deputado Ivan Valente, acompanhou duas operações de fiscalização promovidas pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pela Polícia Federal (PF). A primeira, na cidade de São Paulo, constatou em diversos locais na Zona Norte da cidade exploração de trabalho escravo entre imigrantes bolivianos. Eles trabalhavam mais de 15 horas por dia, em condições degradantes, comendo, dormindo e trabalhando no mesmo local por valores desprezíveis.

No setor têxtil, a peça de roupa chegava a ser vendida por um preço até 100 vezes maior do que era ganho pelos trabalhadores, em lojas de grife.

Em Marabá (PA), a fiscalização encontrou trabalhadores em condições degradantes, alojados em barracões precários de lona e terra batida, sem acesso à água potável, à alimentação adequada e banheiro, sob isolamento geográfico, sem receber salários há dois meses, submetidos tanto à servidão por dívida como a jornadas exaustivas do início da manhã até o anoitecer. O episódio serviu para desmentir cabalmente as alegações do agronegócio de que aquelas eram condições normais de trabalho no campo.

“Mais do que nunca, o país tem de dar uma demonstração de que não está mais disposto a tolerar essa barbaridade. No Brasil, desde 1995, mais de 42 mil pessoas foram encontradas nessas condições”, afirmou Valente, que destacou que a pena estabelecida pela PEC – a desapropriação das terras – é justa, porque o direito de propriedade não pode se sobrepor ao direito à vida.

Direitos Humanos: uma luta de todo dia

Senhor presidente, senhoras e senhores deputados,

Venho a Tribuna neste dia registrar a bela manifestação feita no dia de ontem em São Paulo para celebrar o Dia Internacional dos Direitos Humanos e cobrar do Estado brasileiro uma vida digna para todo cidadão e cidadã. O protesto, intitulado “10D – Dez direitos que o Estado não garante”, teve como objetivo principal alertar a população de São Paulo para o genocídio da juventude negra, pobre e periférica, que continua ocorrendo em todo o estado.

Enganam-se aqueles que acham que a substituição do secretário de Segurança Pública e dos comandos das polícias civil e militar resolveram a crise de segurança em São Paulo. Ela continua acontecendo, e o protesto desta segunda-feira deixou tudo muito explícito.

Ação de grupos de extermínio, violência institucional, toques de recolher, violação do direito e ir e vir da população, invasão de moradias, entre tantas outras agressões, tem caracterizado o cotidiano de inúmeras comunidades, já há muitos meses. O quadro é de barbárie, com jovens pobres sendo considerados inimigos a serem mortos e presos. Tudo isso, infelizmente, com o aval do governo Geraldo Alckmin, com a conivência da maioria da população e com a omissão silenciosa da grande imprensa.

Depois de passar pela Avenida Paulista, o protesto seguiu até a Assembléia Legislativa de São Paulo, onde o Parlamento, salvo honrosas exceções, também tem silenciado diante deste caos. Lá foi realizada a Sessão Solene de entrega da 16ª edição do Prêmio Santo Dias de Direitos Humanos, que leva o nome do operário assassinado pela ditadura militar durante uma greve em 1979.

O Prêmio homenageou, entre outros grandes lutadores desta causa, o cantor Mano Brown; os jornalistas Leonardo Sakamoto, que há mais de uma década combate o trabalho escravo no país; e André Caramante, repórter da Folha de S.Paulo, que precisou deixar o país após sofrer inúmeras ameaças de morte pelas denúncias de violência policial que publicou. Foi homenageada também a Instituição de Ensino Educafro, que desenvolve um amplo trabalho para combater esta que é uma das mais cruéis formas de violação de direitos fundamentais: o racismo.

É fundamental lembrar, no entanto, senhor Presidente, que a defesa dos direitos humanos não cabe em um único dia, por mais importante e simbólico que seja o dia 10 de Dezembro, data escolhida pelas Nações Unidas para a promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos em 1948. Esta é uma luta de todo dia, que precisa ser abraçada pelo conjunto da sociedade brasileira, sob o risco de não conseguirmos suplantar nunca os inúmeros desafios que o país tem pela frente nesta matéria.

Nos últimos dez anos, como lembra o balanço lançado nesta segunda pela Plataforma Dhesca – articulação que reúne inúmeras organizações de defesa dos direitos humanos – a economia brasileira cresceu muito. Saltou do 12º lugar para a 6ª posição no ranking das maiores economias, e milhões de brasileiros e brasileiras, como exalta o governo, ultrapassaram a linha da pobreza. No entanto, em se tratando de redução das desigualdades e avanços nas questões relacionadas aos direitos humanos, estamos devendo muito.

Segundo a análise da Plataforma Dhesca, algumas situações de violação dos direitos se agravaram e acirraram o debate sobre o tema no país, como ocorreu com o 3º Programa Nacional dos Direitos Humanos (PNDH-3), que ainda não foi implementado pelo governo, apesar da mobilização que a sociedade civil vem fazendo desde 2009.

Os direitos, por exemplo, dos indígenas vêm sendo sistematicamente violados, como ocorre com os Xavante de Maraiwatséde, no Mato Grosso, e os Guarani-Kaiowá, do Mato Grosso do Sul. As grandes obras de infraestrutura, como as usinas hidrelétricas, ameaçam as comunidades impactadas e o meio ambiente.

Ao mesmo tempo, o “país do futebol” se prepara para a Copa do Mundo de 2014 e para os Jogos Olímpicos de 2016 removendo famílias – e até mesmo comunidades inteiras – de seus locais de moradia ou realizando realocações para áreas sem infraestrutura adequada.

Poderíamos continuar essa lista falando das crianças fora da escola, das péssimas condições de saúde oferecidas à população, das pessoas que ainda passam fome, da reforma agrária ainda não feita, do direito negado à cidade, da violência contra a mulher, de todas as formas de preconceito ainda marcantes em nosso país, da liberdade de expressão negada ao conjunto do povo, das torturas que prevalecem em delegacias e prisões.

Enfim, os desafios são inúmeros. É preciso portanto, como alertam as entidades e os defensores de direitos humanos, refletir quais serão nossas prioridades para o próximo período. E enfrentá-las com a devida prioridade. Recursos para isso o país tem. É preciso aumentar a pressão popular sobre o governo e garantir vontade política para que os planos saiam do papel e para que o Brasil também possa se orgulhar, para além de ser a 6ª maior economia do mundo, de ser um país onde seu povo vive com dignidade.

Muito obrigado.

Ivan Valente
Deputado Federal PSOL/SP

Fiscais do Ministério Público encontram trabalho escravo em obra do Minha Casa, Minha Vida em Alagoas

FOLHA DE S.PAULO

REYNALDO TUROLLO JR.

Fiscais do Ministério Público do Trabalho encontraram indícios de trabalho análogo à escravidão em uma obra do programa Minha Casa, Minha Vida em Penedo (AL).

O Minha Casa, Minha Vida é o principal programa habitacional do governo federal.

As vistorias foram realizadas em setembro nas obras de construção de 75 casas em um condomínio batizado com o nome da ex-primeira dama Marisa Letícia Lula da Silva.

As casas são destinadas a famílias com renda de zero a três salários mínimos.

João Leite, presidente da empresa responsável pelas obras, a Feulb (Federação das Entidades Comunitárias e União de Lideranças do Brasil), afirmou que houve exagero na classificação da situação e que as pendências já foram regularizadas.

Entre os problemas apontados pelo Ministério Público do Trabalho estavam falta de carteira assinada, pagamentos em atraso e feitos com vales, falta de equipamentos de proteção, falta de água potável e moradia inadequada.

“O empregador cedeu, como alojamento, o interior de três unidades habitacionais ainda em construção”, afirma o relatório da vistoria.

“Havia um número insuficiente de camas [....]. Parte dos empregados dormia em colchões depositados diretamente sobre o chão sujo [...]. Os trabalhadores realizavam suas necessidades fisiológicas ‘no mato’”, diz o texto.

Em 13 de setembro, a empresa -que, segundo a Procuradoria do Trabalho, era “reincidente”- firmou um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) com o órgão. “O processo encontra-se para análise do cumprimento das cláusulas [do TAC]“, disse o Ministério Público. O TAC prevê multa de até R$ 50 mil.

O presidente da Feulb, João Leite, afirmou que os trabalhadores eram registrados e que apenas alguns terceirizados não tinham registro.

“Coincidiu de a vistoria ser no dia em que chegaram trabalhadores de Arapiraca [cidade da região] para ficar uma semana. Estávamos ainda providenciando acomodação para esse pessoal”, disse.

Segundo Leite, a classificação de condições análogas à escravidão é absurda: “Não estavam trancados, ninguém era obrigado a ficar no canteiro. Havia pendências em relação a alguns funcionários, mas já regularizamos e levamos as comprovações ao Ministério Público do Trabalho”.

Contra o enfraquecimento da Secretaria de Inspeção do Trabalho e pela preservação do combate ao trabalho escravo no país

Senhor Presidente, senhoras e senhores Deputados,

Gostaria de trazer a Casa um fato grave, noticiado pela imprensa no final da última semana, que pode comprometer a política de combate ao trabalho escravo no país. Na quinta-feira passada, dia 11, a chefe da Secretaria Nacional de Inspeção do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego, Vera Lúcia Albuquerque, pediu exoneração. O órgão é responsável por verificar o cumprimento da legislação trabalhista em todo o país e tem, entre outras atribuições, a responsabilidade por fiscalizar denúncias de escravidão contemporânea, de trabalho infantil e de fraudes no FGTS.

Responsável pela SIT desde o início do governo Dilma, Vera Lúcia Albuquerque deixou o cargo em função de mudanças na política do Ministério. Ela afirma que há uma tentativa de enfraquecimento da inspeção do trabalho no país, por conta da fragilização da estrutura da Secretaria e por motivações políticas para cargos que exigiriam conhecimento técnico.

