Homenagem a Mauricio Segall

Sr. Presidente, Senhores e Senhoras Deputadas,

Em meio a esse nefasto momento que vivemos da história do país, diante da escancarada compra de votos que está em andamento para tentar se evitar que o Presidente golpista e corrupto, Michel Temer, seja investigado, empreitada a que nos opomos veementemente, recebemos, com muita dor, a triste notícia do falecimento, no dia 31/07, de Maurício Segall, um grande companheiro que muito nos honrou como um apoiador de primeira hora do nosso mandato.

Maurício Segall era museólogo, economista e escritor. Nasceu em Berlim, em 1926, mas, logo em seguida, mudou-se para o Brasil e, com muito orgulho, reivindicava-se um paulistano de carteirinha, que sempre morou no bairro da Vila Mariana. Filho do renomado artista Lasar Segall e de Jenny Klabin Segall, escritora e tradutora, foi nomeado Diretor Emérito do Museu Lasar Segall, instituição da qual foi fundador e diretor por 30 anos (de 1967 a 1997).

Mauricio era um homem contundente, de convicções, um ativista político. Como intelectual que era, formulava, debatia e agia em defesa de princípios e projetos nobres. Ateu e comunista assumido, atuou bravamente na resistência democrática à ditadura militar, tendo sido preso e torturado em 1970.

Para ilustrar essa singela homenagem, que aqui desta tribuna fazemos, transcrevemos, abaixo, dois breves textos que trazem bons elementos para melhor compreender essa figura humilde e notável, humana e peculiar, que era o estimado companheiro Maurício Segall. Um de sua própria autoria, tecendo considerações sobre o significado do Ato Institucional – AI-5, baixado em 13/12/68, no auge da ditadura militar, sob o governo do General Costa e Silva, O outro, um depoimento do amigo e companheiro de caminhada Roberto Schwarz, reconhecido crítico literário. Vale muito a leitura!

Depoimento sobre o AI-5

*Mauricio Segall

“O AI-5 significou a consolidação e a institucionalização, sob forma de ditadura militar, do regime autoritário e discricionário instaurado pelo golpe civil/militar de 1964. Mas além de ser uma das etapas do processo de guinada para a direita, significou uma alteração qualitativa ao anular o Estado de Direito, radicalizando a repressão e institucionalizando a barbárie seletiva.

É bom, porém, sempre lembrar que, para a maior parte do povo brasileiro, inclusive boa parcela dos assalariados, o AI-5 não significou nenhuma alteração fundamental nas suas condições de vida e na inacessibilidade aos direitos mais fundamentais do cidadão. Esta grande maioria continuará ainda durante muito tempo sujeita a um “AI-5” paraconstitucional de fato, nos quadros da luta de classe. Para os abonados liberais e/ou intelectuais acostumados às liberdades que a democracia formal concede aos privilegiados, o AI-5 acarretou alguns contratempos aos quais não estavam habituados. Já para os dissidentes, sobretudo os comunistas e demais militantes de esquerda, significou a instauração assumida do rigor da prisão arbitrária, da tortura e mesmo do assassinato. No meu caso, militante de esquerda desde 1950 e envolvido na luta política no período de 1964 e 1969, principalmente no auxílio aos perseguidos e ameaçados no rota do exílio, a inaceitabilidade do AI-5 me levou à necessidade de fazer “algo” mais, mesmo que muitos, como eu, fossem cépticos sobre a viabilidade das opções oferecidas. Dentre estas escolhi, por razões históricas, me ligar à ALN (um grupo que aderiu à luta armada), sobretudo no apoio logístico, o que resultou em 1970, como já previa, e como para tantos outros, na minha prisão, na tortura nos diversos “aparelhos” repressivos da OBAN e do DOPS e na condenação a dois anos de prisão, dos quais cumpri um.

Desta forma, no meu caso específico, o AI-5 levou a interrupção drástica na minha vida cotidiana com todas as conseqüências familiares, pessoais, profissionais e de saúde daí advindas mas não, espero, à interrupção da minha coerência e militância socialista face às explorações e iniqüidades do sistema capitalista.”

