Financiamento privado de campanha: raiz da grande corrupção. Nos últimos anos, ao país foram revelados grandes escândalos de corrupção. Tais esquemas estavam umbilicalmente ligados ao controle do poder político. Através de relações promíscuas entre empresas e grandes partidos políticos, a democracia foi sequestrada em nome do lucro das primeiras e do controle do Estado pelos partidos.

A corrupção no Brasil, como se sabe, embora muitos tentem esconder, remonta à formação do próprio Estado brasileiro. Este foi criado não de modo efetivamente republicano, mas a partir dos interesses das elites locais, na maior parte do tempo em sintonia com interesses não nacionais. Não por outra razão vemos, por exemplo, a imensa influência da bancada ruralista desde sempre nas decisões importantes que afetam todo o país. Há tempos sabe-se de esquemas, mas somente em meados dos anos 2000 as investigações seguiram. Compra do apoio político de partidos fisiológicos através de alianças espúrias, loteamento de cargos públicos, venda de projetos de lei e medidas provisórias, o puro e simples suborno, superfaturamento em obras e por aí em diante.

As teias do poder envolvem a muitos e muito dinheiro se fazia (e ainda se faz) para dar conta dos interesses privados dos donos do poder. Justamente nesse lugar, o financiamento privado de campanha ganhou enorme destaque. Volumes assombrosos de recursos pagos por empresas privadas passaram a fazer parte constitutiva de negociações que tangenciavam múltiplos interesses.

Nesse aspecto, duas grandes questões merecem ser ressaltadas: essa lógica da relação íntima com as grandes corporações faz com que a democracia seja sequestrada, ou seja, não mais a vontade das maiorias rege a política nacional, mas o interesse de quem “paga a banda”. Isso explica, por exemplo, a dificuldade de se aprovar no Congresso Nacional medidas populares que contrariem os interesses do mercado financeiros. Por óbvio, os deputados lá postos pelo próprio mercado não podem atuar contra seus financiadores. O outro ponto é o descaso com a coisa pública, subjugada diante de interesses fisiológicos.

O PSOL, e o nosso mandato, sempre foi linha de frente contra o financiamento privado de campanhas eleitorais. É verdade que a substituição desse modelo, por si só, não resolve o imbróglio histórico que rege a confusão entre o público e o privado. Muito embora ajuda a jogar luz e a combater o problema.

Os esquemas de desvios da Petrobras foram tão alarmantes que pressionaram pelo fim desse tipo de financiamento. Entidades como a CNBB, OAB e o conjunto dos movimentos sociais lutaram nessa direção.

Sabe-se que a prática do superfaturamento, da troca de favores entre agentes públicos e privados, o famoso “toma lá da cá” permearam governos de norte a sul desse país. Para ficarmos no estado de SP, podemos lembrar, sem grande esforço, do cartel orquestrado no metrô, o qual beneficiou governos tucanos – do Mário Covas até Geraldo Alckmin. Esquemas de desvios em obras da Dersa, em especial o Rodoanel. Mais recentemente, a máfia das merendas, em que lideranças do PSDB receberam propina para facilitar a vida de empresas amigas em licitações ligadas à compra de alimento para escolas.

Aqui vale uma ponderação. Por mais que o combate à corrupção tenha ganhado destaque, fato é que alguns partidos são investigados, enquanto outros não são. É gritante o “foro privilegiado” que possui membros do PSDB. Este partido, por mais que envolvido em diversas negociatas, não vê suas lideranças acertarem as contas com a justiça.

Disso questiona-se que “Justiça” é essa que usa dois pesos e duas medidas ao sabor de suas vontades. O Judiciário hoje atua como parte da política, assumindo uma vocação que não é a sua. Tal engajamento é extremamente preocupante. O poder democrático emana da vontade popular, de forma que essa vontade não pode ser distorcida ou deturpada pelo poder que magistrados e promotores possuem em suas carreiras.

O enfrentamento da crise exigirá a mobilização de milhões e milhões de pessoas. Nossa frágil democracia, de baixa intensidade, foi golpeada. Cabe somente a nós resgatar e construir uma sociedade livremente associada, que vá atrás de satisfazer as necessidades e desejos de cada um, de cada uma. Há muitas veredas a abrir, desvendar. Sabemos, no entanto, os caminhos que não se deve seguir.

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