Em uma carta enviada aos auditores fiscais, Vera cita o artigo sexto da Convenção número 81 da Organização Internacional do Trabalho, que diz respeito à inspeção do trabalho, que deve ser independente de “qualquer mudança de governo ou de qualquer influência externa indevida”.

A ex-secretária já vinha reclamando de pressões para que nomes de empregadores fossem retirados da Lista Suja do Trabalho Escravo e para que punições a companhias fossem suspensas. A Secretaria tem sofrido ataques por parte de empregadores insatisfeitos com bloqueios comerciais e de financiamento e de seus representantes políticos desde a criação do cadastro em 2003.

Mais recentemente, senhor Presidente, houve pressões fortes por conta da inclusão da MRV Engenharia, uma das principais executoras do programa “Minha Casa, Minha Vida”, na lista suja. A empresa teve dois projetos incluídos na lista de empregadores que tenham submetido funcionários a condições análogas às de escravidão, mas conseguiu na Justiça uma liminar para ter seu nome retirado do cadastro.

Mas o estopim para a saída de Vera Albuquerque foi a nomeação de uma pessoa para a chefia da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Rio de Janeiro sem que houvesse uma consulta à Secretaria. O órgão teria pedido, sem sucesso, uma revisão da decisão, mas segundo o Ministério do Trabalho “a nomeação atendeu a absoluta necessidade do serviço público”. A auditora fiscal também informou que tentava uma audiência com o ministro Brizola Neto desde setembro.

Chamamos então a atenção, senhoras e senhores Deputados, para os riscos que o combate ao trabalho escravo sofre no país com a saída de Vera Albuquerque da Secretaria de Inspeção do Trabalho. Vera desempenhou um papel importante na articulação política pela aprovação da PEC do trabalho escravo, que aprovamos em maio passado, e é uma servidora totalmente comprometida com a proteção dos direitos humanos e trabalhistas em nosso país.

Sua afirmação, noticiada amplamente, de que estão tentando colocar um cabresto político na inspeção do trabalho, numa tentativa de defender o empregador a qualquer preço, deve ser considerada com a maior seriedade pelo Palácio do Planalto e pelo Congresso Nacional. Como ela mesmo disse, o Ministério tem que estar a serviço da sociedade e não de empregadores ou de interesses partidários.

O PSOL está atento a essas denúncias e não silenciará se mudanças na política do Ministério do Trabalho, causadas por motivações de interesse privado, vierem a enfraquecer a inspeção e o combate do trabalho escravo no país.

Muito obrigado.

Ivan Valente
Deputado Federal PSOL/SP

Manifesto pelo fim dos massacres

Por Rede 2 de Outubro

“O ser humano é descartável no Brasil / como modess usado ou bombril
Cadeia guarda o quê o sistema não quis / esconde o que a novela não diz”

Racionais MCs, “Diário de um Detento”

Em 2 de outubro de 1992, no mínimo 111 homens presos e desarmados foram brutalmente executados por mais de 300 policiais militares fortemente armados, fato nomeado historicamente como o “Massacre do Carandiru”. Foi o maior massacre da história das penitenciárias brasileiras, só comparável aos grandes massacres indígenas e africanos do período Escravocrata e aos massacres de grandes rebeliões populares ao longo da história do país, como Palmares e Canudos. A exemplo do que ocorreu em relação às prisões, torturas e assassinatos da Ditadura Civil-Militar brasileira (1964-1988), também em relação ao “Massacre do Carandiru”, ocorrido em pleno regime ‘democrático’, operou-se e ainda se opera uma série de medidas para negar às vítimas e à sociedade o direito à memória, à verdade e à justiça.

Passados quase 20 anos do Massacre, os responsáveis também seguem impunes. O estado de São Paulo e o próprio Estado Brasileiro insistem em não cumprir as importantes recomendações feitas pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA relacionadas ao ocorrido (http://www.cidh.oas.org/annualrep/99port/Brasil11291.htm). A questão se torna ainda mais grave quando se observa que, no lugar de desmantelar as estruturas repressivas que desencadearam o massacre e responsabilizar todos os seus executores diretos ou indiretos, a estrutura repressiva segue a cada dia mais fortalecida e muitos dos responsáveis pelo Massacre têm sido absurdamente promovidos (basta verificar quem é o atual comandante da Rota).

A REDE 2 DE OUTUBRO foi composta em 2011 por um conjunto de organizações, movimentos sociais e grupos culturais que partilham a percepção de que a dinâmica social que produziu o Massacre do Carandiru ainda continua vigente e segue a fomentar massacres cotidianamente.

Desde a organização do ato político-cultural em memória dos 19 anos do Massacre do Carandiru, realizado no ano passado, a REDE 2 DE OUTUBRO tem promovido reuniões, seminários, debates e outras atividades com o objetivo de denunciar e debater as origens e o significado das terríveis condições de encarceramento, do caráter seletivo do sistema penal e prisional, do uso desmedido da violência pelo Estado com evidente corte racial e de classe, entre outras questões.

O presente manifesto é fruto dessa caminhada e expõe um pouco como a REDE 2 DE OUTUBRO pensa a tão propalada questão da “segurança pública” e como pretende pautar sua atuação daqui em diante.

OS MASSACRES DE ONTEM…OS MASSACRES DE HOJE…

O Massacre do Carandiru não é fato isolado no tempo. Sucedeu e foi sucedido por milhares de massacres contínuos que, a serviço dos processos produtivos voltados aos altos lucros de alguns poucos donos do país, moeu e exterminou milhões de brasileiras e brasileirosoriund@s das camadas mais populares.

Não apenas faz parte de uma história de 512 anos de massacres contra nossa população mais pobre, como também é símbolo da infeliz convergência de duas políticas bárbaras de Estado que ainda hoje vigoram plenamente: o extermínio e o encarceramento em massa.

Em números e fatos, não é difícil dimensionar o tamanho da barbárie cometida pelo Estado brasileiro contra as camadas populares (a quem, em tese, deveria proteger) sob o argumento falso de “combate à criminalidade e à violência”. Segundo o último “Mapa da Violência 2011 – Um radiografia das mortes violentas de jovens no Brasil”, produzido pelo Instituto Sangari e divulgado pelo Ministério da Justiça (http://www.sangari.com/mapadaviolencia/mapa2011.html), entre 1981 e 2011 foram assassinadas mais de 1 milhão de pessoas em pleno Brasil “redemocratizado”. Destas, apenas entre 1998 e 2008, mais de 520 mil pessoas foram assassinadas por aqui! Uma média de cerca de 47.360 homicídios por ano, que segue crescendo ano após ano!

Para além de todas as atrocidades cometidas durante a Ditadura Civil-Militar, o povo brasileiro se viu acuado por centenas de massacres perpetrados em plena época dita democrática : logo depois da promulgação da Constituição (Cidadã?) de 1988, pouco antes do Massacre do Carandiru, mães, pais, familiares e amig@s das vítimas sofreram com as Chacinas de Acari (1990) e a de Matupá (1991); depois do Massacre do Carandiru (1992), o sofrimento seguiu com as execuções ocorridas nas Chacinasda Candelária e de Vigário Geral (1993), do Alto da Bondade (1994), de Corumbiara (1995), de Eldorado dos Carajás (1996), de São Gonçalo e da Favela Naval (1997), de Alhandra e do Maracanã (1998), da Cavalaria e da Vila Prudente (1999), de Jacareí (2000), de Caraguatatuba (2001), daCastelinho, do Jd. Presidente Dutra e de Urso Branco (2002), do Amarelinho, Via Show e do Borel (2003), de Unaí, do Caju, da Praça da Sé e de Felisburgo (2004), a Chacina da Baixada Fluminense (2005), os Crimes de Maio (2006), do Complexo do Alemão (2007), do Morro da Providência (2008), de Canabrava (2009), a Chacina de Vitória da Conquista e os Crimes de Abril na Baixada Santista (2010), a Chacina da Praia Grande (2011), Massacre do Pinheirinho, de Saramandaia, os Crimes de Junho, Julho, Agosto e Setembro (2012) …
O sangue vertido em todas essas chacinas escorre da mesma classe social, da mesma cor, da mesma faixa etária: ao longo de 10 anos (1998 a 2008), a cada três assassinatos, dois foram de negr@s, em sua esmagadora jovens pobres do sexo masculino, entre 15 e 24 anos.

Esse quadro não é diferente no sistema prisional. Aquelas e aqueles que conseguem se esquivar das miras policiais acabam, muitas vezes, trancafiados e torturados, por anos a fio, em um sistema prisional extremamente violento e degradante, cada vez mais extenso e superlotado: entre 1995 e 2011, a população prisional teve crescimento de 250% contra 25% de crescimento da população em geral, segundo dados oficiais do próprio Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN) . Em 2012, já temos mais do que 550 mil pessoas presas no Brasil. Apenas em São Paulo, nesse ano, a média é de 9.000 pessoas presas contra 6.000 que são libertas por mês, segundo dados apurados in loco, pela Pastoral Carcerária, e junto à Secretaria de Segurança Pública de São Paulo; ou seja: a cada mês, São Paulo abriga 3.000 pessoas a mais em seu sistema prisional.

