O lobby antinacionalista no petróleo

As pessoas que saíram nas avenidas com camiseta da seleção e bandeira do Brasil, se ainda não se deram conta, precisam entender que por trás do impeachment havia um projeto antinacionalista. O entreguismo está na venda de terras para estrangeiros, na entrada de multinacionais em planos de saúde, na privatização sem critério, e, sem dúvida, no giro que ocorre na política do petróleo.
Na semana passada, o jornal britânico The Guardian, com base em informações obtidas pelo Greenpeace, revela que o Reino Unido pressionou o governo brasileiro para afrouxar regras de licenciamento ambiental, de tributação e de exigência de conteúdo nacional. O Ministro do Comércio Greg Hands veio ao Brasil em março para encontros com o secretário Paulo Pedrosa, de nosso Ministério de Minas e Energia. Um documento da chancelaria britânica diz que Pedrosa estaria pressionando o governo para atender a solicitações da Shell, da BP e da Premier Oil.
O fato observado é que não tardou para que fossem tomadas atitudes que beneficiassem petroleiras estrangeiras. Um exemplo estarrecedor é a MP 795, que oferece uma renúncia fiscal tão generosa que a perda estimada para os cofres públicos chegará a um trilhão em 25 anos. Isso representa dezenas de vezes mais que o valor desviado nos escândalos da Petrobras, e o dobro do que a dívida da estatal em seu pior momento. Como se poderá argumentar que a intenção do governo é salvar a Petrobras, se o lobby é feito para benefício de estrangeiros? O petróleo dos campos do pré-sal, no último leilão, foi vendido ao preço de refrigerante.
Em 2013, sob pressão do primeiro momento das manifestações de junho, a Câmara aprovou lei que destinaria os royalties do pré-sal em 75% para educação e 25% para a saúde. Naquele instante inicial, quando as marchas ainda não haviam sido cooptadas pela direita, foi possível pressionar o governo vigente na direção dos interesses populares. Hoje, a pressão que prevalece é a de lobistas estrangeiros. Isto ocorre, no Brasil do golpe, porque quanto mais as passeatas foram manipuladas por grupos e políticos conservadores, mais distante ficou a possibilidade de o país garantir sua soberania nacional. Aquelas cenas dos manifestantes vestidos de amarelo ficou vazia de sentido, pois a política que se seguiu foi de completa destruição do patrimônio nacional. O entreguismo é tão descarado que Temer está sendo apelidado de MiShell Temer, com ênfase no Shell.
É lamentável que não haja uma maior mobilização nas ruas, que a direção para a qual o país parecia caminhar naquelas primeiras semanas de junho tenha se desviado tão rapidamente e tão bruscamente. No entanto, será difícil explicar até mesmo para muitos dos manifestantes que pediram impeachment como é que se justifica esta política antinacionalista. Paulo Pedrosa e o próprio Temer precisam se explicar também à Justiça, e essa privataria criminosa precisa ser revista.