Diplomacia da guerra e complacência com o terrorismo supremacista

As ruas de Charlottesville, na Virgínia, foram palco de cenas de intolerância anacrônica profundamente lamentáveis. Supremacistas brancos – neonazistas, na verdade, é o termo mais apropriado – se revoltaram contra uma iniciativa que previa a retirada da estátua de um general confederado, Robert Lee. Na guerra de secessão no século XIX, os estados sulistas dos EUA defendiam a permanência da escravidão. Em razão disso, a extrema-direita racista reivindica os símbolos confederados.

O ódio circulou nas ruas da pequena cidade de 50 mil habitantes. Saudações e símbolos nazistas, tochas como as usadas pela Ku Klux Klan, violência gratuita eram os ingredientes. A reação democrática e contrária à barbárie não demorou a aparecer: o movimento negro, a esquerda, estudantes, hippies e democratas compuseram o campo da civilidade. Lamentavelmente, muita violência ocorreu.

Homens de extrema-direita aos montes eram vistos portando armamento de grosso calibre. No sábado, o pior aconteceu. Um fanático lançou o carro em cima de uma manifestação democrática. A jovem de 32 anos Heather Hayer morreu vítima do atentado. Outras duas mortes no final de semana foram constatadas, embora não se saiba ao certo de tiveram relação com as manifestações.

O horror causado pelo ódio e pela ignorância não poderia ter sido diferente. Há tempos manifestações abertamente nazistas não apareciam com tanto destaque. Supunha-se que ao menos isso a humanidade teria conseguido vencer.

Ao contrário, Donald Trump, com sua campanha abertamente reacionária repleta de votos de intolerância, estimulou o crescimento de manifestações como as vistas. Ex-membro da KKK, David Duke, colocou-se ao lado de Trump nas eleições sem pestanejar. Coordenador de sua campanha e depois estrategista no governo, Steve Bannon é um líder da extrema-direita. Mesmo nas ruas de Charlottesville, cartazes em apoio a algumas propostas do atual presidente norteamericano circularam em mãos que deveriam estar coladas por algemas, após o crime de ódio.

Causou indignação mesmo no Partido Republicano a demora de dois dias que Donald Trump levou para condenar os incidentes. Muitos os têm chamado de terrorismo doméstico. Em um primeiro momento, Trump condenou a violência de ambos os lados como responsável pela morte da jovem Heather. A declaração foi vista como uma condescendência com a intolerância. Tese provável, visto os apoios que o candidat republicano conseguiu. Em seguida, a demora em condenar soou como um silêncio eloquente de quem não viu problema.

Em contrapartida, Donald Trump não pondera suas palavras beligerantes e ameaças a outros países. Há poucos dias, o presidente americano disse estar preparado para uma intervenção militar na Venezuela. Se não há preocupação real com o terrorismo supremacista em seu próprio país, o que levaria Trump a se preocupar com problemas de outros países? Coerência ideológica com o reacionarismo e interesses geopolíticos. Felizmente, a América Latina rechaçou qualquer tipo de saída militar para os problemas venezuelanos.

Devemos reafirmar nosso compromisso integral com a democracia e a defesa da tolerância. O fantasma do fascismo não foi vencido por completo. Há situações e figuras políticas que, nos EUA e também no Brasil, estimulam pensamentos que não coadunam com valores igualdade e justiça. Toda janela que abra espaço para o passado sombrio da intolerância deve ser fechada e vedada.