As pessoas que povoam o sistema prisional brasileiro são parte do mesmo grupo social daquelas vitimadas no decorrer da longa História Brasileira dos Massacres: 80% da população prisional são acusad@s ou sentenciad@s por crimes contra o patrimônio ou por pequeno tráfico de drogas (quase metade ainda sem condenação); cerca de 55% estão presas por crime sem grave ameaça ou violência à pessoa; 52% estão presas por crimes sem violência ou grave ameaça; mais da metade tem menos do que 29 anos; 90% sequer completaram o ensino médio; 60% dessas pessoas são negras…

Igualmente massacradas são as famílias das vítimas da violência do Poder Público, sobretudo as mulheres, que acabam segurando as pontas da família quando o ente querido é executado e enfrentam todo tipo de sevícias praticadas por agentes estatais (como a ignóbil revista vexatória, por exemplo) para manter contato e fornecer o mínimo de subsídio a@ filh@ que é pres@.

O Massacre do Carandiru é extremamente emblemático, portanto, das duas principais dimensões, bem estreitas entre si, dos massacres que historicamente são perpetrados contra o nosso povo pobre, preto e periférico: a prisão degradante e o extermínio covarde.

OS MASSACRES DO COTIDIANO

No entanto, é necessário entender que há várias outras dimensões desses massacres históricos que, a despeito da menor intensidade de violência e de ocorrerem de modo menos ostensivo, também fazem parte da mesma engrenagem de moer, explorar e gastar nosso povo.

Tais dimensões estão contidas em um contexto de precarização da vida cotidiana na periferia por meio da negação de condições mínimas de sobrevivência e da repressão das tentativas populares de superar a completa ausência de políticas públicas sociais.

No universo da trabalhadora e do trabalhador, são incontáveis as agressões diárias a que se submetem na tentativa de garantir o mínimo de dignidade em suas vidas:

Das remotas periferias até o excludente centro da cidade de São Paulo, são muitas as horas despendidas diariamente em ônibus superlotados, em trens igualmente superlotados, lentos e sucateados (com panes constates), para enfim chegar ao posto de trabalho, em regra igualmente precário: aquelas e aqueles que superam o desemprego se submetem, no mais das vezes, a condições horríveis de trabalho (para se ter uma ideia, em 2011, foram quase 500 mortes em acidente de trabalho apenas em São Paulo! ).

No fim do dia, horas e mais horas para retornar para casa… Casa que, por vezes, na verdade é um barraco precário e frágil, improvisado em algum terreno abandonado, em alguma beira de represa, em algum morro desocupado, sem qualquer possibilidade de acesso à mínima infraestrutura para garantir os serviços sanitários mais básicos .

No lugar de intervir para promover o acesso à moradia digna, para estruturar os espaços ocupados legitimamente, o Poder Público apenas aparece para expulsar violentamente as pessoas de seus lares, para tencionar as comunidades e para criminalizar os chamados “suspeitos” de toda sorte de suspeição. Às vezes em troca de um miserável “cheque-despejo” aos “invasores”, geralmente famílias migrantes de origem afro-indígena e norte-nordestina que já tinha sido expulsas de seus locais de origem; às vezes o troco é o porrete e a prisão desses “bandidos” de “cor padrão”…

Isso quando as favelas não são incendiadas criminosamente justamente em áreas que se pretende “revitalizar”…

Para piorar, a precariedade da moradia vem acompanhada da precariedade no serviço de saúde: não há médicos, não há hospitais, não há unidades básicas de saúde para dar conta da enorme demanda originada por esse ambiente de descaso.

Para piorar ainda mais, as escolas públicas são poucas, escassas, de péssima qualidade, com professor@s mal pag@s, desmotivad@s e adoecid@s, diretor@s mal preparad@s e nenhuma interação entre as atividades escolares e as necessidades da comunidade.

Faltam vagas nas creches (apenas na cidade de São Paulo estima-se oficialmente um déficit de ao menos 126.000 vagas de creches! ) e falta qualidade naquelas existentes, cada vez mais terceirizadas a organizações privadas; falta acesso amplo e democrático a um ensino básico de qualidade e a políticas afirmativas que assegurem reparação na forma de acesso a universidades públicas com excelência no ensino, pesquisa e extensão.

Lazer, então, é utopia! Nada se estrutura na periferia para prover o mínimo de acesso a atividades esportivas e culturais. O que há é fruto do esforço das próprias comunidades, que pouco a pouco vão percebendo que só podem contar com a própria força. Ainda assim, as iniciativas populares vivem ameaçadas pelo Poder Público, sempre em prontidão para restringir ou proibir atividades culturais autônomas, como saraus, rodas de samba, bailes musicais, encontros artísticos etc.

Esse processo de abandono das periferias é casado com o processo de higienização das regiões centrais.

Se ficarmos apenas no ano de 2012, podemos contar diversos episódios reveladores de uma política espúria de expulsão dos mais pobres da região central da cidade: os incêndios na Favela do Moinho; a operação “dor e sofrimento” na Cracolândia; os incêndios nas favelas do Piolho, Humaitá, Paraisópolis, Vila Prudente, Alba, Corujão, Areião e tantas outras entre as mais de 50 intencionalmente incendiadas apenas em 2012; a proibição dos artistas de rua; a perseguição aos camelôs; a proibição do “sopão”; a proibição dos engraxates na Paulista; a “operação delegada”; a “operação espantalho”…

De operação em operação, vai se consolidando um violento processo de expulsão da população mais pobre que habita as ruas do centro e as regiões cuja valorização imobiliária aumenta e onde os interesses dos grandes projetos urbanos crescem os olhos em cima.

Essas mesmas pessoas hoje expulsas de suas casas, desprovidas de seus meios de sobrevivência, do acesso à mínima infraestrutura oferecida no centro, destituídas do acesso aos serviços mais básicos, amanhã estarão provavelmente ainda mais vulneráveis ao processo de criminalização da pobreza e, por consequência, serão alvos mais fáceis das miras e das algemas policiais.

O massacre se estende à falta de um acesso democrático à informação e à comunicação, deixando a maioria da população à mercê de monopólios comunicacionais de caráter sobretudo comercial e espetacular, muitos dos quais reproduzem e intensificam o massacre simbólico e contribuem para estigmatizar, criminalizar e justiçar midiaticamente os trabalhadores-alvos, ampliando preconceitos e o clamor punitivo generalizado. Ganham com isso toda a indústria do medo e do pânico, nas suas mais variadas expressões: a indústria dos condomínios fechados, a indústria das armas e da segurança particular, a indústria dos seguros de vida e de proteção patrimonial, a indústria da medicina psiquiátrica e dos antidepressivos etc. As prisões em massa e as “matanças dos suspeitos” tornam-se “verdadeiros” bodes expiatórios da expiação sem fim, são aplaudidas em coro nos diversos “programas espetaculares”, até que esta apologia da violência se volte contra os que hoje seguem aplaudindo. Dissimula-se, então, surpresa e indignação, que logo se esvai diante da próxima “caçada aos bandidos” do próximo turno.

Para dar conta do problema da segurança pública hoje é preciso desvendar, correlacionar e enfrentar essas diversas dimensões dos massacres perpetrados contra as populações periféricas. A reversão desse quadro depende, sobretudo, da luta, da união, da organização e da coragem daquelas e daqueles que sofrem cotidianamente com a violência histórica, estrutural e estruturante do Estado brasileiro.

A FUNÇÃO DOS MASSACRES

A política de massacres contra a população pobre, preta e periférica é mediada por uma série de artifícios vendidos como “políticas de segurança pública”, sempre a título de “combater” a crescente violência, mas que, em verdade, está a serviço justamente da reprodução dessa violência e, no limite, da reprodução e aprofundamento das desigualdades que demarcam nossa sociedade.

Sempre que se anuncia uma nova “onda de violência” ou uma nova “crise de segurança pública”, um “aumento da (suposta) criminalidade”, responde-se quase que automaticamente com a intensificação do efetivo e do “rigor” policial. As chamadas políticas de “tolerância zero” vêm sendo importadas, recriadas e multiplicadas sob diversas novas fachadas de marketing e repaginações para dissimular a intensificação da violência, que prossegue.

De um lado, no lugar de se estruturar políticas sociais de acesso aos serviços mais básicos e de se priorizar o fortalecimento da atribuição investigativa da polícia civil (o que poderia, em tese, propiciar um aumento da responsabilização daquelas pessoas que cometem crimes de forma mais estrutural e organizada e, portanto, com maiores consequências sociais), privilegia-se o aumento do efetivo da polícia militar que, como sabemos, funciona sob a lógica do “pega ladrão”, da “prisão em flagrante”, visando sempre as pessoas mais vulneráveis – em razão de serem, e que por isso se tornam ainda mais, descartáveis para os grandes interesses econômicos. Um novo tipo de exploração é, então, gestado sob a égide do terror dentro dos presídios, o qual tende a se intensificar com os crescentes planos de privatização dos mesmos.

De outro lado, ao mesmo tempo em que se fortalece o efetivo da “polícia de rua”, fomenta-se também a perversa “lógica de guerra” da polícia militar contra as populações mais pobres, a chamada “linha-dura”, fomento que se dá por discursos autorizadores de todo tipo de arbítrio policial e de, com muita frequência, execuções extrajudiciais, sumárias. Atualiza-se assim, de forma tão perversa quão requintada, a mesma lógica da “guerra contra o inimigo interno” que imperou durante o regime ditatorial por meio da espúria Lei de Segurança Nacional.

Basta verificar as recentes falas do Governador de São Paulo, que afirmou que “não recua um milímetro” , pois quem reagir às ações da polícia “vai se dar mal” e, após um recentíssimo caso de chacina operada pela ROTA, a escandalosa afirmação ‘consoladora’ de “quem não reagiu está vivo” . O mesmo governador declarou anos atrás que “bandido tem duas opções: ou é prisão ou é caixão” … O resultado tem sido uma nova intensificação de matanças recorrentes nas periferias de São Paulo ao longo dos últimos meses de julho, agosto e setembro de 2012 .

