O ensino superior e a financeirização da educação: Novo capítulo

A concentração do ensino superior privado no país vem ocorrendo paulatinamente durante o último período. Após a entrada das grandes empresas do setor no mercado de ações, vimos acompanhando compras e vendas de instituições como verdadeiras mercadorias. As grandes fusões, como da Kroton Educacional com a Anhanguera, ou mesmo da FMU com a Laureate deixaram claro que o tratamento da rede privada de ensino seria na lógica do mercado, e não na lógica do direito social que é de fato o direito à Educação.

Na última semana, o Conselho Adminsitrativo de Defesa Econômica (CADE) negou o pedido de compra da Estácio pela Kroton, as duas maiores redes privadas de educação à distância e presencial do país. A lógica da negativa, apesar de maquiada com algum aspecto da especificidade da área educacional, é fundamentada na dinâmica do mercado e da concorrência. Se aprovada a fusão, o novo grupo seria inatingível na livre-concorrência, como pode ser verificado na fala do conselheiro Alexandre Cordeiro: “A operação gera elevados níveis de concentração no mercado, inclusive com formação de monopólios. Não há outro grande player capaz de rivalizar com essas empresas”.

Realmente a fusão dos dois maiores grupos geraria um monopólio irreparável: A Kroton (que já realizou a fusão com a Anhanguera), é uma empresa que possui 16,38% das matrículas no ensino superior enquanto a Estácio possui quase 7%. Seriam no total mais de 1,6 milhões de alunos nas modalidades de ensino presencial e à distância.

Se para cartilha neoliberal o problema está na diminuição da concorrência, para nós, defensores da universidade enquanto lócus privilegiado de produção e difusão do conhecimento, geradora de desenvolvimento científico, social e cultural, tal oligopólio é inaceitável. É fato que essas empresas não estão em nada preocupadas com a qualidade da educação ofertada, não possuem nenhum vínculo com a pesquisa científica nacional e muito menos com projetos de extensão. Aceitar que 25% dos estudantes do ensino superior do país estejam submetidos à um único grupo privado (e portanto, aos seus valores, interesses, currículos e metodologias) é aceitar, além da privatização da educação, do sucateamento e da precarização do ensino, a composição do tal “pensamento único” para uma enorme parcela dos jovens e adultos em formação e preparação para as diversas áreas do mercado de trabalho.

O tratamento do ensino superior enquanto mercadoria, com a abertura

do capital das empresas na bolsa de valores e com o objetivo final de gerar lucro independente da reflexão e da concepção do significado das Universidades no país é o que chamamos de “financeirização da educação”. Uma política desastrosa para o país. Formamos uma geração marcada por uma oferta insuficiente de vagas nas universidades públicas e pela má qualidade das instituições privadas, concentradas em oito grandes grupos no país. Não consaremos de denunciar tais absursos.