Por uma universidade pública

Por Francisco de Oliveria, Paulo Arantes, Luiz Martins e J.Souto Maior
Publicado originalmente na coluna “Tendências e Debates” da Folha de S.Paulo – 23/06/2010.

O reitor da Universidade de São Paulo publicou neste espaço (“Mecenato e universidade” , 10/6) artigo com alguns argumentos que precisam ser democraticamente contrapostos. Para ele, os problemas da USP partem de uma razão econômica.

A saída que expõe é uma contradição em termos: o ingresso de dinheiro privado para a melhoria da universidade pública. Para proteger a universidade pública, que é melhor que a privada, diz que a universidade pública deve abrir suas portas para o dinheiro privado.

No fundo, o que a sua solução esconde é a tentativa de privatizar o ensino público. Ora, não se tendo conseguido fazer com que as entidades privadas prevalecessem no cenário educacional, busca-se fazer com que o ensino público forneça o material humano necessário para os fins da iniciativa privada.

A dificuldade econômica pela qual passa a universidade pública é fruto de uma negligência proposital do Estado com o ensino público, que se pretende compensar com o investimento privado.

Este último cria, na verdade, uma perigosa promiscuidade que desvirtua a razão de ser do ensino público, que deve se voltar para os problemas sociopolítico- econômicos gerais do país.

Mas mais grave ainda é a forma pela qual se vislumbra tal “parceria”. Na Faculdade de Direito, ela se fez para duvidosas reformas arquitetônicas que nada acrescentaram à melhoria do ensino. Além disso, para se chegar a tanto, foram desrespeitados diversos preceitos da ordem jurídica. O que o reitor chama de “modernização” constituiu grave ilegalidade.

Cumpre resgatar o respeito à ordem jurídica, ainda mais à luz do grotesco episódio de transposição dos livros das bibliotecas departamentais, da noite para o dia, para um prédio desprovido de condições, e cuja devolução ao local de origem, por determinação do Ministério Público, vem se arrastando há mais de três semanas…

Tais ilegalidades justificariam um processo de improbidade administrativa contra o reitor, que, além do mais, em entrevista recente à Rede Bandeirantes, referiu-se à USP, faltando com o decoro acadêmico mínimo, como “terra de ninguém”, “tomada por invasores” e “assemelhada a morros do Rio de Janeiro”, em vias de “virar um Haiti”.

O grande passo que precisa ser dado pela USP é a sua reestruturação, buscando a democratização interna e externa, mediante o voto universal, condição para uma estatuinte e um processo rumo à superação do vestibular, visando o acesso universalizado à universidade pública, tal como é no México e na Argentina há quase um século.

O reconhecimento republicano da igualdade de voto e de cidadania de professores, estudantes e trabalhadores supõe o respeito pleno às manifestações dos servidores que legitimamente lutam por direitos.

A reitoria afirma que os trabalhadores em greve estão cometendo uma ilegalidade e comete o abuso de cortar o ponto de mil servidores, mirando com suas punições principalmente alguns de menor salário.

Mas a greve é um direito fundamental consagrado e, sobretudo, se justifica quando os trabalhadores são atingidos, na sua concepção, por ilegalidades cometidas pelo empregador. Negar a greve como um direito e fixar represálias ou coações constitui, por si, um grave atentado à democracia.

Todos os que prezam o regime democrático devem se alinhar com os trabalhadores da USP, que fazem história com suas lutas, contribuindo vivamente para a democratização da universidade, tal como os operários do ABC que, nos idos de 1978-80, desafiaram publicamente a repressão e levaram à reconstrução da ordem jurídica do país.

FRANCISCO DE OLIVEIRA é professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP).
PAULO ARANTES é professor da FFLCH-USP.
LUIZ RENATO MARTINS é professor da Escola de Comunicações e Artes da USP.
JORGE LUIZ SOUTO MAIOR é professor associado da Faculdade de Direito da USP.

Os trabalhadores da USP resistem

Senhor Presidente, Senhoras e Senhores Deputados,

Os funcionários da USP, fazendo uso de um instrumento legítimo e constitucional, que é o direito de greve, resistem aos ataques aos direitos já adquiridos com muita luta na história da categoria e reivindicam novas conquistas que reparem os danos sofridos com o processo de sucateamento das universidades públicas vivido no último período. Não é só a USP que está em greve. Os trabalhadores da Unicamp e da UNESP também seguem lutando e pressionando o CRUESP (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas) para que haja uma solução para a questão.

No caso específico da USP, as tentativas de criminalização do movimento, o uso de métodos que cerceiam a democracia e o direito de manifestação dos trabalhadores e o desconto dos dias parados como forma de tentar quebrar a greve fizeram com que a reação por parte da categoria fosse mais incisiva. Depois de confirmado o desconto do salário de cerca de mil funcionários que participam da greve, a indignação se aprofundou na categoria e a disposição de participação dos trabalhadores, ao invés de diminuir como calculava a reitoria, aumentou.

Vale ressaltar que muitos tiveram suas contas bancárias literalmente zeradas e, segundo relata o Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp), não foram poucos os que os procuraram desolados, sem saber o que fazer diante da privação ao direito elementar de sustento de sua família.

Como uma forma de pressionar e exigir a solução imediata para a greve, com a retomada das negociações e o pagamento integral dos dias parados, os trabalhadores decidiram, nesta terça-feira (08/06), após Assembleia realizada em frente ao prédio da Reitoria da USP, pela ocupação pacifica daquele espaço. A movimentação tem recebido apoio também por parte dos estudantes e professores e conta com a solidariedade dos funcionários das demais universidades públicas de São Paulo.

A situação na USP exige uma resposta rápida e clara. Não podemos tolerar que os trabalhadores sejam desrespeitados e que a greve seja tratada de forma arrogante e punitiva por parte da Reitoria. As conquistas democráticas de liberdade de organização, do direito à manifestação, organização por local de trabalho e greve não podem ser renegadas ou tratadas como algo superado, como fazem os reitores e o governo de São Paulo, dentro de uma perspectiva neoliberal que privilegia as ações individuais e nega tudo que é coletivo e organizado.

Várias medidas estão sendo tomadas para garantir que a mobilização da categoria tenha um desfecho positivo. Para isso é fundamental a solidariedade e a participação ativa de outras categorias, do conjunto da comunidade acadêmica, do povo paulista em defesa da universidade pública. Além disso, a greve suscita outros debates fundamentais para a vida da USP, recolocando a discussão sobre a democratização da Universidade. Hoje mesmo, no Instituto de Física, acontece o debate PM no campus nunca mais!, com a participação dos professores Fabio Konder Comparato e Maria Victoria Benevides e representantes da ADUSP, APG, DCE e Sintusp. Já amanhã, acontece, na Assembleia Legislativa de São Paulo, uma audiência pública requisitada pelo deputado estadual do PSOL Carlos Giannazi com os três reitores das três universidades estaduais paulistas.

Queremos, desta tribuna, reiterar nosso apoio ao movimento, à greve dos trabalhadores das universidades públicas paulistas e, mais uma vez, reafirmar nosso compromisso com a defesa incondicional do ensino público, gratuito e de qualidade para todos.

Muito obrigado.

Ivan Valente
Deputado Federal PSOL/SP