A MILITARIZAÇÃO DE TODAS AS DIMENSÕES DA VIDA

Esse processo pertence a uma política mais ampla de militarização da gestão pública. Hoje, não apenas se expande dia-a-dia o efetivo militar, como também a própria lógica de guerra militar ocupa, cada vez mais, todos os espaços públicos.

Das 32 subprefeituras paulistanas, 31 são ocupadas por militares, os quais, a partir dessa lógica de guerra, na qual o pobre, preto e periférico é transformado em inimigo a ser neutralizado, gerenciam de maneira nada democrática os problemas das regiões em que estão circunscritos .

Não são apenas 31 das 32 subprefeituras de São Paulo que estão sob o comando de militares, mas uma série de outros órgãos públicos municipais e estaduais sendo administrados por gestores-militares, isso somado à proliferação dos CONSEGs, que são chamados de Conselhos Comunitários de Segurança Pública, porém na verdade foram estruturados e são comandados por quadros diretos das polícias, da secretaria de segurança pública e, no caso de São Paulo, pelas subprefeituras militarizadas. Esses aparatos são cada vez mais associados ao enorme exército de segurança privada, atualmente cerca de 5 vezes maior do que o já enorme efetivo de policiais civis e militares no estado de São Paulo.

Essa militarização, que na presente eleição ameaça avançar ainda mais também sobre a Câmara Municipal (com a proliferação de candidatos-militares “linha-dura” a vereador) , apesar de fazer parte do processo de formação brasileira, é herança mais direta do entulho autoritário criado e deixado pela Ditadura Civil-Militar e acaba por ocupar diversos espaços urbanos, sobretudo as periferias.

Exemplo disso é a manutenção e o fortalecimento constante da ROTA (Rondas Ostensivas Tobias Aguiar), nome que recebeu durante Ditadura, quando foi reorganizada para exterminar quem combatia o regime de exceção.

Hoje, capitaneada por Salvador Modesto Madia, nomeado pelo atual Governador e responsável direto por ao menos 78 execuções no Massacre do Carandiru, a ROTA é o destacamento mais letal da Polícia Militar: atuante principalmente nas periferias da cidade, é responsável por 20% das execuções cometidas pela PM, apesar de não corresponder a 0,5% do seu efetivo.

Mas não é apenas a Rota a responsável pelas práticas de extermínio. Trata-se de um quadro generalizado, escancarado recentemente por declarações de policiais civis, que afirmaram e descreveram assertivamente que hoje “em cada batalhão da polícia militar de São Paulo tem um grupo de extermínio”.

Nos fundões da cidade, cada dia mais, problemas sociais são tratados com criminalização e violência policial. A militarização da gestão pública e da sociedade fica bem visível na criminalização de movimentos sociais pela moradia, nos violentos despejos, no genocídio popular, na crescente intervenção da polícia militar em pequenos conflitos entre jovens nas escolas públicas, nos obscuros e regulares incêndios em ocupações populares, e por aí afora…

A crescente militarização em São Paulo funciona como controle e contenção de qualquer reivindicação oriunda das periferias. A militarização e os massacres têm operado em todas as dimensões da vida social e comunitária, em especial para os trabalhadores e trabalhadoras pobres e negros, consolidando-se a noção reacionária e orwelliana de que justiça seria sinônimo de repressão e punição, e a paz viria por meio de mais guerra.

Reflexo direto da política de militarização da gestão pública é o aumento exponencial da população carcerária, problema a que também se responde com solução mágica e pronta: a construção de novos presídios. Parece evidente que, no atual cenário, não há orçamento público que dê conta da construção do número de presídios necessário para acompanhar o crescimento da população carcerária.

Mais evidente ainda é que, se o que se quer é combater a criminalidade que mais causa impacto na sociedade, como as (verdadeiras) organizações criminosas, a sonegação de impostos, a corrupção, a violência dos agentes públicos, então é necessário concluir que o sistema prisional não serve a esse propósito: como se viu, a população prisional é formada, em sua imensa maioria, por pessoas que supostamente cometeram pequenos crimes contra o patrimônio e por pequen@s traficantes, em regra presas em condições de alta vulnerabilidade.

Não fosse suficiente o encarceramento em massa e a alta seletividade penal, aparece agora o próprio sistema prisional como alvo do interesse da iniciativa privada, sedenta por receber dinheiro público pela administração de presídios e, principalmente, por acumular altos lucros com a exploração de mão-de-obra disciplinada e barata. A privatização do sistema prisional já é anunciada pelos Governos Federal e Estaduais cada vez mais sem pudores, apesar de, como já dito, estar claramente voltada aos lucros de quem quer explorar a “atividade”…

A despeito do discurso mentiroso de combate à “criminalidade” e de “ressocialização”, os sistemas penal e prisional funcionam, na prática, para o fim de conter a pobreza, produzir a criminalidade e reproduzir e aprofundar as desigualdades geradas pela exploração dos poucos donos dos meios de produção sobre os muitos desprovidos dos meios para ao menos sobreviver.

Fortalecem essa política de massacres o sistema judiciário e a grande mídia comercial.

O Judiciário, apesar da prática reiterada e escancarada de abusos policiais, segue imbuído de seu papel histórico na sociedade brasileira de punir os pobres, ainda que presos ilegalmente, ainda que presos por condutas insignificantes, ao passo que ignora completamente as denúncias de tortura e de execuções perpetradas por policiais e tolera amplamente os crimes do colarinho branco. Nesse papel, o Judiciário contribui decisivamente para o alto grau de seletividade pena e de violência policial que presenciamos.

Não apenas no direito penal o Judiciário demonstra, cotidianamente, a sua opção pelos mais ricos. É mais do que corriqueira a prática de se privilegiar interesses particulares de grandes proprietários no lugar de atender a interesses coletivos de populações mais pobres.

Um exemplo nítido e recente dessa prática foi o Massacre do Pinheirinho, desocupação violenta de mais de 7 mil pessoas pobres ordenada pelo Tribunal de Justiça paulista em atendimento aos interesses escusos de um notório milionário especulador e mafioso, envolvido com todo tipo de maracutaias.

A mídia é igualmente decisiva na reprodução dessa lógica bárbara de massacres contra a população pobre, preta e periférica. De maneira falsamente neutra, o que vemos na televisão são justiçamentos midiáticos das camadas mais populares, reproduzindo e ajudando a forjar a ideologia dominante de exclusão e massacre dessa parcela da população.

Não é ao acaso que se executa e se prende em massa aquelas e aqueles que menos têm acesso aos serviços públicos mais básicos. Não é à toa que as várias dimensões dos massacres atingem a mesma população pobre, preta e periférica, ainda que em graus diferentes. Não é gratuitamente que Judiciário e Mídia tentam, invariavelmente, justificar e legitimar todos esses massacres contra o povo.

Todo esse aparato está a serviço da exploração de poucos sobre muit@s e da reprodução e do aprofundamento constante da desigualdade produzida por essa exploração.

A luta contra o encarceramento em massa e contra os extermínios, portanto, é a mesma luta daquelas e daqueles que sofrem com o transporte público precário, com o serviço de saúde falido, com o sistema de ensino desestruturado, com a moradia escassa e para poucos, contra o desemprego, contra as condições degradantes de trabalho, contra a repressão às tentativas autônomas de sobrevivência…

Tod@s estamos no mesmo lado da corda que é puxada com violência por esse conjunto de “políticas de segurança pública” que está a serviço dos poucos que se beneficiam de toda essa violência: os donos do poder, os donos das terras, dos latifúndios, dos meios de produção.
A luta d@sexplorad@s é uma só!

PELO FIM DOS MASSACRES

A luta pelo fim dos massacres, como se vê, é marcada pelo enfrentamento de interesses poderosos e só pode ser levada à frente na medida em que as periferias, as quebradas, se levantarem e unirem forças para superar aqueles que as oprimem.

A REDE 2 DE OUTUBRO, que passa a marcar o dia 2 de Outubro como o “Dia Pelo Fim dos Massacres”, quer somar e engrossar as fileiras dessa luta e reivindica, nesse momento histórico de resgate dos 20 anos de memória do Massacre do Carandiru, a sua Memória, buscando atualizá-la em nome da Verdade, na Luta Presente por Justiça.

Para aqueles que também possam nos questionar sobre “afinal, quais são as propostas”, finalizamos o presente manifesto com um abecedário inteiro de propostas concretas que, dentre muitas outras, acreditamos que tanto podem como deveriam ser adotadas de imediato, como certamente permanecerão em nosso horizonte cotidiano de resistência:

A – Que seja assegurado plenamente o Direito à Memória, à Verdade e à Justiça de todas as, no mínimo, 111 vítimas oficiais do Massacre do Carandiru e seus familiares; que se Respeite, se Repare (física, material e psiquicamente), se dê Assistência, e se Fortaleça a caminhada de familiares de vítimas da violência estatal e de pessoas presas, verdadeiros sujeitos diretos da transformação desse quadro de violência estrutural;

B – Que sejam cumpridas em sua plenitude, pelo estado de São Paulo e pela República Federativa do Brasil, no mínimo as próprias recomendações estabelecidas em 3 de março do ano 2000 ao país pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA referentes ao Massacre do Carandiru, todas elas ainda por serem cumpridas. Quais sejam:

“A Comissão de Direitos Humanos recomenda à República Federativa do Brasil o seguinte:
1. Realizar uma investigação completa, imparcial e efetiva a fim de identificar e processar as autoridades e funcionários responsáveis pelas violações dos direitos humanos assinaladas nas conclusões deste relatório.
2. Adotar as medidas necessárias para que as vítimas dessas violações que foram identificadas e suas famílias recebam adequada e oportuna indenização pelas violações definidas nas conclusões deste relatório, assim como para que sejam identificadas as demais vítimas.
3. Desenvolver políticas e estratégias destinadas a descongestionar a população das casas de detenção, estabelecer programas de reabilitação e reinserção social acordes com as normas nacionais e internacionais e prevenir surtos de violência nesses estabelecimentos. Desenvolver, ademais, para o pessoal carcerário e policial, políticas, estratégias e treinamento especial orientados para a negociação e a solução pacífica de conflitos, assim como técnicas de reinstauração da ordem que permitam a subjugação de eventuais motins com o mínimo de risco para a vida e a integridade pessoal dos internos e das forças policiais.
4. Adotar as medidas necessárias para o cumprimento, no presente caso, das disposições do artigo 28 da Convenção (Cláusula federal) relativas às matérias que correspondem à competência das entidades componentes da federação, neste caso o Estado de São Paulo. ”(http://www.cidh.oas.org/annualrep/99port/Brasil11291.htm);

C – À luz da situação referente ao Massacre do Carandiru na esfera internacional e federal (esfera perante a qual pedimos novo parecer), reforçamos aqui o pedido por um parecer definitivo da Presidência da República também sobre o Pedido de Deslocamento de Competência, a Federalização das Investigações dos Crimes de Maio de 2006, outro caso extremamente emblemático desta era dos massacres. Naquela ocasião dos Crimes de Maio de 2006, foram mais de 500 mortes no curto período de cerca de 1 semana – mais pessoas assassinadas do que os já terríveis números de mortos e desaparecidos dos 20 anos de Ditadura Civil-Militar brasileira, no entanto praticamente TODOS os casos, tanto de 1992 como de 2006, seguem emperrados ou arquivados.;

D – Pedimos, em caráter emergencial, o acompanhamento político e jurídico por parte da Esfera Federal (Presidência, Ministério da Justiça, Secretaria de Direitos Humanos, Secretaria Nacional de Justiça, Ministério Público Federal, Defensoria Pública Federal e CNJ) da atual “Crise de Segurança Pública no estado de São Paulo”, que já vitimou mais de 250 pessoas ao longo destes últimos três meses – cujas raízes históricas, a nosso ver, remontam às mesmas práticas que provocaram o Massacre do Carandiru há 20 anos. Todas as principais esferas executivas e jurídicas do estado de São Paulo têm demonstrado, recorrentemente, desde o Massacre do Carandiru (1992), a Chacina da Castelinho (2002), e os Crimes de Maio de 2006, sua incapacidade de lidar com crises de segurança pública como, novamente, esta agora de 2012, a exemplo do que já tinha ocorrido em abril de 2010, dentre outros momentos.

E – Nesse mesmo sentido, queremos também um encaminhamento efetivo no sentido de abolir definitivamente os registros de “Resistência Seguida de Morte”,“Auto de Resistência” e afins em todo país – essa verdadeira “licença para matar” inconstitucional usada a torto e a direito por policiais assassinos em todo país. Conforme já estava previsto no Programa Nacional de Direitos Humanos-3, é preciso urgentemente se abolir o artigo 329 do Código Penal e melhorar profundamente o artigo 292 do CP. A exemplo de qualquer outro cidadão brasileiro, a investigação de todas as mortes violentas provocadas por agentes do Estado deve ser tratada como casos de homicídios (dolosos ou culposos). Há nesse exato momento um Projeto de Lei nº 4471-2012 apresentado recentemente trespor 4 Deputados Federais que pode caminhar nesse sentido durante sua tramitação no Congresso Nacional. Que se avance!

F – Ainda sobre essa temática da letalidade policial e seus desdobramentos jurídicos, também em caráter imediato e urgente, pedimos que o CNJ passe a acompanhar, junto às Defensorias Públicas Federal e Estadual, os casos emblemáticos de mortes violentas relacionadas aos seguintes períodos: Massacre do Carandiru (1992); dos Crimes de Maio de 2006; Crimes de Abril de 2010; a Matança de MCs na Baixada Santista; e os Crimes de Junho a Agosto de 2012 no estado de São Paulo, posto que o Executivo Estadual, o MP Estadual e o próprio Judiciário Paulista seguem se omitindo;

G – Para além da situação em São Paulo, é preciso a urgente Efetivação e Fortalecimento de todas as Defensorias Públicas Estaduais – sobretudo os casos de Santa Catarina e Goiás, bem como o Fortalecimento e Maior Atuação Estadual da Defensoria Pública Federal nos estados, incluindo São Paulo;

H – Ainda mais do que essas medidas imediatas, dentro do quadro atual, propomos que sejam criados mecanismos efetivamente democráticos e populares para a participação de fato das pessoas presas, de seus familiares e das comunidades periféricas, alvos preferenciais do poder policial, penal e punitivo, na elaboração da legislação penal, que tanto nos causa impacto – como, por exemplo, o Novo Código Penal;

I – Que se assegure o devido Julgamento e as devidas Responsabilizações também de oficiais superiores, superiores hierárquicos, autoridades da segurança pública e do sistema prisional, responsáveis pelos agentes do Estado que cometeram ou cometem abusos, tortura e execuções extrajudiciais e/ou sumárias;

J – É preciso se criar urgentemente uma Política Nacional voltada para os Familiares de Vítimas da Violência do Estado. Uma Política que aponte diretrizes de Amparo, Proteção, Assistência Psico-Social, Reparação (Material e Psíquica) e Indenização a todos os Familiares Diretos que são Vítimas Colaterais e Conexas da Violência do Estado;
K – Também é preciso a Efetivação Real do Controle Externo da formação e da atividade policial, bem como da formação e atividade dos exércitos de Seguranças Privadas, pelo Ministério Público, e por Ouvidorias e Corregedorias Policiais externas, com participação e controle efetivo da população. Vale registrar bem registrado aqui que não somos apenas nós quem estamos exigindo isso: trata-se de uma Recomendação Pactuada em Nível Federal, para todas as instituições e instâncias do Pacto Federativo, conforme o Plano Nacional de Direitos Humanos 3 (PNDH-3) (Pág. 123 – http://portal.mj.gov.br/sedh/pndh3/pndh3.pdf):

“Criar ouvidoria de polícia com independência para exercer controle externo das atividades das Polícias Federais e da Força Nacional de Segurança Pública, coordenada por um ouvidor com mandato.
Responsáveis: Ministério da Justiça; Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República
Recomendação: Recomenda-se aos estados e ao Distrito Federal a criação, com marco normativo próprio, de ouvidorias de polícia autônomas e independentes, comandadas por ouvidores com mandato e escolhidos com participação da sociedade civil, com poder de requisição de documentos e livre acesso às unidades policiais, e dotadas de recursos humanos e materiais necessários ao seu funcionamento”.

Tais medidas devem ter correlatas, tanto para Ouvidoria como para Controle e Corregedoria Externas e Autônomas, no que se refere à atuação do exército de segurança privada, atualmente 5 vezes maior do que o exército oficial de policiais, sobre cuja atuação não há qualquer trabalho de ouvidoria e controle externo popular efetivo.

L – No estado de São Paulo, é necessária a implantação urgente do Mecanismo Estadual de Combate à Tortura dentro das unidades prisionais, conforme determinações já estabelecidas em âmbito Federal e também Estadual, perante as quais o estado de São Paulo segue atrás de outros como o Rio de Janeiro e Ceará, que já implantaram os mecanismos, ora em pleno exercício;

M – Na mesma linha, é preciso Ampliar e Fortalecer os espaços, efetivamente democráticos e populares, com poder deliberativo, para aumentar o acompanhamento, fiscalização, transparência e controle da população em relação à atuação do Ministério Público, Desembargadores e Juízes;

N – Revisão dos critérios, divulgação e informação para formação do chamado “Júri Popular”, de modo que represente efetivamente a sociedade (que em sua maioria é mulher, pobre e não branca), e seja corretamente informado e motivado;

O – Contra a proibição de familiares e amigos de vítimas comparecerem com roupas com símbolos e fotos nas sessões de julgamento de agentes do Estado violadores de direitos humanos;

P – Contra as decisões judiciais que concedem liberdade a agentes do Estado acusados de violações de direitos humanos, quando tal liberação significar ameaça e intimidação a familiares, testemunhas, movimentos sociais e defensores dos direitos humanos;

Q – Contra as decisões judiciais de adiamento de julgamentos de agentes do Estado acusados de violações de direitos, por alegações fúteis ou duvidosas como problemas de saúde de advogados dos réus;

R – Condenação do Regime Disciplinar Diferenciado (RDD) e outros semelhantes, vigentes no sistema prisional brasileiro (com destaque especial para o estado de São Paulo), como contrários à dignidade e aos direitos humanos e como forma de tortura;

S – Respeito à integridade física d@spres@s e de suas famílias (sobretudo na decisão sobre transferências e nas visitas), e aplicação efetiva de todos os direitos assegurados a@spres@s pela Lei de Execuções Penais. Nesse mesmo sentido, reivindicamos o fim das Revistas Vexatórias e a garantia dos Direitos Políticos dos presos e presas (como o direito ao voto);

T – Ampla vistoria pelo Judiciário dos abusos ocorridos em todo sistema prisional brasileiro (incluindo as verdadeiras prisões de menores, crianças e adolescentes) e aceleração da soltura das milhares de pessoas que já cumpriram suas penas e/ou poderiam ser beneficiadas tendo-as reduzidas e ruptura com o processo recente de encarceramento em massa e privatização dos presídios públicos (tanto as medidas estaduais, como os planos de incentivo federais);Criação de Comissões Especiais no Judiciário que aprofunde medidas efetivas para diminuir as violências específicas, dentro das instituições totais estatais, contra Mulheres, Negros, LGBTTs, Indígenas, Ciganos;