*Paulistano de carteirinha desde seu nascimento em 1926. Administrador e Museólogo formado em 1949 pela Escola de Sociologia e Política de São Paulo, com especialização na E.N.A. de Paris em 1952/1953.
MAURICIO (VII. 2017)

Vou ser breve. Para entender a pessoa de Mauricio Segall é preciso, na minha opinião, considerá-lo como um pacote explosivo de tensões. Por um lado, Mauricio descende de uma família rica e é filho de Lasar Segall, um dos grandes pintores de nosso tempo. Por outro, ele é comunista convicto e radical, numa acepção nobre, que vai além da filiação partidária e que a evolução histórica do comunismo deixou sem base. Esta bomba de contradições é tornada mais potente por um temperamento vulcânico, à moda russa, e pelo desejo exasperado de integridade e de coerência. Tudo isso misturado, mais a extraordinária energia física, fizeram dele um homem evidentemente de exceção. O seu aspecto grão-burguês aparecia na naturalidade com que mandava e na sobriedade “no nonsense” com que considerava as questões de interesse material. A verdade é que entre o materialismo de proprietário e a clareza responsável do administrador de esquerda havia mais coisas em comum do que costumamos admitir. — Por sua vez, a devoção ao acervo pictórico do pai, tratado como um patrimônio da humanidade, da cidade ou da nação, e não da família, não tinha nada de burguês. A generosidade com que Mauricio e o irmão financiaram o Museu, ao qual doavam as suas coleções Segall, de grande valor, além de imóveis e dinheiro, pertence a um mundo surpreendente, sem mesquinharia, em que a arte conta mais do que a propriedade. — Quanto à vertente comunista, ela se manifestava na concepção mesma do Museu. A orientação pró-moderna mas antimercantil, empenhada na deselitização da cultura, bem como a organização democrática, em que os funcionários têm voz e iniciativa, apontavam para além do capitalismo. Chegados aqui, não há como não mencionar que esses aspectos avançados da posição de Mauricio e do Museu foram historicamente derrotados pelo curso geral do mundo, que tomou o rumo do aprofundamento da mercantilização, inclusive e notadamente da cultura. Para dar uma ideia do teor de conflito nas posições de Mauricio, vou contar uma anedota. Estávamos os dois passeando na praia, quando chegamos a um conjunto de pedras enormes, que o acaso havia equilibrado de maneira esplêndida. Cometi a imprudência de observar que o conjunto, embora sem assinatura de artista, competia com a escultura moderna. A resposta veio amarga e exaltada: o arranjo natural das pedras era superior a qualquer obra de arte, pois era acessível a todo mundo, sem o ranço elitista de museus e exposições, e sem o esnobismo e a competitividade de todo 2 trabalho artístico. Por um momento breve mas lancinante, aí estavam as injustiças da sociedade de classes, que não perdoam, anulando o trabalho de vida inteira do criador de um museu modelo de democracia. Frente à beleza das pedras e à inaceitável desigualdade social, que subitamente se traduziam em raiva da arte, a dedicação meticulosa e amorosa à obra do grande pintor Segall ficava mal parada. Tivemos que espichar o passeio para que Mauricio recuperasse a calma. Para concluir meu depoimento quero falar na solidariedade de Mauricio com os amigos perseguidos pela ditadura, solidariedade da qual eu mesmo me beneficiei para sair do Brasil. Enquanto não foi agarrado ele próprio pela repressão, Mauricio ajudou de muitas maneiras a luta contra a ditadura, às vezes com risco de vida. Com sua perícia no volante e energia de touro, ele perguntava pouco e estava sempre disponível para fazer a longa viagem de automóvel de São Paulo à fronteira do Uruguai, para ajudar alguém a fugir. 16 horas de ida, 3 de descanso e mais 16 de volta – e a vida continuava.

Roberto Schwarz
28 de julho de 2017.

Foi-se um grande amigo e companheiro, mas fica seu exemplo de tenacidade, que junto com tantos outros, continuam nos inspirando a continuar lutando, nos inspirando a nos mover por uma outra sociedade que sonhamos, orientada por valores de justiça, solidariedade e igualdade, a sociedade socialista.

Por isso, dizemos bem alto e em bom som:

Companheiro Mauricio Segall, Presente!