Skaf e o blefe do pato

Paulo Skaf precisa responder pelos crimes que o envolvem, como as denúncias gravíssimas de que recebeu da Odebrecht R$ 2,5 milhões para sua campanha de 2010 a pedido do presidente da CSN, numa troca de favores promíscua. Marcelo Odebrecht delatou também o acerto de R$ 6 milhões para a campanha de 2014, que está sob investigação. Saud, da JBS, também fala sobre R$ 2 milhões pagos a Duda Mendonça, com nota fria, para saldar dívida de Skaf. O peemedebista, amigo íntimo de Temer, foi um dos grandes articuladores do golpe, e sua hipocrisia criminosa não pode ser beneficiada com a impunidade.

É importante termos uma perspectiva histórica a respeito da atuação da FIESP em assuntos da política nacional. No início dos anos 60, já havia golpismo na FIESP, com sua participação no IPES. O Instituto de Pesquisa e Estudos Sociais, entidade patronal, buscou desestabilizar o governo Jango e articulo

u a aproximação entre empresariado e militares.

Consumado o golpe de 1964, Theobaldo de Nigris foi presidente da FIESP durante boa parte da ditadura. Foi um exemplo acabado de servilismo e de colaboração com o regime de exceção. Apenas com o fracasso dos planos econômicos, ao final dos anos 70, começou a haver setores empresariais opondo-se aos militares, mas o correto é dizer que tivemos no Brasil uma ditadura civil-militar, com apoio expressivo do empresariado, com destaque para a FIESP.

Em 1989, tivemos o episódio da ameaça de fuga de empresários, com Mario Amato na presidência da FIESP. Às vésperas das eleições, Mario Amato disse em entrevista que se Lula vencesse, centenas de milhares de empresários deixariam o país. A chantagem como arma da elite não poderia se mostrar de maneira mais clara.
E hoje temos Paulo Skaf no comando da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo. Aliás, deveria causar maior estranhamento que o empresário à frente dessa entidade não seja propriamente um industrial, pois, desde a falência da empresa do ramo têxtil de seu pai, Paulo Skaf se vale do aluguel de galpões e do mercado de ações. Com isso, temos na FIESP um presidente que sequer parece muito atento à desindustrialização acelerada e à perda de conteúdo nacional sofrida após o golpe que apoiou.
O papel ostensivo da entidade nas mobilizações pelo impeachment de Dilma alçaram um pato amarelo a símbolo da hipocrisia elitista. O mote “Não vou pagar o pato” pode ter soado bem aos ouvidos de parte da classe média, que não constatava um retorno satisfatório para os impostos, mas vindo de onde veio, camuflava interesses particulares. Cabe lembrar que um dos diretores da FIESP, Laodse de Abreu Duarte, atingiu uma dívida de quase R$ 7 bilhões à União, mais do que a dívida da Bahia. Sonegação no Brasil é crime, mas telhado de vidro não inibe nem Skaf nem seus colegas.
Também não convence de que seja por “coerência” que a FIESP apoia o fim do imposto sindical, deixando de recolhê-lo. Não é essa a principal fonte de recursos do sindicato patronal, sendo apenas 11% da fatia. 60% da receita da FIESP vem do recolhimento do sistema S, que no ano passado gerou R$ 16 bilhões. É uma quantia enorme para que as redes Sesi, Senae, Sebrae e Sesc apresentem benfeitorias como se fossem generosidade da iniciativa privada, mas que na verdade têm origem em impostos que saem também do bolso do trabalhador. Fica fácil, portanto, para a FIESP manter seu discurso contra o imposto sindical.
Recentemente, o pato amarelo voltou a se postar na frente da sede da FIESP com o anúncio do aumento de impostos sobre os combustíveis, mas já houve recuo quanto a um protesto programado para Brasília, após uma conversa entre Skaf e Temer no Jaburu. É claro que os correligionários não tiveram problemas em se entender, estando mancomunados no golpe. A diferença de tratamento da FIESP em relação a Dilma e Temer só tem explicações cínicas. A jornalistas, Skaf teve coragem de dizer que “cabe a FIESP discutir economia, não politica”.
Aliás, Paulo Skaf e a FIESP bem que poderiam esclarecer, para todos os que vestiram amarelo na Avenida Paulista, que, se hoje colocam nas costas da ex-presidente Dilma toda a responsabilidade pela grave crise econômica que vivemos, o programa com as isenções bilionárias para grandes empresas foi saudada pela entidade, não muitos anos atrás. O PSOL foi contra o programa econômico de Dilma, e ainda mais avesso à guinada que ocorreu em 2015, com o ajuste fiscal de Levy.
Já não há mais a menor possibilidade de sustentar, como Skaf outrora fazia em debates na TV, que não exista corrupção no meio privado. Empresários de maior patrimônio que Skaf já foram para a cadeia nos últimos anos, e não há motivos para se poupar esse cúmplice de Michel Temer, um dos mais ativos personagens de sua quadrilha. Esperamos que a Justiça seja isenta o bastante para que ocorra um desfecho para Paulo Skaf digno de sua biografia reprovável.