U – Acompanhamento mais ativo pelo Poder Judiciário do cumprimento do Estatuto da Criança e Adolescentes integralmente, em especial para crianças e adolescentes cumprindo as medidas chamadas de “sócio-educativas”, as quais na prática tem sido de “privação de liberdade” e repressão intensiva;fim da Fundação Casa (SP), devido à persistência reiterada de casos e situações de tortura e violações graves dos direitos humanos das crianças e adolescentes ali reclusos;

W – Condenação e proibição das chamadas “Operações Saturação” como as ocorridas recentemente nas comunidades de Paraisópolis, Heliópolis e, atualmente, na chamada “Cracolândia” em São Paulo-SP;

X – Desmilitarização total da Gestão Pública (a começar pelas Subprefeituras e pelos cargos legislativos, em todos os níveis), dos Conselhos de Segurança Comunitária (Consegs) e da própria Polícia Militar; Lembrando que tal proposta não é encampada apenas por nós, mas se trata de um cenário que tem preocupado crescentemente a opinião pública e diversos órgãos especializados em Direitos Humanos (não apenas brasileiros, mas também diversas entidades mundo afora). Tendo em vista tudo isso, recentemente, multiplicaram-se no noticiário internacional demonstrações contundentes de preocupação por parte desses órgãos em relação ao Brasil: o recém-lançado “Estudo Global sobre Homicídios – 2011” (http://www.unodc.org/unodc/en/data-and-analysis/statistics/crime/global-study-on-homicide-2011.html), realizado pelo Departamento de Drogas e Crimes da ONU (UNODC) confirma que, dentre as 207 nações pesquisadas, o país apresenta o maior número absoluto de homicídios anuais: 43.909, em 2009 – sendo que já passou de 47.000 em 2011; a Anistia Internacional voltou a denunciar, em seu relatório anual de 2012, a violência e “o abuso policial como um dos problemas mais crônicos do país” (http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2012/05/anistia-internacional-volta-denunciar-violencia-policial-no-pais.html); até o Departamento de Estado Norte-Americano, na sequência, afirmou que “a violência policial mancha os Direitos Humanos no Brasil” (http://m.estadao.com.br/noticias/nacional,abuso-policial-mancha-direitos-humanos-no-brasil-dizem-eua,877472.htm); e, ainda mais recentemente, o Conselho de Direitos Humanos da ONU recomendou explicitamente que o Brasil trate de “combater a atividade dos ‘esquadrões da morte’ e que trabalhe para suprimir a Polícia Militar, acusada de numerosas execuções extrajudiciais” (http://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/efe/2012/05/30/paises-da-onu-recomendam-fim-da-policia-militar-no-brasil.htm).

Nas últimas semanas, por conta de nova onda de violência policial no estado de São Paulo, voltou-se a falar na opinião pública desta questão, e a Rede Nacional de Familiares e Amigos de Vítimas, junto à REDE 2 DE OUTUBRO, construiu uma petição pública “PELA DESMILITARIZAÇÃO DAS POLÍCIAS NO BRASIL”, petição que já conta com quase 5.000 assinaturas: http://www.avaaz.org/po/petition/Desmilitarizacao_das_Policias_do_Brasil ;

Y – Nós requeremos também à Presidência da República e ao Ministério da Justiça os primeiros encaminhamentos para a “Criação de uma Comissão da Memória, Verdade e Justiça para as vítimas de agentes do estado durante o período democrático”. Como já vimos, no Brasil, ao longo dos últimos anos, têm morrido assassinadas cerca de 48.000 pessoas anualmente, segundo estudos recentes publicados pela ONU e divulgados pelo próprio Ministério da Justiça Brasileiro. Boa parte dessas mortes e desaparecimentos é cometida por agentes do estado em pleno cumprimento de suas obrigações, as quais deveriam ser garantir o direito à vida e à liberdade de ir e vir em paz de todos os cidadãos. A exemplo dos esforços recentes que têm sido feitos sobre a Ditadura Civil-Militar brasileira (1964-1988),em especial pela Comissão Nacional da Memória e da Verdade, é preciso se avançar no Direito à Memória, à Verdade e à Justiça das vítimas do período democrático (também conforme recomendação do PNDH-3);

Z – Por fim, exigimos também a Criação de uma Comissão da Anistia para os Presos, Perseguidos, Mortos e Desaparecidos Políticos por agentes do estado durante o período democrático. A exemplo do que foi instituído, no âmbito do Ministério da Justiça, em relação aos familiares e vítimas da Ditadura Civil-Militar, é preciso seavançar no mesmo sentido quanto aos Presos, Perseguidos, Mortos e Desaparecidos Políticos da Democracia. Além das taxas de homicídio de países em guerra, temos atualmente no Brasil mais de 540 Mil pessoas presas, segundo o Departamento Penitenciário Nacional (DEPEN). Há ainda inúmeras pessoas perseguidas políticas, ameaçadas de morte ou mesmo desaparecidas – como o nosso companheiro Paulo Alexandre Gomes, um dos desaparecidos dos Crimes de Maio de 2006 que exatamente hoje estaria completando 30 anos de idade. Os (no mínimo) 111 mortos durante o Massacre do Carandiru são vitimas de um massacre político, crime de lesa-humanidade perante o qual o Estado deve ser responsabilizado moral, jurídica e politicamente. O estado precisa assegurar o Direito à Verdade e à Justiça para todos esses cidadãos e seus familiares.

Mais importante de tudo: que essa série de propostas concretas visando à preservação da vida, junto ao direito à memória, à verdade e à justiça, bem como uma nova forma de sociabilidade totalmente igualitária, desmilitarizada, abolicionista, pacífica e plenamente livre…que todas e cada uma dessas propostas de curto e médio prazo sejam conquistadas por meio da organização e da luta autônoma dos trabalhadores e trabalhadoras!

São Paulo, 02 de Outubro de 2012
REDE 2 DE OUTUBRO – PELO FIM DOS MASSACRES

A MP do Código Florestal e o avanço do conservadorismo

Sr. Presidente, Sras. e Srs. Deputados,

A Câmara votou ontem o projeto do Código Florestal, que agora vai ao Senado e, finalmente, pode ser ou não vetado pela Presidente, em definitivo, em cima da medida provisória.

Acho que cabe nesse momento fazer um balanço do que foi esse projeto, que tramitou durante 2 anos aqui, praticamente. Para a sociedade brasileira, o debate dessa questão do Código foi muito importante, porque, na verdade, o setor ruralista, o agronegócio brasileiro, passa a ideia de que esse é um problema rural, de que esse é um problema agrícola, de que não tem nada a ver com cidadania brasileira, com projeto de Nação, com biodiversidade, com política agrícola, com política agrária.

Mas tem tudo a ver com uma visão científica de produção, com a concentração da terra no nosso País, com a pistolagem no campo, com o trabalho escravo. Os mesmos que defenderam essas mudanças radicais, a não recuperação das Áreas de Preservação Permanente e das Reservas Legais, foram os que votaram aqui contra a emenda constitucional que acaba com o trabalho escravo. São os mesmos que estão atrás da pistolagem no campo e votaram com a MP da Grilagem aqui na Câmara dos Deputados.

Por isso, Sr. Presidente, quero dizer que o que se passou aqui, ontem, foi um grande acordo. Na minha opinião, o Governo recua mais uma vez em nome da governabilidade, cede à biodiversidade brasileira. Para quê? Por casua dos grandes ruralistas — porque não se trata de defender o pequeno e o médio aqui não. Ressalte-se que 15 módulos fiscais podem representar 1.500 hectares na Amazônia. Isso não é pequena propriedade, gente! Não há explicação para isso. É o contrário.

O que se passou aqui, ontem, é que não querem recuperar as beiras de rio, mas continuar plantando nas encostas, nos topos de morro, e degradando, quando, na verdade, há mais de 110 milhões de hectares de terras ainda virgens em mãos privadas no País. Isso ocorre porque o agronegócio quer tudo e, na verdade, eles sempre foram contra a Reserva Legal e as Áreas de Preservação Permanente, como eles acham que deveria ser na Europa e nos Estados Unidos.

Felizmente aqui nós mantivemos esse instituto. A Sociedade Científica Brasileira se opôs. A Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, em várias ocasiões, a Academia Brasileira de Ciência e a universidade brasileira se pronunciaram contra essas mudanças efetivadas no Código Florestal.

E o que nós vimos ontem foi mais um avanço do conservadorismo. Ou seja, redução das margens de rio, plantação de frutíferas, com seus agrotóxicos e tudo nas beiras dos rios… É isso! Passou praticamente tudo. O que o setor mais radical do ruralismo queria ontem era que a Presidente não vetasse nada. Era só isso. Com o resto eles estão satisfeitos.

E aí quero fazer um resgate. Acho que o erro começou lá trás, no relatório do Deputado Aldo Rebelo. Precisa ser feito um balanço disso. A esquerda brasileira não pode compactuar com esse tipo de linha do agronegócio brasileiro exportador. Nós queremos outro projeto de Nação para o nosso País.

Muito obrigado.

Ivan Valente
Deputado Federal PSOL/SP

TE MTE Deputado ruralista se choca com trabalho escravo no Pará

Por Bianca Pyl – Repórter Brasil

“Pensei que não existisse mais isso no Brasil”. Vinda do deputado federal Giovanni Queiroz (PDT/PA) - integrante da bancada ruralista, que costuma contestar a existência de trabalho escravo contemporâneo no país -, a declaração relativa à situação enfrentada por oito vítimas desta forma de exploração desumana no Sudeste do Pará ganha em consistência.

Junto com seus pares Cláudio Puty (PT/PA), Walter Feldman (PSDB/SP) e Ivan Valente (PSol/SP), respectivamente presidente, relator e membro da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Trabalho Escravo aberta no Congresso Nacional, o congressista acompanhou operação do grupo móvel de fiscalização e combate ao trabalho escravo realizada semana passada.

