O golpismo ronda o Exército

Existe um legado nefasto da ditadura militar que pode ser visto em várias situações. A tradição de violência de Estado, representada principalmente pela polícia militar, talvez seja o traço mais marcante. Mesmo práticas absurdas, como a tortura, ainda persistem em presídios e nas periferias da cidade e do campo. Em algumas instituições, a lógica persecutória se faz presente. De forma explícita, essa é uma realidade do judiciário e do sistema prisional, os quais aprisionam centenas de milhares de homens e mulheres – em condições, muitas vezes, desumanas – como se esse fosse o caminho para resolver problemas sociais crônicos. Em relação ao sistema político, o PMDB aparece como força cuja principal função é impedir que ocorram mudanças progressistas. Vale dizer que o PMDB foi parte do acordo da suposta transição democrática. Se esses são rescaldos da ditadura, existem outros cujo simbolismo causa arrepios: o golpismo continua em voga nas forças armadas.

Na semana passada, uma loja da maçonaria no Distrito Federal promoveu um encontro que contou com a presença do general da ativa e secretário de economia e finanças do Exército Antonio Hamilton Martins Mourão. O general afirmou que para enfrentar a corrupção e resolver a crise política, os militares podem intervir. Mourão disse, ainda, que este pensamento é comum no alto comando das Forças Armadas.

“Nós temos planejamentos, muito bem feitos. Então no presente momento, o que nós vislumbramos, os Poderes terão que buscar a solução. Se não conseguirem, né, chegará a hora que nós teremos que impor uma solução”.

O general em questão chefiava o 3° Exército, no Rio Grande do Sul, quando foi demitido em 2015 por fazer críticas ao governo Dilma. Acabou transferido por ordem do comandante das Forças Armadas Eduardo Villas Boas. À época, um oficial a ele subordinado fez elogios ao facínora Carlos Alberto Brilhante Ulstra.

As declarações de Mourão são absurdas, nefastas, uma afronta à democracia. Um desrespeito total às vítimas da ditadura militar. Mais grave: um indício claro de que o golpismo ainda sonda mentes da alta oficialidade.

Percebe-se, com isso, as insuficiências da transição para o regime democrático. Parte dessas insuficiências, sem dúvidas, explicam o golpe parlamentar de Estado de 2016. O fato dos responsáveis pela ditadura não terem sido punidos com o rigor devido permite não só declarações funestas, mas mesmo planos de retorno aos fantasmas do passado.

A Comissão Nacional da Verdade, que realizou trabalho sério de pesquisa e investigação, produziu letra morta, uma vez que praticamente nenhuma das suas propostas de reparação histórica foi levada adiante.

O silêncio do governo Michel Temer mostra, por sua vez, a podridão e a letargia dos que estão no Planalto. Abrem mão da função republicana obrigatória de defender a democracia para evitar um novo capítulo da crise política. O Ministro da Defesa, Raul Jungmann, optou pela inércia muda. Eduardo Villas Boas, chefe das forças, limitou-se a dizer que não há planos de intervenção militar.

Os defensores da democracia repudiam com toda a veemência as declarações do General Antonio Hamilton Martins Mourão. O militar deveria imediatamente ser afastado de suas funções atuais e investigado por instigar a ruptura da ordem democrática, ainda que essa já tenha sido vilipendiada.

O Brasil atravessa um dos piores momentos da sua história. A crise é aguda e não dá sinais de que será superada. Nessa vaga, aventureiros podem dar o ar da graça ao se colocarem como possíveis heróis. Em 1964, os militares deram o golpe supostamente contra a corrupção e a ameaça comunista. Duas mentiras. A lição, entretanto, deve acender o farol amarelo. O país não precisa de salvadores golpistas interessados em garantir a ordem de desigualdade social. O futuro só será repleto e íntegro se conduzido pela maioria do povo brasileiro.