A montadora americana General Motors anunciou terça-feira (26) a demissão de 598 operários que estavam, desde agosto, afastados da linha de produção de automóveis no complexo industrial de São José dos Campos, no interior de São Paulo. Do grupo de 748 empregados que tinham seus contratos de trabalho suspensos, o chamado “lay off”, a montadora garantiu a volta de apenas 150 com direito à estabilidade – funcionários lesionados no trabalho ou em fase de pré-aposentadoria.
A demissão em massa na GM coloca novamente em xeque a política de desonerações à setores da indústria e que agora vem se reproduzindo em outros setores da economia, como telecomunicações até planos de saúde, como tem sido cogitado pelo Governo Dilma. Nos últimos anos, com o recuo da economia, o Executivo tem aplicado a receita de diminuir ou zerar a cobrança do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para o setor automobilístico. Com o IPI reduzido, as vendas de carros cresceram 17,5% em janeiro deste ano.
Os benefícios fiscais destinados à indústria, no entanto, não implicaram em manutenção dos empregos, pois o governo federal não exige contrapartidas por parte das empresas, de modo que, mesmo com o aumento do consumo e com menos impostos, o setor vem provocando demissões em larga escala. A GM fechou, de julho de 2011 a junho de 2012, cerca de 1.200 postos de trabalho no país, sem contar as mais de 350 demissões feitas através do Programa de Demissão Voluntária. Somente em São José, responsável por 35% do faturamento da empresa, foram mais de 1000 postos fechados, entre demissões e contratações.
A GM justifica o corte porque não estaria conseguindo acompanhar a evolução do mercado. Contudo, a verdade é que o complexo de São José saiu da rota de investimentos da GM, perdendo projetos para as fábricas de São Caetano do Sul (SP) e Gravataí (RS). Segundo informações do jornal Valor Econômico, a unidade deixou de participar da renovação do portfólio de carros de passeio da marca e o setor conhecido como MVA (Montagem de Veículos Automotores) passou a produzir apenas o sedã Classic com a aposentadoria, em 2012, dos modelos Corsa, Meriva e Zafira.
Para o Sindicato do Metalúrgicos de São José dos Campos, a GM não tem motivo para demitir pois os empregados têm feito hora extra na fábrica e a empresa segue importando da Coreia do Sul, da Argentina e do México veículos que poderiam ser montados na unidade. “Se esses carros fossem produzidos aqui, o cenário seria bem diferente. Em vez de demitir, a GM teria de contratar pelo menos mais 3 mil trabalhadores”, afirmou a entidade em nota.
O setor automobilístico já recebeu cerca de R$ 25 bilhões em isenções de impostos do governo federal desde 2009. Em meados de agosto de 2012, o ministro da Fazenda Guido Mantega declarou que “não iria tolerar o descumprimento nos acordos de não demissão dos setores beneficiados pelo estímulo de redução de IPI dado pelo Governo Federal”. Menos de uma ano depois o ministro é desautorizado pela GM e não há sinais de que o Governo venha interceder no caso.
O Sindicato acusa a presidente Dilma Rousseff de não intervir, apesar dos incentivos dados pelo governo à indústria automobilística. Para o deputado Ivan Valente, a postura do governo demonstra a sua fraqueza diante das grandes empresas em garantir a estabilidade dos trabalhadores contra os interesses das matrizes. Segundo o deputado, o plano original da GM era transferir a produção do Classic para a Argentina, e não para outra unidade da montadora no país. Ou seja, nunca houve interesse da montadora em garantir os empregos dos trabalhadores.
“Em 2010, os governos estadual e federal investiram milhões para salvar montadoras no Brasil e imediatamente elas transferiram seus lucros para as sedes na Europa e Estados Unidos. Se os cofres públicos abrem mão de impostos para tentar manter a economia aquecida, o mínimo que as empresas beneficiadas devem fazer é garantir o emprego dos trabalhadores. E o governo Dilma não pode fechar os olhos pra isso”, afirmou Valente.
Para o deputado, a questão essencial é a escolha do Governo por um modelo que despende bilhões em desonerações fiscais na expectativa de que se reverta em consumo. “A escolha correta seria utilizar estes recursos em um programa de investimentos públicos. A verdade é que, no capitalismo sem risco brasileiro, não existe investimento privado sem que o Estado o induza.”