O grupo foi resgatado na execução do chamado “roço de juquira” (abertura para a expansão da pastagem para atividade pecuária) da Fazenda Alô Brasil, que pertence a Luís Batista Mariano, localizada em Rio Preto, zona rural do município de Marabá (PA). A propriedade tem cerca de 500 alqueires (em torno de 1,2 mil hectares), com aproximadamente 800 cabeças de gado.

Composta também por integrantes do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), do Ministério Público do Trabalho (MPT) e da Polícia Federal (PF), a fiscalização encontrou trabalhadores em condições degradantes (alojados em barracos precários de lona e terra de chão batido, sem acesso à água potável, à alimentação adequada e à banheiro), sob isolamento geográfico, sem receber salários há dois meses, submetidos tanto à servidão por dívida e como a jornadas exaustivas do início da manhã até o anoitecer.

“Vimos uma situação vergonhosa, constrangedora. Nunca vi nada tão ridículo”, descreveu o ruralista Giovanni Queiroz. De acordo com ele, o proprietário não tinha “nenhuma desculpa” para tratar os empregados de tal maneira, pois a fazenda era de meio porte, inclusive com “curral bem feito”.

O deputado Cláudio Puty, que já acompanhou uma fiscalização de combate ao trabalho escravo urbano em São Paulo (SP), também ficou impressionado com o que viu. “Uma coisa é você saber o que é trabalho degradante pela letra da lei e outra é ver uma situação chocante como essa”, avaliou.

Quadro
Foram cinco horas de estrada de terra até a fiscalização alcançar a fazenda. “O local é de difícil acesso e o povoado mais próximo fica a 30 quilômetros da fazenda”, salientou Ivan Valente, outro parlamentar que esteve na operação, enfatizando o grau de dificuldade de acesso ao local.

Os regatados foram atraídos pela promessa de ganhar R$ 130 por alqueire convertido em pasto – o que, em média, levaria 15 dias. Contudo, o empregador não cumpriu a promessa. Há cerca de dois meses no local, tinham sido contemplados apenas com pequenos adiantamentos, que posteriormente seriam descontados de seus vencimentos. Sem salários, eles viam que dificultava ainda mais o deslocamento da Fazenda Alô Brasil.

A água consumida pelos resgatados – para tomar banho, matar a sede e cozinhar – era a mesma consumida pelo gado. As vítimas dormiam em barracas de lona abertas, sem nenhuma proteção. “Na região, o calor é intenso e, durante a noite, é muito frio. Os trabalhadores estavam expostos, ao relento”, completou o experiente deputado do PSol.

Somente o vaqueiro dormia em um cômodo de alvenaria. Contudo, o local servia de depósito para agrotóxicos e combustível, entre outras coisas, e também estava em péssimas condições. Não havia instalações sanitárias no local, o que obrigava os empregados a utilizar o mato como banheiro.

A alimentação era preparada por um dos trabalhadores, que recebia um adiantamento e comprava a comida, que era escassa. A carne consumida pelos trabalhadores estava estragada, com moscas.

A jornada de trabalho era extensa, iniciando por volta das 6h30 até o anoitecer, de segunda à sábado. Aos domingos, os trabalhadores costumavam pescar para tentar compensarr a falta de comida à disposição. Por conta da distância e da falta de dinheiro, não saíam da propriedade.

Os auditores fiscais encontraram cadernos com anotações de dívidas referentes à compra de fumo, botas e sabonetes, entre outros itens. Ninguém tinha a Carteira de Trabalho e Previdência Social (CTPS) preenchida. Conjuntos completos de Equipamentos de Proteção Indivual (EPIs) não eram fornecidos.

De acordo com o auditor fiscal Benedito de Lima e Silva Filho, coordenador da fiscalização, foram lavrados 12 autos de infração contra o empregador, que pagou as verbas rescisórias no total de R$ 25 mil.

Representado pelo procurador do trabalho Allan de Miranda Bruno na fiscalização, o MPT firmou Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com os responsáveis pela área que prevê indenização de R$ 30 mil por danos morais coletivos e outros R$ 10 mil por danos morais individuais.

Comissão
Na visão de Benedito, a participação de congressistas na fiscalização ajuda a desmistificar as ações empreendidas contra esse tipo de crime. “Eu achei de suma importância a participação dos deputados nesta operação. Ao longo do tempo, quem não acompanha o combate ao trabalho escravo tende a não compreender a situação que relatamos. Alguns acham até que o grupo móvel exagera. Mas, nesta ocasião, os parlamentares puderam ver que os relatórios correspondem à realidade”, avaliou Benedito, que tem mais de dez anos de experiência no combate ao trabalho escravo.

Para Ivan Valente, a presença de um integrante da bancada ruralista (Giovanni Queiroz) foi muito positiva para conferir in loco a situação em que brasileiras e brasileiros ainda vivem, que é a de “incontestável” escravidão contemporânea, “uma fotografia real do trabalho escravo”.

O presidente da CPI, Cláudio Puty informou que apresentará proposta na próxima reunião administrativa da comissão, marcada para a próxima quarta-feira (05/09), solicitando que os proprietários autuados nas últimas fiscalizações rurais, incluindo Luís Batista Mariano, da Fazenda Alô Brasil, sejam convocados para prestar depoimentos aos parlamentares.

A Repórter Brasil não conseguiu contato com o proprietário para comentar o flagrante, que contou com presença dos deputados da CPI.

Proprietários da marca Talita Kume podem ser convocados pela CPI do Trabalho Escravo

Repórter Brasil – Por Bianca Pyl

Cláudio Puty (PT/PA), deputado federal e presidente da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Trabalho Escravo, afirmou que o grupo estuda convocar os responsáveis pela marca Talita Kume para uma oitiva, assim como aconteceu com representantes das marcas Gregory, Marisa, Pernambucanas e Zara. A fiscalização em oficinas da empresa acompanhada pelos integrantes da CPI foi debatida nesta quinta-feira (11), durante reunião deliberativa da CPI. Na ocasião, os deputados federais receberam o relatório da fiscalização que resultou na libertação de oito pessoas de condições análogas às de escravos.

Em entrevista à Repórter Brasil, o presidente da CPI elogiou a fiscalização acompanhada por ele e pelos deputados Ivan Valente (PSol/SP) e Walter Feldman (PSDB/SP). “Os integrantes da fiscalização foram cuidadosos com os trabalhadores, que não foram expostos. Foi prudente porque não divulgou o caso até interrogar todos os envolvidos e tomar as medidas necessárias”, disse. O deputado federal Ivan Valente destacou o trabalho de inteligência realizado antes da vistoria in loco nas oficinas. “Não há nenhuma truculência por parte da equipe, pelo contrário, há o acolhimento das vítimas. Nós constatamos um sofrimento muito grande que passam estas pessoas, a maioria bolivianas”, relatou Ivan à Repórter Brasil.

Para o presidente da CPI, acompanhar a fiscalização foi fundamental para tirar qualquer dúvida em relação à interpretação do conceito de trabalho escravo. “Não existe interpretação, o fato fala por si só, a situação é muito chocante”, completou. O deputado federal por São Paulo, Ivan, destacou as condições de vida das pessoas submetidas aos trabalho em condições análogas às de escravos. “Existe uma situação de dependência em relação ao dono da oficina por conta das dívidas que são impostas as estas trabalhadores e trabalhadores. Jornadas de 15 horas diárias em ambientes extremamente precários, sem ilumuninação, higiene ou ventilação”, apontou Ivan.

A CPI do Trabalho Escravo pode propor denúncia criminal de empresas envolvidas com trabalho escravo ao Ministério Público Federal (MPF).

Luís Alexandre Faria, auditor fiscal que coordenou a fiscalização, falou aos parlamentares sobre os últimos casos flagrados pelo Grupo de Combate ao Trabalho Escravo Urbano do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). A fiscalização realiza uma investigação prévia – parceria da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE/SP) e da Receita Federal – na cadeia produtiva das marcas para responsabilizar a empresa beneficiária do trabalho escravo e não as pequenas oficinas e intermediários nesta rede. “A empresa é a responsável porque ela determina como quer a peça, determina prazos e até preço, ela não é mera compradora”, disse.

O deputado federal Nelson Marquezelli (PTB/SP) manifestou-se contrário a ideia de que as empresas devem realizar auditorias em seus fornecedores e zelar por boas práticas em suas cadeias produtivas, como defendem as autoridades envolvidas no combate ao trabalho escravo. “Eu não quero entender na legislação brasileira que um comprador tem a obrigatoriedade de fiscalizar, fazer a parte da Justiça do Trabalho, dos fiscais, tudo. Eu se tivesse uma empresa para comprar tecido ou confecção de um fornecedor eu me recusaria ser o fiscalizador desta empresa. Eu não quero fazer esta chantagem com a empresa: olha se você não tiver tudo em dia eu não compro mercadoria de você”, declarou o parlamentar.

De acordo com Ivan Valente, no relatório final da CPI do Trabalho Escravo será possível propor leis que reforcem a responsabilidade das empresas por suas cadeias produtivas. “Uma proposta de lei saindo da CPI tem até mais força política”, avaliou Ivan.

