Começo péssimo do novo diretor da polícia federal

A posse do novo diretor da polícia federal, Fernando Segovia, foi marcada por declarações, no mínimo, polêmicas. A presença de Michel Temer no evento, por si só, causou estranheza, uma vez que não é de hábito o presidente da República participar na cerimonia de troca de diretor da instituição.

Segovia mostrou um discurso alinhado com o Planalto. A sua própria indicação, aliás, contou com a participação de Eliseu Padilha, ministro da Casa Civil, e José Sarney. Muito suspeito. Declarou o novo diretor referindo-se à mala de dinheiro recebida por Rodrigo Rocha Loures de um executivo da JBS: “a gente acredita que, se fosse sob a égide da Polícia Federal, essa investigação teria de durar mais tempo, por que uma única mala talvez não desse toda a materialidade criminosa que a gente necessita para resolver se havia crime ou não, quem seriam os partícipes e se haveria ou não corrupção”.

Ao passar panos quentes no evento que assombrou o país – foi a primeira vez que um presidente da República foi diretamente envolvido num escândalo de corrupção no exercício do mandato – Fernando Segovia transmite a imagem de que pode fazer parte do esquema de “estancar a sangria”.

O diretor também criticou a Procuradoria Geral da República em relação à denúncia apresentada por Janot contra Temer: para ele, faltou tempo de investigação.

Está claro até para o mundo mineral que os sequestradores da democracia fazem de tudo para evitar as investigações dos crimes que pesam sobre eles. E estes não são poucos. O núcleo duro do PMDB está envolvido em tramas. Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima, Henrique Alves e Lucio Funaro estão presos. Moreira Franco e Eliseu Padilha só não foram parar atrás das grades porque possuem foro privilegiado. Aliás, o governo manobrou para garantir essa qualidade para Moreira Franco.

A sociedade espera e cobra combate severo à corrupção. Através dela, o poder econômico se apropria indevidamente da democracia. Nesse contexto, as declarações acima são um balde de água fria na expetativa da população.

Assim analisou o caso o jornalista Bernardo Mello Franco: “o novo diretor da PF alvejou a própria imagem. Ao repetir o discurso do governo, ele reforçou as suspeitas de que foi nomeado para “estancar a sangria” da Lava Jato. O delegado só acertou ao dizer que há um “vendaval de dúvidas” sobre o futuro da polícia. Sua escolha ajudou a formar a tempestade”.

Devemos ficar atentos: aqueles que buscam “estancar a sangria” são os mesmos golpistas que retiram direitos da população. A democracia e a ética estão em jogo.