Em defesa do HU

O Hospital Universitário da USP só saiu do papel devido à mobilização popular de moradores da região do Butantã, no início da década de 1980. Ao surgir como resultado de luta, o HU se enraizou na História do bairro. São muitos os que têm referência no hospital como local onde nasceram, onde conseguiram tratamento especializado e como porto seguro em caso de emergência. Cercado por comunidades carentes como a do Rio Pequeno e São Remo, atende a uma população que em sua grande maioria não possui convênio. Não há muitas outras opções de saúde pública nas cercanias, o que torna o HU imprescindível para um universo que chega a 450 mil pessoas.
O hospital que ganhou existência com a mobilização popular novamente precisa de força nas ruas para garantir sua permanência. O cenário é de PDV com corte drástico no número de profissionais, redução de leitos, restrição no horário de atendimento, lacunas nos serviços prestados, escassez de itens básicos. A situação do Hospital Universitário se tornou alarmante, após anos de uma política de desmonte, especialmente com Zago na reitoria da USP e o respaldo do governador Geraldo Alckmin. Parece inacreditável, mas tem diretor clínico alertando que, se nada mudar, o hospital vai fechar as portas antes do final deste ano. A notícia estarrecedora nos parece menos sensacionalista se lembrarmos que já vimos o governador deixar a Santa Casa e o Hospital São Paulo agonizarem.
Quando Zago, apoiado por Alckmin, entrou na reitoria, a intenção era a de desvincular o HU da universidade, a exemplo do que ocorreu em Bauru com o HRAC, que já foi premiado pela OMC e hoje serve a interesses privados. A pressão de entidades como o Sintusp, o DCE e a Adusp acabou impedindo a desvinculação do HU, mesmo assim o atendimento e o ensino estão sendo prejudicados pelo sucateamento. Aliás, é bom lembrar que o Hospital Universitário tem parceria com cursos superiores de outras faculdades, sendo parte fundamental da formação de centenas de alunos de medicina todos os anos. O descaso com o HU significa, além de abandonar milhares de moradores da região do Butantã que necessitam de atendimento, comprometer seriamente o aprendizado de futuras gerações de médicos. Ou seja, nem sequer o investimento na formação de quem um dia será médico em hospitais de elite consegue sensibilizar nossos gestores.
A gestão de Zago foi marcada pela truculência da PM; pelo encastelamento, impedindo o acesso público à reitoria; pela mentalidade privatista e mercadológica; pela adoção de um “teto de gastos” para a universidade. Fala-se muito da falta de recursos para tentar justificar sua postura, mas na verdade trata-se de uma política alinhada à de Alckmin, de uma reitoria que não ousa batalhar por uma receita maior. No caso do HU, por exemplo, os recursos vêm apenas da alíquota da educação, nem um centavo da pasta da saúde. É muito conveniente para Alckmin que o reitor se contente com repasses restritos, uma receita que não acompanhou a expansão da USP, significativa após a inauguração da USP Leste. É de interesse do governador que um orçamento estrangulado sirva como pretexto para paulatinamente desmontar equipamentos públicos, transferindo boa parte da responsabilidade a suspeitas OSs. Zago é, sem dúvida, cúmplice desse processo. Não se há de esperar algo muito diferente do sucessor que tomará posse em janeiro, pois quem foi escolhido por um Conselho viciado é o atual vice-reitor, Vahan Agopyan, que promete manter as mesmas práticas nefastas de Zago.
No entanto, é um alento notar que há resistência. Um bom exemplo é a atuação de um grupo suprapartidário de moradores denominado Coletivo Butantã na Luta. São algumas dezenas de militantes que estão conseguindo mobilizar toda a região para a defesa do H.U, reunindo em poucas semanas mais de dez mil assinaturas em abaixo-assinado. O grupo tem feito discussões públicas e atos contundentes, contribuindo significativamente para esta luta, ao lado do Sintusp, da Adusp, do DCE, e de parlamentares, entre os quais nós nos incluímos. Em uma reunião de moradores da região com mais de 150 pessoas, foi tirado um ato público para 24 de novembro, um abraço ao redor do HU. Somente a mobilização popular será capaz de deter o processo de intenso desmonte da universidade pública e dos serviços prestados à população. Confiamos na força do Butantã na Luta, das entidades que vivem o cotidiano da USP e dos moradores da região, nessa campanha que cresce a cada dia. Estamos vendo renascer o espírito combativo que garantiu a inauguração do Hospital Universitário nos anos 80. Viva a luta popular, viva o HU!