Crianças bem nutridas
Durante a reunião na CPI, o deputado Nelson Marquezelli chegou a dizer que os fatos (expostos por Luís Alexandre durante sua apresentação) não se tratavam de trabalho escravo. “Estou vendo aqui que muitas coisas alocadas lá são problemas trabalhistas, não pagam férias, não registram em carteira. Das fotos mostradas, é lógico que não estão como ´manda o figurino´. Quando você vê uma mãe, uma costureira amamentando sentada na cadeira, você tem analisar o ambiente como está. Não é todo mundo, é uma, talvez seja alguns minutos apenas, [porque ela] queria acariciar o garoto que está na casa ao lado”, opinou Nelson. A foto a que se refere o deputado, trata-se do caso de uma intermediária da Gregory, a WS Modas Ltda. A Repórter Brasil acompanhou a fiscalização em questão. O bebê recém-nascido estava no carrinho ao lado da máquina de costura em que a mãe trabalhava quando a fiscalização flagrou a cena.

O parlamentar disse ainda que as crianças mostradas parecem “bem nutridas”. “Da documentação que eu vi nada me leva [a concluir] trabalho escravo”. Contrário às denúncias, ele defendeu que tais violências não devem ser divulgadas e alegou estar preocupado com a imagem do Brasil no exterior. “Eu fico preocupado que isso que falamos aqui vai pelo mundo, a fotografia da costureira amamentando rodou o mundo, isso não é bom para nosso país”.

oficina_talita_kume Fiscalização acompanhada pela CPI do Trabalho Escravo liberta 8 pessoas em oficina de costura em São Paulo

Um grupo de oito pessoas vindas da Bolívia, incluindo um adolescente de 17 anos, foi resgatado de condições análogas à escravidão pela fiscalização dedicada ao combate desse tipo de crime em áreas urbanas. A libertação ocorreu no último dia 19 de junho. Além dos indícios de tráfico de pessoas, as vítimas eram submetidas a jornadas exaustivas, à servidão por dívida, ao cerceamento de liberdade de ir e vir e a condições de trabalho degradantes. O grupo costurava para a marca coreana Talita Kume, cuja sede fica no bairro do Bom Retiro, na zona central da capital.

Em um sobrado na Zona Norte de São Paulo com os portões trancados, viviam duas famílias e mais três jovens que costuravam peças femininas de roupa em situação de trabalho escravo contemporâneo. Impedidas de sair, as pessoas tinham suas vidas totalmente controladas pelo casal, também vindo da Bolívia, que gerenciava a escondida oficina.

Pedro** veio com a mulher e o irmão, de 17 anos de idade, de La Paz, na Bolívia, para trabalhar na unidade de produção precária e improvisada. Eles estão no Brasil desde novembro de 2011. A família demorou quatro meses para pagar as passagens, que custaram R$ 1,2 mil. Pedro recebe em média R$ 350 por mês – abaixo do salário mínimo (R$ 622). O casal tem duas filhas, uma delas com apenas dois anos de idade. As duas meninas circulavam por entre as máquinas de costura, expostas aos mesmos riscos que os pais.

Há cerca de cinco anos, a Confecções Talita Kume Ltda. contrata serviços dos donos da referida oficina de costura. As vítimas libertadas estavam de quatro a oito meses trabalhando no local. Quase todos tiveram os valores das passagens da Bolívia para o Brasil descontados dos salários, o que revela indícios de tráfico de pessoas e comprova a prática de servidão por dívida, uma vez que despesas de moradia, alimentação e limpeza também eram cobradas.

A operação completa se estendeu entre 12 de junho a 5 de julho e foi realizada no âmbito do Pacto Contra a Precarização e Pelo Emprego e Trabalho Decentes em São Paulo – Cadeia Produtiva das Confecções. A fiscalização contou com a participação – além da própria Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE/SP), que coordenou o processo – da Secretaria de Estado da Justiça e Defesa da Cidadania (SEJUDC), Receita Federal, Defensoria Pública da União (DPU), Ministério Público do Trabalho (MPT), Polícia Federal (PF) e Ministério Público Estadual (MPE).

A ação foi acompanhada ainda pelos deputados federais Cláudio Puty (PT/PA), Walter Feldman (PSDB/SP) e Ivan Valente (PSol/SP), respectivamente presidente, relator e integrante da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Trabalho Escravo, instaurada na Parlamento nacional no final de março de 2012 com o propósito de investigar a ocorrência do crime de redução de condições análogas à de escravo (art. 149 do Código Penal) em todo o país.

R$1 por peça
O valor pago às costureiras e costureiros era de R$ 1 por peça. A Talita Kume, por sua vez, remunerava o dono da oficina, em média, R$ 3,80 por peça. O vestido que estava sendo costurado pelas vítimas de trabalho escravo no momento da fiscalização custa na loja, em média, R$ 49,90. De acordo com a fiscalização da SRTE/SP, braço do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a precarização da relação de trabalho se dá com o objetivo de aumentar os lucros da empresa, caracterizando o dumping social e a concorrência desleal.

A empresa estipulava o preço da peça, entregava os tecidos cortados e a peça piloto para ser copiada na oficina de costura. Além disso, determinava o prazo para que as encomendas fossem entregues. Impunha ainda multas aos donos de oficinas, seja por não costurar as etiquetas (R$ 0,10 por peça) ou por problemas na costura (20% no valor da peça).

João**, de 17 anos, veio ao Brasil com o irmão Pedro sabendo que iria para a oficina de onde foi libertado. “Já saí com trabalho certo, mas nunca tinha costurado na Bolívia”. Torcedor do Bolivar e do Corinthians, o jovem, que ainda não concluiu os estudos, pretende retornar a seu país no final do ano.

Condições de trabalho

O sobrado onde funcionava a oficina tinha poucos cômodos, alguns deles divididos de forma completamente improvisada. O quarto em que dormiam três trabalhadores era pequeno, com dois beliches que ocupavam todo o espaço do local. Não havia mesas para as refeições e os empregados comiam sentados na cama. O casal com duas filhas dormia em outro quarto, assim como o casal que administrava a precária oficina, que funcionada há anos.

A sala, espaço que abrigava as máquinas de costura e servia como núcleo de produção, também tinha estrutura notadamente precária, com as instalações elétricas expostas, o que aumentava o risco de incêndio. O local era fechado e não havia extintores. Todos utilizavem um único banheiro. Os trabalhadores se revezavam na limpeza da casa, sob pena de pagamento de pizzas e refrigerantes, caso as tarefas não fossem realizadas.

A jornada de trabalho se estendia das 7h às 22h e, eventualmente, até 1h da madrugada do dia seguinte. A extensão variava de acordo com a encomenda. A jornada exaustiva imposta às empregadas e empregados está diretamente relacionada ao baixo valor pago pela Talita Kume por cada peça costurada, na avaliação da SRTE/SP. Costureiras e costureiros passavam o tempo todo sentados em cadeiras inadequadas para o serviço.

A comida era preparada em uma pequena cozinha, no quintal da casa. Os alimentos eram armazenados de modo negligente. A fiscalização encontrou, inclusive, carne com prazo de validade vencido.

O local de trabalho e os alojamentos, que funcionavam no mesmo sobrado da Zona Norte, foram interditados. Também foi interditado o depósito da Talita Kume, na sede da empresa no bairro do Bom Retiro. Até o momento, a empresa não comprovou a correção dos problemas e, portanto, os locais continuam interditados.

Cadeia produtiva
A investigação da cadeia produtiva da Talita Kume – realizada pela SRTE/SP e pela Receita Federal – chegou até a oficina na Zona Norte de São Paulo por conta das notas fiscais com encomendas de mais de duas mil peças utilizando o CPF da filha do dono da oficina. A Talita Kume contrata diretamente a oficina de costura precária e irregular. Não há, nesse caso, nenhum intermediário, como ocorreu em casos envolvendo grandes marcas de roupa.

A oficina onde foi realizado o resgate dos trabalhadores é apenas uma das que produzem diretamente para a marca Talita Kume. A fiscalização apontou a existência de outras 16 oficinas que costuram peças de vestuário comercializadas pela marca. Somente cinco delas possuem Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica (CNPJ), e mesmo assim, não têm funcionários devidamente registrados em carteira, como exige a lei.

Apesar de ter em seu objeto social a “confecção de peças de vestuário”, a Confecções Talita Kume Ltda. não mantém atividade de costura dentro de suas instalações. Os auditores fiscais do trabalho verificaram no Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do MTE, que apenas uma costureira consta como contratada pela empresa.

Providências, reações
Após a fiscalização, as empregadas e os empregados resgatados receberam as verbas rescisórias no valor de mais de R$ 40 mil. Eles estão recebendo auxílio da SEJUDC e da DPU para regularizar a documentação.

A empresa Talita Kume ainda não comprovou às autoridades fiscais a correção emergencial das condições dos alojamentos e da oficina, que ofereciam risco à saúde e à vida de costureiras e costureiros.

Foram lavrados 42 autos de infração contra a Talita Kume, entre eles o de discriminação étnica de indígenas Quechua e Aymara, grupo ao qual pertencem as trabalhadoras e trabalhadores bolivianos, que recebem tratamento pior do que os empregados que trabalham na loja ou na sede da companhia.

Procurado pela reportagem, o advogado da empresa, Nelson Hoing, não quis se pronunciar sobre o caso.

André Lee, diretor administrativo da Associação Brasileira de Coreanos (ABC) – que é signatária do Pacto Contra a Precarização e Pelo Emprego e Trabalho Decentes em São Paulo – Cadeia Produtiva das Confecções – relatou que a entidade orientou a comunidade coreana sobre trabalho escravo em 2009. “Não estamos sabendo de nenhum problema. Para nós, estava tudo certo”, disse. Recentemente outros flagrantes de trabalho escravo envolveram empresas coreanas, a WS Modas Ltda (Belart) e a Patrícia Su Hyun Ha Confecções Ltda. – intermediárias da grife Gregory. Nestes últimos casos, 23 pessoas foram libertadas de trabalho escravido em maio de 2012.

Fonte: Repórter Brasil – Informações e fotos: Bianca Pyl