Doria e Alckmin operam barbárie na Cracolândia

Doria e Alckmin operam barbárie na Cracolândia

No último domingo, por volta das seis horas da manhã, durante a Virada Cultural, o prefeito João Doria e o governador Geraldo Alckmin promoveram um verdadeiro show de horror na região da cidade conhecida por Cracolândia. Uma operação policial, com trejeitos cinematográficos, contou com mais de mil agentes das polícias civil, militar e da guarda metropolitana para varrer do mapa as pessoas que circulam a região da Nova Luz, centro de São Paulo.

A justificativa oficial foi a de combate ao tráfico de drogas. O real interesse, no entanto, era o desmantelamento do chamado ‘fluxo’. A ação – por sua violência, arbitrariedade e falta de planejamento – horrorizou os defensores dos direitos humanos. Tratou-se de iniciativa estritamente militar, desconsiderando por completo que o problema real da Cracolândia é de saúde pública e assistência social. Tanto é que a megaoperação sequer foi avisada aos responsáveis do poder público que cuidam e acompanham os moradores do local, supostamente para não ‘vazar a informação’. Quatro imensos problemas derivam de tal escolha, ou seja, da operação sigilosa.

Primeiro, os frequentadores da Cracolândia foram combatidos militarmente sem qualquer respeito aos direitos humanos. Em segundo lugar, por montar uma operação-surpresa, esses mesmos frequentadores fugiram sem os seus pertences para várias partes do centro de São Paulo, fazendo com que a Cracolândia se espalhasse. Doria chegou mesmo a afirmar que durante a sua gestão o problema estava resolvido. A desfaçatez do prefeito foi tamanha que o mesmo já voltou atrás e afirmou tratar-se de um primeiro passo. Um primeiro passo em direção à barbárie, talvez. Em terceiro, centenas de internações compulsórias foram estabelecidas, algo em torno de 500. A falta de planejamento desarmou a assistência social. Hoje não existem vagas para toda essa população. Há registros de pessoas dormindo no chão frio e no relento em áreas destinadas para a acolhida. Vale registrar que as noites em São Paulo nessa semana chegam a fazer treze graus ou menos. Vejam o sofrimento desumano que os usuários estão sendo submetidos!

O quarto problema é de ordem judicial: de acordo com o promotor Arthur Pinto Filho, havia uma liminar da justiça de 2012 que proibia ações que dispersassem os frequentadores do local em questão. Há indícios de ilegalidade em relação ao que foi feito. Diante disso, as promotorias de direitos humanos e da infância e juventude junto à defensoria pública vão abrir um inquérito civil para averiguar o que foi feito.

O Conselho Regional de Psicologia considerou a “ação uma afronta aos 30 anos de luta antimanicomial, celebrada em 18 de maio”.

A atual gestão da prefeitura quer resolver o problema da Nova Luz com a violência de Estado, algo ineficaz e gerador de mais sofrimento humano. Ao passo que busca levar adiante o programa “Redenção”, focado no combate abrupto ao vício – visão retrógrada e rechaçada internacionalmente. Em suma, o problema irá aumentar.

O pressuposto da redução de danos se mostra muito mais eficaz. A pessoa adicta precisa ser ressocializada a partir de uma perspectiva de vida. Em outras palavras, ela precisa de emprego, casa, acesso aos direitos sociais, dignidade e esperança de que as coisas podem ser melhores. Por mais que limitado, o antigo programa ‘De Braços Abertos” caminhava nessa direção.

Não há dúvidas de que o problema do tráfico precisa ser enfrentado. Ocorre que o melhor caminho a ser escolhido é aquele que o enfraquece. Nesse caso, o auxílio para que as pessoas possam abrir mão do vício. O modelo da guerra às drogas mostrou-se totalmente ineficiente. Em sua consequência, as cadeias estão abarrotadas, vidas são ceifadas, a corrupção prevalece e o tráfico segue praticamente sem abalos.

Enfim, precisamos entender que o problema da Cracolândia é, sobretudo, de saúde pública e assistência social. Os responsáveis pela operação de domingo devem responder legalmente pela barbárie vista. O vereador do PSOL Toninho Vespoli entrou com uma denúncia contra João Doria na ouvidoria da polícia. Não podemos aceitar uma sociedade que trate seres humanos com tamanha brutalidade e selvageria.